A menina não seja dramática!

A menina não seja dramática!Ao passar pela Feira Internacional do Artesanato, numa retrospectiva de 30 anos de exposições, descobri uns quadros tridimensionais deliciosos da Vanda Lopes Palma, ceramista de Castro Verde, de inspiração em Edgar Allan Poe, e que vinham acompanhados desta frase: “A menina não seja dramática”. E a frase grudou-se-me, a piscar-me o olho ao sentido de humor. Por isso, aqui estou a explicar-lhe porque é que acho esta frase tão útil à sua – bem, e à minha – saúde mental.

Da cerâmica e das artes para as neurociências: deixe-me apresentar-lhe dois conceitos mais do que testados.

Em primeiro lugar, temos todos um talento primoroso para o disparate negativo. Nenhum neurocientista lhe diria isto assim, bem entendido – são liberdades minhas 🙂 Mas se repararmos no que nos vai cá dentro, entre pensamentos e emoções, somos uma máquina muito bem afinada para atender, seleccionar, reter, valorizar e recordar tudo o que possa ser negativo, ameaçador ou indicador de que há nuvens negras a aproximarem-se no horizonte.

Faz sentido, lá à mãe natureza, claro! Que valor teria andarmos de sorriso beatífico prantado se o que é mau é que pode dar cabo de nós? O universo não teria chegado onde chegou se não fosse a aposta contínua de cada célula e molécula na sobrevivência do todo – individual e espécie, por isso, tudo o que é negativo tem honras de primeira página no jornal da nossa consciência, e é mesmo amplificado para garantir que lhe prestamos atenção.

O segundo dado que lhe queria dar é o da congruência do clima interno: se está de chuva, cá dentro de nós, só se gera chuva – e se está de sol, também podemos contar com tudo o que diz respeito a estados ensolarados. Vou dizer de outra forma: a nossa memória e funcionamento interno estão construídos para espiralar.

 

Imagine um dos seus dias normais: uma longa sucessão de momentos bons, menos bons e maus, verdade? Seja porque acontecem coisas externas a si – o sobrolho carregado do chefe, o humor bilioso da senhora ao balcão, o beijinho do filhote, aquela folha de excel que finalmente tem fórmulas a darem valores que fazem sentido,… Cada um desses momentos alinha tudo dentro  e fora de si, por breve e ligeiro que possa ser: pensa coisas que fazem sentido face ao momento, sente coisas alinhadas e reage com comportamentos que também são congruentes com tudo isso. Até o corpo se alinha, nas suas sensações e na sua postura e restante linguagem não verbal: de um estômago às cambalhotas, ao quentinho no coração, de uma postura expansiva à cara fechada. Estabelecido esse estado – um estado pode durar segundos ou manter alguma constância durante muito, muito tempo – começa a funcionar como um magnete, de intensidade variável, para outros pensamentos e memórias que estejam alinhadas com ele. Está ansioso? Tudo lhe começa a parecer uma ameaça e, deixado em piloto automático, só se consegue lembrar das coisas que, no passado, lhe correram mal e foram ameaçadoras ou que estima que no futuro possam vir a estragar-lhe a vida. Está optimista? Vai lembrar-se facilmente de tudo o que lhe correu pelo melhor. Expliquei a ideia?

 

Então juntemos estas duas informações: o nosso talento para o negativo, e espiralarmos em congruência com o estado interno. Qual é o resultado? Drama!

Quando estas espirais negativas são descontroladas, de grande magnitude e acompanhadas de outras alterações, podemos mesmo estar perante uma perturbação depressiva (com a sua ruminação negativa) ou ansiosa (com a sua ruminação catastrofizante). Mas, em plena saúde mental, sem que nos toque à porta nada que mereça ser mencionado, o facto é que a maioria de nós se confronta um pouco, de vez em quando, com longas-metragens internas de alto drama. Algo nos gerou um clima interno de nuvens negras, que funcionou como um magnete para mais nuvens negras, e chuva e vento, e vai espiralando num tufão de “alto-lá-com-ela”.

Uma boa base de partida para dar conta deste tufão e o fazer passar a brisa agradável que só agita cabelos, é a dupla composta por tomada de consciência e chamar os bois pelos nomes. (Sim, eu sei que às vezes descomplico demais,  mas fico já disponível para dar as devidas referências bibliográficas a qualquer pessoa academicamente sensível. E, entretanto, vou dizendo que esta dupla corresponde às duas primeiras etapas de um método de intervenção psicoterapêutica muito respeitável e eficaz, e que, naturalmente, não têm nomes com bois à mistura).

 

Tomar consciência. De quê? De que há acontecimentos internos que são entidades bem separadas de nós. Uma dor no joelho não sou eu; é uma dor e é no joelho. Da mesma forma, um pensamento ou uma emoção, por mais força de auto-evidência que tenha, não sou eu; é apenas algo que passa por dentro de mim. Percebermos que há acontecimentos internos, com razoável independência de nós, e que não temos de ficar embrulhados neles, confundindo-nos, como o camaleão com o seu contexto, é muito útil para sabermos onde colocar o pé para o próximo passo. E o próximo passo pode ser o de designarmos as coisas por aquilo que são: isto é o magnetismo do negativo, uma habilidade dos nossos cérebros para nos manter alertas e vigilantes, uma espiral negativa. Isto sou eu a ser dramática!

E depois? E depois, “a menina não seja dramática” 🙂 Pelo menos, ando entretida com esta frase, que me ajuda a desencravar e começar a colocar as coisas na sua devida perspectiva, raciocinando de uma forma mais realista, contrapondo argumentos, olhando para a imagem mais geral. Percebermos o que está a passar connosco, só por si, tem poucos efeitos práticos, além daquele AHA esclarecedor que nos arrefece a confusão. Mas é um pouco como o código postal – já vai meio caminho andado. O restante caminho faz-se com outras técnicas, de nomes pomposos, a maioria estrangeirados, mas que já não cabem no âmbito do que lhe queria falar hoje. Talvez para a próxima?

Entretanto, deixo-lhe o desafio: partilhe comigo, e com todos, aqui nos comentários, a frase ou frases que conseguem desencravá-lo quando percebe que tem de mudar o registo e ter mão na sua realidade interna. Talvez inspire alguém e se torne uma ajuda preciosa a alguém que ande preso de espirais negativas!

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde
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2017-07-01T08:54:46+00:00 Julho 1st, 2017|Bem-estar, Cérebro, Madalena Lobo|

12 Comentários

  1. Lavínia 04/07/2017 at 10:50

    Obrigada Madalena! Sempre tão clara na exposição dos problemas que nos faz perceber de imediato que é possível pensar/fazer de outra forma. Um abraço e muitas saudades, Lavínia

    • Madalena Lobo 04/07/2017 at 11:07

      Minha querida Lavínia,
      Sempre contente de saber de si e também de me saber útil!
      Beijos grandes
      Madalena Lobo

  2. Sandra Duarte 03/07/2017 at 09:54

    Ha textos que guardo para os ler sempre que preciso, e este vai ser um deles! Obrigada pelo artigo!
    O que costumo dizer a mim propria quando estou ha algum tempo em “drama” é:
    “Chega, ja tiveste o tempo de “depressão”. Agora olha em frente e recomeça”
    Costuma ajudar-me!

    • Madalena Lobo 03/07/2017 at 10:39

      Espectáculo, Sandra! Obrigada pelo contributo.
      Acho mesmo muito útil, porque quando nos damos permissão para o “disparate” é uma forma de fazermos uma avaliação crítica do que se passa connosco e assumirmos o controlo. Lembro-me de há uns anos dar por mim a pensar: “Vá, mas uns 5 minutos de autocomiseração e, depois, vou à minha vida”. Validamo-nos, legitimamo-nos e… desencravamo-nos 🙂
      Abraço,
      Madalena Lobo

  3. Conceicao Mauricio 01/07/2017 at 17:46

    adorei o texto!… a minha frase, que repito a outras pessoas quando acho compatível é: “isto… daqui a um ano não é nada!”

    • Madalena Lobo 01/07/2017 at 20:10

      E, às vezes, Conceição, “daqui a 1 mês já não é nada”! Verdade?
      Abraço,
      Madalena Lobo

  4. LEONARDO OLIVEIRA 01/07/2017 at 17:10

    “Armadilhas da Mente”… Me veio essa expressão quando estava, longos anos atrás, a viver um luto por uma relação que chegara ao fim.

    • Madalena Lobo 01/07/2017 at 20:09

      Muito bom Leonardo! 🙂
      Abraço,
      Madalena Lobo

  5. Camila 01/07/2017 at 13:31

    Gostei muito do texto. Me fez ver sobre uma perspectiva diferente. As vezes fico presa em espirais negativos e além dos pensamentos negativos fico extremamente desapontada comigo mesma, porque passo acreditar que aquilo, naquele momento sou eu; que faz parte de mim. Tornando quase impossível me desvencilhar desse tipo de sentimento. Gerando um comodismo muito ruim. Mas acredito que a partir de agora terei consciência que “essa dor não sou eu”. Muito obrigada por me proporcionar isso.

    • Madalena Lobo 01/07/2017 at 14:14

      Obrigada, Camila. “essa dor que não sou eu”… a diferença que isso faz!
      Abraço,
      Madalena Lobo

  6. Ana 01/07/2017 at 12:52

    Comigo por vezes resulta…”as coisas só tem o valor que lhe damos”.
    Um excelente artigo este

    • Madalena Lobo 01/07/2017 at 14:13

      Obrigada, Ana! Pelas palavras e pelo contributo!
      Abraço,
      Madalena Lobo

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