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A perpetuação de ciclos disfuncionais

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António Norton

António Norton

Porque razão, algumas pessoas perpetuam ciclos disfuncionais, procurando sempre a pessoa errada e fazendo sempre os mesmos erros? 

Todos nós vivemos em interacção com outras pessoas e muito do nosso bem-estar e da nossa satisfação interior provém das relações que estabelecemos com as outras pessoas.

As nossas interacções começam desde os primeiros momentos de vinculação.

Desde as primeiras experiências de prazer oral e de negação desse e de outros prazeres, que vamos aprendendo a interagir com as pessoas que nos rodeiam.

Primeiramente com os nossos pais, que são geralmente as figuras máximas de vinculação, depois com os familiares e amigos dos pais, quer crianças, quer adultos e mais tarde com as crianças da pré-primária, primária e por aí fora.

Nascemos e crescemos em relação.

Podemos ter desde sempre relações funcionais, muito relacionadas com uma vinculação segura, onde aprendemos o que esperar das nossas figuras de vinculação e vamos crescendo e explorando o meio, sabendo que temos um porto seguro, que são os nossos pais.

Mas, também podemos ter, desde os primeiros estádios de vida relações disfuncionais, em que vemos os nossos pais ansiosos ou altamente angustiados ou cheios de tristeza e desenvolvemos uma vinculação insegura, em que não sabemos como lidar com as figuras de vinculação, pois não sabemos se poderão estar ansiosas ou deprimidas e se poderão estar ou não receptivas às nossas necessidades.

Podemos ainda ter relações altamente disfuncionais, em que vemos os nossos pais como figuras ameaçadoras para nós que, tanto nos batem, como nos dão amor, de uma forma aparentemente incompreensível.

Estes estilos de vinculação, estes padrões de vinculação criam-se e desenvolvem-se desde tenra idade, e de uma forma ou de outra, tendem a se perpetuar, pois as nossas emoções, como resposta aos comportamentos das nossas figuras de vinculação ficaram condicionadas de uma determinada forma.

Cada pessoa é um mundo único e traz consigo as várias memórias de vinculação que viveu, sejam elas verbais ou pré-verbais. Traz condicionamentos, traz respostas emocionais adaptativas que a levaram a se comportar de uma determinada forma em determinadas situações primárias, ou seja que remontam aos primeiros estádios de vinculação.

Cada pessoa traz essa herança que viveu durante a formação do seu estilo de vinculação e quando parte para uma relação traz consigo esse passado. Por outras palavras, traz o seu estilo de vinculação.

É importante perceber que quando falamos de respostas emocionais adaptativas a estilos de vinculação, estamos a falar de algo muito anterior à palavra escrita ou falada. Estamos no domínio do pré-verbal. São memórias muito antigas e que se desenvolveram para nos proteger. Aprendemos como reagir perante determinadas figuras com determinados estilos de vinculação.

Uma vez que aprendemos a lidar com determinados estilos vamos ter tendência para, ao longo da nossa vida procurar pessoas que correspondam ao mesmo estilo de vinculação. Quando falamos de estilos de vinculação não seguros então vamos ter tendência a procurar pessoas não seguras.

E obviamente surgirá uma pergunta completamente legítima: Porquê? Diz o leitor: “Devíamos era fugir “a sete pés” de pessoas que vão lidar connosco como lidaram os nossos pais”.

Compreendo perfeitamente o seu espanto, mas a questão é que por muito desconfortável que possa ser a interacção com figuras de vinculação inseguras a verdade é que algures no nosso passado remoto aprendemos, de alguma forma, a lidar com estas figuras e, portanto, de algum modo, o nosso organismo vai procurar o que lhe é confortável e conhecido. Digamos que é um conforto desconfortável.

Mas a verdade racional é que é muito difícil ter uma relação amorosa satisfatória quando existe insegurança, quando não conseguimos confiar, quando não nos conseguimos entregar, quando temos ciúmes patológicos, quando sentimos raiva quando o nosso companheiro quer fazer amor connosco e o nosso corpo se fecha e não responde sexualmente…

Todos nós queremos relações em que possamos amar e ser amados, numa palavra em que possamos dar e sentir segurança.

O que é que acontece quando duas pessoas não se entendem numa relação amorosa? Podem ficar juntas ou se separar. Se ficam juntas podem pensar:

“O amor vai ultrapassar todas as barreiras e vamos ficar bem”

Se ficam separadas podem pensar:

“Vou sofrer muito, mas o tempo tudo cura e eu vou ficar bem e encontrar a pessoa certa para mim”.

Ambas as ideias podem ser perigosas.

E porquê? Porque sem psicoterapia as pessoas vão ter tendência a repetir os mesmos padrões de vinculação. E por muito amor que tenham uma pela outra vão manter o seu analfabetismo na capacidade de se relacionarem uma com a outra. Sem psicoterapia é como se continuassem com vendas nos olhos a chocar contra as paredes e contra o parceiro, sem realmente o ver, porque não se conseguem ver a si próprias.

Sem psicoterapia dificilmente vão quebrar os automatismos que trazem e que disparam perante determinada expressão facial, determinada expressão emocional, determinado gesto ou inflexão de voz. Não basta amar. O amor dificilmente será suficiente.

A segunda ideia também é perigosa. A pessoa até pode acabar a relação disfuncional, mas normalmente acaba por repetir o padrão que traz consigo, mas, desta vez, com outra pessoa, que normalmente apresenta o mesmo padrão de vinculação que a anterior e o sofrimento vai apenas repetir-se.

Muitas vezes as pessoas surgem em psicoterapia depois de terem repetido vezes sem conta estes padrões e terem tido relações disfuncionais.

Infelizmente existem muitas relações interpessoais disfuncionais e felizmente existe a Psicoterapia para procurar dar resposta e ajudar a pessoa a ter auto-conhecimento da sua forma de interagir e dos seus ciclos interpessoais disfuncionais.

É mesmo importante que a Psicoterapia seja cada vez mais vista com seriedade e com urgência perante a sua mais valia na forma de ajudar pessoas que perpetuam ciclos interpessoais disfuncionais.

Pense nisto! Às vezes nem o tempo nem o amor chegam! É preciso algo mais!

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