A persistência da memória

A persistência da memóriaAtrapalhamo-nos e irritamo-nos. Preocupamo-nos, até. “Onde é que eu pus os óculos?”; “Mas onde é que estacionei o carro?” “Será que fechei a porta?”.

Não registamos alguns dos nossos actos, distraídos que estamos com temas mais prementes.

Ou pensamos “Mas de onde é que conheço esta cara?”; “O que foi mesmo decidido na reunião da semana passada?”; “A sério que tínhamos combinado para hoje?”.

Ficou por lá, um pedaço de informação, solto algures nas ligações entre neurónios, e perdemos-lhe o acesso, não encontramos a referência.

Ou ficou-nos na ponta da língua, ali a pairar, um diabrete escorregadio. Deu-nos a branca, justo quando não podia.

 

Será da idade? Será que se passa alguma coisa séria comigo? Estou a perder capacidades?

 

A memória é traiçoeira. Prega-nos partidas, é complexa, com diversos componentes e tem as suas fragilidades. E, normalmente, tem bons motivos para fazer o que faz, e mesmo quando achamos que nos está a falhar, o facto é que, na larga maioria das vezes, a nossa memória está a funcionar em pleno, e exactamente de acordo com os bons princípios de funcionamento. Mesmo quando não gostamos do resultado.

 

A persistência, por exemplo: as memórias que não nos largam. Agarram-se-nos, inoportunas, surgem em esquinas imprevisíveis do pensamento. Sacudimo-las, porque as acompanham uns arrepios; empurramo-las mesmo, com toda a força, para fora da nossa consciência, mas elas teimam, ficam, permanecem. As boas e serenas, capazes de nos deixarem em alta? Raramente. Ou, pelo menos, dessas, não nos queixamos nós. As teimosas, em technicolor, ganham primeiros lugares no campeonato das más memórias.

 

A persistência envolve lembrar-se daquelas coisas que gostaria de poder esquecer”. Quem o diz é um grande investigador da memória, Daniel L. Schachter, em The Seven Sins of Memory.

 

E tendemos a lembrar-nos dos acontecimentos negativos com um maior detalhe, sobretudo dos seus elementos centrais, o que nos deixa no risco de más companhias, daquelas que aparecem sem ser convidadas, ficam para jantar e se instalam no sofá lá de casa. Por sua vez, este recordar do que não queremos, de forma intrusiva e involuntária, vai fortificando os acessos precisamente a essas memórias: quanto mais negativas, mais nos surgem sem querermos, quanto mais lhes acedemos, mais rápido e fácil lhes é acedermos.

 

E estão criadas as condições para andarmos presos de más memórias. Por vezes de coisas que vivemos, mas também de coisas que vimos e que ouvimos. E a situação estraga-se por completo no momento em que fazemos aquilo que é mais habitual o ser humano fazer quando cai no meio de acontecimentos internos que o perturbam, sejam eles imagens, pensamentos ou emoções: fazemos tudo o que está ao nosso alcance para “afastar esse cálice”: reprimimos, enxotamos, atiramos-lhe com a maior pedra que encontramos, que fiquem ali soterradas no esquecimento. Funciona? Nada! Piora a situação… Quanto mais tentamos esquecer o que a memória quer lembrar, mais o nosso cérebro entende que deve ser importante, e trata essas memórias com o melhor adubo disponível.

 

Em situações traumáticas – aquelas que são emocionalmente tão grandes que têm direito a nome próprio – o tema da persistência das memórias é especialmente importante, porque costuma ser central na reactividade ao trauma, surgindo com uma vividez extraordinária, retraumatizando de cada vez que as imagens emergem.

 

Se está preso de memórias traumáticas, saiba que em Psicologia Clínica e da Saúde existem, já, diversas ferramentas de trabalho que permitem resolver o bloqueio interno traumático, fazer com o que o organismo lide eficazmente com as situações com que teve dificuldade e reabsorva naturalmente as memórias que o afligem.

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde
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2017-06-20T14:48:13+00:00 Junho 20th, 2017|EMDR, Madalena Lobo, Trauma|
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