5 formas de prevenir distúrbios alimentares em adolescentes

formas de prevenir distúrbios alimentares

De acordo com as novas orientações da Academia Americana de Pediatria, partindo de evidência científica, pais e profissionais de saúde podem diminuir a probabilidade do desenvolvimento de problemáticas do comportamento alimentar em todo o seu espectro (desde a anorexia até à obesidade), evitando que os adolescentes coloquem excessiva atenção no peso ou em dietas alimentares, privilegiando o encorajamento a um estilo de vida saudável e equilibrado.

As orientações publicadas online na revista Pediatrics no passado dia 21 de Agosto foram desenvolvidas como uma tentativa de dar resposta à preocupação crescente acerca dos métodos pouco saudáveis que os jovens utilizam na busca por um corpo magro e dito perfeito. As problemáticas alimentares destes adolescentes tendem a passar despercebidas nas suas famílias, e mesmo junto de profissionais de saúde, porque muitos não se revelam excessivamente magros. Contudo, as suas perdas de peso rápidas ou manutenção de pesos desejados podem sustentar-se em práticas pouco saudáveis que poderão causar consequências danosas na sua saúde física e psicológica, como por exemplo arritmias ou perturbações de ansiedade. Muitas vezes, alguns jovens são apoiados pelos pais inicialmente a aderir a planos promotores de perda de peso, com vista a ganharem saúde. A verdade é que com frequência tudo se descontrola, e o que começa por ser um plano saudável de mudanças no estilo de vida transforma-se num plano desadaptativo e perigoso para alcançar um baixo peso.

 

Estratégias práticas baseadas em evidências

As novas recomendações incluem cinco estratégias baseadas em evidências que pais, educadores e pediatras podem utilizar para ajudar os adolescentes a evitar tanto a obesidade como doenças do comportamento alimentar, sendo que se aplicam a todos os jovens e não apenas aos que têm problemas de peso.

  1. Pais e médicos não devem encorajar dietas – habitualmente planos alimentares restritivos e impostos não ajudam na auto-regulação dos sinais de fome e saciedade dos jovens. A investigação mostra que os jovens que fazem dietas no 9º ano têm três vezes mais probabilidade de terem excesso peso no 12º ano, comparativamente aos seus colegas. Adicionalmente, dietas alimentares com restrição calórica podem privar os adolescentes da energia que necessitam e favorecer o despoletar de comportamentos anoréticos, que poderão evoluir para proporções em que a própria vida poderá ficar em risco. Assim, pais e médicos devem incentivar que as crianças aprendam a ler, a respeitar e a regular os seus sinais de fome e saciedade, incentivando-as a comer da forma mais diversificada possível, com um foco na energia proveniente da comida e não nas calorias associadas.
  1. Pais e médicos devem evitar conversas focadas apenas no peso – mães que se referem aos seus corpos e pesos com insatisfação e crítica podem inadvertidamente favorecer uma má imagem corporal dos seus filhos, algo que se verifica em metade das adolescentes raparigas e um quarto dos adolescentes rapazes. Os pais são modelos, não só no que incentivam junto dos seus filhos mas sobretudo através das suas próprias posturas no dia-a-dia. Uma baixa satisfação com a imagem corporal tende a surgir associada a baixos níveis de atividade física e uso de estratégias desadaptativas para controlo de peso como indução de vómito ou toma de laxantes, diuréticos e outros produtos de emagrecimento.
  1. Pais e médicos nunca devem gozar os jovens acerca do seu peso – por vezes, com uma tonalidade mais carinhosa ou crítica, pais e profissionais de saúde podem fazer comentários depreciativos relativos ao peso do adolescente. Expressões como “é a minha gordinha”, “é a minha badoxa”, ou “é o meu pequeno Buda”, mesmo que expressas com ternura, podem tornar-se fonte de desagrado para os jovens e até servirem como motivo de gozo por parte de pares. Quer no sentido de magreza extrema quer no sentido de excesso de peso, é importante que não exista um holofote permanente sobre o corpo do adolescente. A forma como os pais se referem à imagem corporal de outras pessoas, tenderá também a moldar a percepção dos filhos em torno dos conceitos de beleza.
  1. As famílias devem partilhar refeições com regularidade – pais e filhos devem sentar-se em torno da mesma mesa para comerem juntos pelo menos uma vez por dia. As refeições devem ser momentos de partilha e união familiar, sem equipamentos eletrónicos por perto, em que de forma prazerosa todos os elementos poderão partilhar aspetos do seu dia-a-dia em jeito de reunião familiar. É também uma oportunidade para os pais modelarem os seus filhos no que diz respeito às refeições, mostrando que podemos comer com calma, pousar os talheres enquanto falamos, que antes de enchermos mais o prato devemos ouvir o nosso corpo e avaliar o nosso nível de saciedade, privilegiando bons alimentos à mesa em detrimento de outros mais vazios nutricionalmente.
  1. Os pais podem ajudar os seus filhos a desenvolver uma imagem corporal saudável – como? Encorajando-os a ter uma dieta alimentar diversificada e saudável e a exercitarem-se para se manterem ativos e enérgicos e não apenas com um foco na perda de peso. Quando as famílias criam momentos em conjunto em que a atividade física está presente ao invés de concentrar todos as partilhas em torno da comida, tendencialmente é mais fácil incutir um estilo de vida ativo nas crianças e de evitar que as emoções se expressem sempre nutricionalmente. Ao mesmo tempo, quando os pais colocam o foco nas experiências mais do que nos resultados bem como elogiam mais aspetos de personalidade da criança do que físicos, estarão a ajudar os jovens a distinguir o que é fundamental do acessório. É fundamental ainda que os pais ajudem os seus filhos adolescentes a interpretar as variadas mensagens que todos os dias chegam via os media e as redes sociais, incentivando por vezes à busca por um ideal físico que é ilusório e pouco saudável.

 

Estas estratégias assumem uma particular importância quando olhamos por um lado, para as taxas de excesso de peso e obesidade na adolescência que tendem a não diminuir e por outro lado, quando consideramos os múltiplos desafios que acompanham esta fase de desenvolvimento, que tornam ainda mais difícil a manutenção de um peso saudável sem incorrer em distúrbios do comportamento alimentar. Isto porque a pressão dos pares é por vezes grande e as preocupações com a imagem corporal multiplicam-se nesta etapa do ciclo de vida.

 

Preventing Obesity and Eating Disorders in Adolescents

Neville H. Golden, Marcie Schneider, Christine Wood, COMMITTEE ON NUTRITION, COMMITTEE ON ADOLESCENCE, SECTION ON OBESITY

Pediatrics Sep 2016, 138 (3) e20161649; DOI: 10.1542/peds.2016-1649

 

Autora: Filipa Jardim da Silva

2017-03-30T08:58:52+00:00 Março 30th, 2017|Comportamento Alimentar, Vários autores|