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A revolução mindful

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Keep Calm_Mindful

“A ARTE DE SER MINDFUL”

Encontrar a paz, numa cultura de stress e digitalmente dependente, pode estar no pensar de forma de diferente.

As passas de uva que estão nas minhas mãos suadas ficam cada vez mais pegajosas. Elas não parecem particularmente apelativas, mas guiada pelo professor, eu pego numa e examino-a com os meus dedos. Reparo que a pele da passa brilha. Ao olhar ainda mais de perto, eu vejo um pequeno buraquinho, onde uma vez se encontrou a haste que a segurava à vinha. Finalmente, coloco a passa na minha boca e enrolo aquela forma enrugada, vezes e vezes sem conta, com a minha língua, sentindo a sua textura. Passado um tempo, empurro-a com os meus dentes e corto-a. E, então, finalmente, mastigo – muito lentamente.

Estou a comer a passa de uva. Mas, pela primeira vez na minha vida, estou a fazê-lo de forma diferente. Estou a fazê-lo de forma mindful. Toda esta experiência pode parecer estranha, mas nós estamos perante uma obsessão com o mindfulness, enquanto segredo para a saúde e a felicidade – e as evidências científicas são cada vez maiores, sugerindo que os seus benefícios são claros. O curso que eu estou a fazer faz parte do currículo de “Redução de Stress baseado em Mindfulness” (MBSR = mindfulness based stress reduction), desenvolvido em 1979 por Jon Kabat-Zinn, um cientista do MIT (Massachusetts Institute of Technology). Existem aproximadamente 1.000 instrutores de MBSR, a ensinar técnicas de mindfulness (incluindo meditação), e eles encontram-se em praticamente todos os estados dos EUA, e em mais de 30 países. O exercício da passa de uva recorda-nos de quão difícil se tem tornado o acto de pensar em apenas uma só coisa de cada vez. A tecnologia tem ajudado nesta fracturação da atenção em pedacinhos cada vez mais pequenos. Nós conseguimos responder a um colega nas bancadas do jogo de futebol do nosso filho; pagamos as contas enquanto vemos televisão; encomendamos as compras do supermercado enquanto estamos presos no trânsito. Numa altura em que ninguém parece ter tempo que chegue, os nossos dispositivos permitem-nos estar em muitos lugares ao mesmo tempo – mas o preço a pagar é que não conseguimos estar plenamente em lugar que gostaríamos de estar.

Mindfulness diz que conseguimos fazer melhor. Por um lado, as técnicas associadas a esta filosofia têm como objectivo calar as nossas mentes ocupadas, tornando-nos mais conscientes do momento presente e menos presos no que aconteceu antes e no que pode vir a acontecer depois. Muitos terapeutas cognitivos recomendam o Mindfulness aos seus clientes como forma de lidarem com a sua ansiedade ou depressão. De uma forma mais geral, é visto como um meio de lidar com o stress.

Contudo, quem vê o Mindfulness como a última moda da auto-ajuda, está a desvalorizar o seu potencial e não compreende porque é que o Mindfulness está a ganhar tanta aceitação com pessoas que habitualmente recusariam técnicas de treino mental, relacionadas com a meditação – empreendedores de Silicon Valey, titãs da Fortune 500, chefes do Pentágono, entre outros. Se a distracção é a condição de base dos nossos tempos, então o Mindfulness, para os olhos destes entusiastas, é a resposta mais lógica. A sua força reside na sua universalidade. Embora a meditação seja considerada um meio essencial para atingir o Mindfulness, o objectivo final é simplesmente dirigir a sua atenção para o que está a fazer, de forma plena. Uma pessoa pode trabalhar de forma mindful, educar os filhos de forma mindful ou aprender de forma mindful. Uma pessoa pode também fazer exercício de forma mindful ou comer. O gigante banqueiro Chase agora recomenda que os seus clientes devem gastar de forma mindful.

Não existem sinais que mostrem que as forças que tentam dividir a nossa atenção, em bocadinhos cada vez mais pequenos, vão cessar. Pelo contrário, elas estão cada vez mais fortes. (A chegar: relógios e óculos “smart”, que nos irão bombardear com notificações constantemente, na nossa visão periférica). Já muitas pessoas vêm o Mindfulness como uma ferramenta indispensável para lidar com ameaças do dia-a-dia, quer emocionais, quer práticas. A capacidade de se concentrar numa uva-passa, durante alguns minutos, não é parva, se as competências necessárias para o fazer forem a chave para sobreviver e ter sucesso no seculo XXI.

RECONECTAR O CÉREBRO

Com pequenos pedaços de uva-passa ainda presos nos meus dentes, eu olho à minha volta para as 15 pessoas que estão comigo no curso de MBSR, que irão estar presentes todas as segundas-feiras à noite, durante 8 semanas. Os meus colegas citam uma variedade enorme de razões para terem investido 350 dólares, para aprender sobre meditação e Mindfulness. Uma senhora loira, de 20 e poucos anos, disse que as exigências do trabalho não lhe davam tempo para parar e reiniciar; foi-lhe receitado ansiolíticos. Uma mãe, em licença de maternidade, afirmou que “estar presente” com o seu bebé lhe pareceu mais importante do que nunca, mas que estava com dificuldades. Um assistente social disse que precisava de ajuda para lidar com o stress de trabalhar com clientes que estão a passar por dificuldades.

Embora eu me tenha inscrito para aprender sobre o que é o Mindfulness, eu tinha os meus próprios stressores que esperava que fossem aliviados durante o curso. Enquanto mãe de uma criança pequena, que trabalha, eu sentia que a vida em minha casa estava cada vez mais caótica. E como muitos outros, eu também estou híper-conectada. Tenho um iPhone pessoal e um BlackBerry para o trabalho, mais um computador no escritório e um portátil e um iPad em casa. É rara a vez em que passo mais de 1 hora sem olhar para um ecrã.

Não é fácil acalmar a vontade interna de estar em contacto constante com o mundo exterior. No início de cada sessão do curso de MBSR, o nosso professor, uma senhora chamada Paulette Graf, toca em dois címbalos pequenos, o que indica que devemos começar a meditar. Durante este período frustrante e agoniante, que dura até 40 minutos, eu tentava focar a minha atenção na respiração, tal como a Paulette aconselhava, contudo sentia-me bombardeada constantemente por pensamentos sobre a minha família, sobre os sons que se ouviam na sala ou até sobre como iria, mais tarde, transcrever a sessão neste artigo.

Numa sessão, foi-nos ensinado a caminhada mindful. Na sala de reuniões pequena onde nos encontrávamos, formámos um círculo e caminhamos juntos. “Sintam os vossos calcanhares a entrarem em contacto com o chão, e depois a palma do pé”, disse a Paulette. “Um pé, depois o outro.” Embora os meus telemóveis estivessem guardados e desligados, começaram a surgir em mim sentimentos de ansiedade sobre o que tinha planeado para essa semana e sobre os possíveis e-mails que poderiam estar a cair na minha caixa de entrada e que iam ficar sem resposta. Os professores de Mindfulness dizem que este género de distracções involuntárias são normais e que não vale a pena repreendermo-nos por estarmos desviados da tarefa que temos em mãos. Em vez disso, dizem que a nossa capacidade de reconhecer que a nossa atenção se desviou é que é o mais importante, é a base do ser mindful.

Isto tudo pode parecer uma versão “New Age” de antigas prescrições para combater o stress. Mindfulness tem as suas raízes na filosofia oriental, especificamente no budismo. Mas existem dois factores que o distinguem e que lhe dão um invólucro prático, que estão a ajudar o Mindfulness a entrar na “mainstream”.

Um dos factores pode ser um marketing inteligente. Kabat-Zinn, entre outros propulsores do Mindfulness, têm muito cuidado para evitar falarem de espiritualidade quando falam da sua prática. Em vez disso, eles advogam uma perspectiva mais de senso comum: pense na sua atenção como um músculo. Como com qualquer outro músculo, é necessário exercitá-lo (neste caso, com meditação) e com esse exercício ele irá fortalecer.

Um outro factor, que embora correlacionado com o primeiro é potencialmente muito mais poderoso na conquista dos cépticos, são as descobertas que a ciência tem feito sobre a capacidade do nosso cérebro adaptar-se e re-conectar-se. Este fenómeno, conhecido por neuroplasticidade, prova que existem benefícios reais em exercitar o nosso cérebro. A ciência está longe de ser conclusiva – principalmente no que concerne o Mindfulness. No entanto, ao não existirem provas contrárias, torna-se mais difícil de afirmar que o Mindfulness tenha benefícios artificiais ou efémeros.

Precisamente por causa desta componente científica, o Mindfulness está a crescer e a transformar-se numa indústria considerável, e está a ganhar terreno entre pessoas que, normalmente, acham que as filosofias do corpo-mente são difíceis de vender. Uma relatório da NIH demonstrou que os americanos gastarem mais de 4 biliões de dólares em tratamentos relacionados com Mindfulness, no ano de 2007, incluindo cursos de MBSR. (NIH irá lançar um novo relatório no final deste ano). Existe uma revista mensal, Mindful, uma pilha de best-sellers e um crescente número de aplicações para telemóvel, relacionados com Mindfulness.

Para Stuart Silverman, o Mindfulness tornou-se numa forma de lidar com o ritmo louco do seu trabalho como consultor financeiro. Ele recebe centenas de e-mails e de telefonemas todos os dias. “Eu sou louco por estar conectado”, ele afirma. Com a crise de 2008 na indústria financeira, a sua ansiedade atingiu um pico; mas mesmo depois da crise ter começado a amenizar, Stuart sentiu que os seus níveis de stress se mantiveram. Então, em 2011, ele levou um grupo de clientes para um retiro de Mindfulness. O grupo deixou todos os seus telemóveis e passaram 4 dias num “resort” em Catskills, acima de Nova Iorque, a meditar, a participar em discussões de grupo, sentados em silêncio, a praticar yoga e a comer às refeições de forma mindful e em silêncio. “Para quase toda a gente, foi uma experiência que alterou as nossas vidas”, contou Stuart Silverman.

O programa em Catskills foi conduzido por Janice Marturano, uma antiga vice-presidente de General Mills, que começou o seu trajecto no Mindfulness numa iniciativa que a empresa organizou em Catskills. Acabou por deixar a empresa em 2011 para dirigir uma organização que ela própria criou, o Instituto para a Liderança Mindful (“Institute for Mindful Leadership”). (Cerca de 500 colaboradores da General Mills já participaram em acções de Mindfulness, desde que Marturano apresentou este conceito aos gestores de topo da empresa, em 2006, e também têm uma sala para meditação em cada um dos edifícios no campus da empresa em Minneapolis). Janice Marturano já conduziu sessões de treino de Mindfulness de sucesso, em 2013 em Davos, e escreveu um livro, publicado em Janeiro, chamado “Encontrar o espaço para liderar: um guia prático para a liderança mindful” (“Finding the space to lead: a practical guide to mindful leadership”). Ela afirma que a maior parte dos líderes que conhece sentem-se cercados por longas horas de trabalho e conectividade praticamente constante. Para estas pessoas, não parece existir tempo para observar de fora e perceber o que é importante ou para conseguirem planear com antecedência.

Existe evidência que eles estão correctos. Investigadores descobriram que o “multitasking” leva a um decrescer na produtividade. Estudantes e trabalhadores que constante e rapidamente mudam entre tarefas têm uma menor capacidade de filtrar informações irrelevantes, e fazem mais erros. E muito trabalhadores em empresas, hoje em dia, têm dificuldade em realizar pausas. De acordo com um estudo recente, mais de metade dos adultos americanos empregados verificam mensagens de trabalho aos fins-de-semana, e deste grupo, 4 em 10 verificam mensagens de trabalho enquanto em férias. É difícil descontrair quando o teu patrão ou os teus colaboradores estão à distância de um clic. Maturano afirma: “A tecnologia ultrapassou o limite que nós conseguimos lidar.”

Pode parecer paradoxal, então, que Silicon Valley se tenha transformado num centro de cursos e conferências sobre Mindfulness. “Wisdom 2.0”, um encontro anual de mindfulness para líderes em empresas de tecnologias, começou em 2009 com 325 participantes, e para este ano os organizadores esperam mais de 2.000 pessoas. Aqui os participantes irão ouvir Kabat-Zinn falar, tal como chefes executivos do Twitter, Instagram e do Facebook. Entretanto, o Google tem um programa interno de Mindfulness chamado “Procura dentro de ti” (“Search Inside Yourself”). Este curso de 7 semanas foi iniciado por um engenheiro da Google e ocorre 4 vezes por ano no campus de Mountain View da empresa, na Califórnia. Com este curso, milhares de colaboradores do Google aprenderam técnicas de foco de atenção, incluindo meditação, com o objectivo de libertar espaço mental para criatividade e pensamento em larga escala.

De certa forma faz sentido. Engenheiros que escrevem código falam frequentemente sobre estar “in the zone” (≈ focados/concentrados), da mesma forma que atletas de alta competição – o que os professores de Mindfulness referem como sendo o auge do estar presente e prestar atenção. (O co-fundador da Apple, Steve Jobs, disse que a sua prática de meditação foi directamente responsável pela sua capacidade de concentração e ignorar distracções). Claro que muitos dos engenheiros de primeira linha continuam a optar por mais “gadgets” e “software” que só vão piorar o seu nível de distracção.

Porém, ultimamente, têm sido feitos progressos em pegar na tecnologia para também encontrar soluções. Existem centenas de aplicações de Mindfulness e de meditação disponíveis no iTunes, incluindo uma chamada “Headspace”, oferecida pela empresa do mesmo nome, liderada por Andy Puddicombe, um antigo monge budista. Puddicombe, de 40 anos, foi co-fundador da “Headspace” no Reino Unido em 2010, e abriu um novo escritório em Los Angeles em 2013, após ter obtido apoio de investidores. A empresa oferece conteúdos gratuitos, como aplicações, e conteúdos pagos, como um conjunto de vídeos online, que funcionam como uma inscrição num “ginásio” para a mente, que são narrados por Puddicombe e que explicam às pessoas como meditar e o que é o Mindfulness.

“Não há nada de mau ou perigoso em usar um smartphone, desde que se tenha consciência de como o usar da forma correcta”, diz Puddicombe. “Trata-se de desligar, ligando-se”.

A CIÊNCIA DO “DESTRESSING” (≈ não stressar)

Jon Kabat-Zinn, o pai do MBSR, não parece o tipo de pessoa que anda a vender meditação e Mindfulness para a América de ritmo rápido e massas stressadas. Quando o conheci numa conferência de Mindfulness em Abril, ele estava vestido de calças de bombazine, camisa e blazer, com óculos e um cabelo grisalho bem forte. Ele parecia mais um professor do que o guru do Mindfulness que é.

Todavia, um professor é capaz de conseguir espalhar melhor a palavra, sobre o Mindfulness, do que um guru. Filho de um imunologista e uma artista, Kabat-Zinn, agora com 69 anos, estava a tirar um doutoramento em biologia molecular, no MIT, no início dos anos 70, quando participou numa conferência sobre meditação, por um mestre Zen. “Foi muito comovente. Eu comecei a meditar nesse dia”, ele afirma. “E quanto mais meditava, mais percebia que faltava alguma coisa, que a ciência não explicava, sobre a forma como nós, seres humanos, vivemos.”

Em 1979, Kabat-Zinn, já tinha o seu PhD e trabalhava no Centro Médico da Universidade de Massachusetts, estudando o desenvolvimento dos músculos, e dando aulas de anatomia e biologia celular. Num retiro de meditação nesse ano, ele teve uma revelação. E se conseguíssemos usar a meditação budista para ajudar os pacientes a lidar com doenças como a dor crónica? Mesmo que não conseguisse aliviar os seus sintomas, Kabat-Zinn especulou que o treino de Mindfulness ajudaria estes pacientes a refocar a sua atenção, para que conseguissem alterar as suas respostas à dor e, consequentemente, reduzir o seu sofrimento de uma forma geral.

Em conjunto com 3 médicos, Kabat-Zinn abriu uma clínica dedicada à redução do stress, na Universidade de Massachusetts, com tratamentos baseados na meditação e no Mindfulness. “Foi como uma espécie de projecto piloto, com zero dólares.”, explica.

Quase imediatamente os pacientes da clínica começaram a demonstrar níveis de dor inferiores. Para alguns, a dor continuou igual, no entanto o treino de Mindfulness melhorou a sua capacidade de lidar com o stress da doença. Eles conseguiam separar o seu dia-a-dia da sua identidade enquanto doentes de dor crónica. Segundo Kabat-Zinn, “Isso é o melhor que podemos esperar; não é encontrar a cura para todas as doenças, mas antes que as pessoas consigam encontrar qualidade de vida da mesma forma.” Entretanto, o programa de Kabat-Zinn foi absorvido pelo currículo do MBSR, agora utilizado por centenas de professores em todo o país.

Desde então, os cientistas têm conseguido provar que a meditação e um treino rigoroso de Mindfulness pode diminuir os níveis de cortisol e a pressão sanguínea, aumentar a resposta imunitária e possivelmente afectar a expressão genética. Estudos científicos também têm revelado que a meditação pode ter um impacto na estrutura do próprio cérebro. Partindo do princípio da descoberta que os cérebros são mutáveis, de acordo com a experiência vivida, ao contrário do que se acreditava anteriormente de que atingindo a idade adulta os cérebros eram massas estáticas, um número crescente de neurocientistas tem procurado descobrir se a meditação, e o Mindfulness, conseguem contrariar os efeitos do stress, do trauma, e das distracções constantes, no nosso cérebro. Estas investigações têm alimentado o crescimento do MBSR, entre outros programas de Mindfulness, dentro de empresas e instituições públicas.

“Existe uma faixa da nossa cultura que não vai dar ouvidos a alguém vestido em trajes de monge, mas que vão prestar atenção a evidências científicas”, afirma Richard J. Davidson, fundador e director do Centro de Investigação para Mentes Saudáveis (“Center of Investigating Healthy Minds”) no Centro de Waisman, na Universidade de Wisconsin na Madison. Davidson e os seus colegas publicaram um artigo, na prestigiada revista “Proceedings of the National Academy of Sciences” em 2004, onde utilizavam eletroencefalografias para mostrar que os monges budistas, que já meditaram mais de 10.000 horas, tinham cérebros com uma conectividade mais funcional do que monges mais novos. Estes monges mais experientes também demonstravam maior actividade de ondas gama, o que indica níveis mais elevados de consciência.

Claro que a maioria das pessoas nunca irá meditar ao nível de um monge. No entanto, os neurocientistas têm demonstrado que pessoas que meditam, com muito menos experiência que um monge, podem ter maior capacidade de memória de trabalho e uma diminuição no vaguear dos pensamentos.

Muitos dos estudos sobre Mindfulness e meditação foram financiados por fundos privados e não atingiram todos os standards científicos requeridos, levando a que a NIH (“National Institutes of Health”) declarasse, em 2007, que as investigações futuras sobre Mindfulness teriam de ser “mais rigorosas”. Assim, para este fim, a NIH criou cerca de 50 ensaios clínicos, nos últimos 5 anos, para examinar os efeitos do Mindfulness na saúde – sendo que cerca de metade referem-se ao programa de MBSR de Kabat-Zinn. Os ensaios clínicos que foram concluídos, e os que ainda estão a decorrer neste momento, incluem estudos sobre como a MBSR pode afectar, a vários níveis, desde a Fobia Social até à resposta imunitária do corpo ao HPV, ou até à fadiga relacionada com a existência de um cancro. De uma forma geral, em 2003, foram publicados 52 artigos sobre Mindfulness em jornais científicos; em 2012, esse número saltou para 477 artigos.

MINDFULNESS CHEGA ÀS MASSAS

Tim Ryan, um congressista democrático de Ohio, está entre o grupo de pessoas que está a tentar arranjar mais fundos para investigação sobre Mindfulness. Stressado e exausto após a sua eleição, Ryan participou num retiro de Mindfulness, liderado por Kabat-Zinn em 2008. Desligou os seus dois blackberrys e terminou a experiência com 36 horas de completo silêncio. “A minha mente ficou tão silenciosa, e tive a experiência de sentir o meu corpo e a minha mente no mesmo tempo e no mesmo espaço, sincronizados”, explicou Ryan. “Eu fui falar com o Jon e disse-lhe «Temos de estudar isto! Temos de levar isto para as nossas escolas, para o nosso sistema nacional de saúde.”

Desde então, este congressista tornou-se numa “rock star” entre os “evangelistas” do Mindfulness. Nos seus livros, “Uma nação mindful” (“A Mindful Nation”), publicado em 2012, e “Mindful”, lançado em Maio de 2013, colocou Ryan numa posição privilegiada para ensinar o Mindfulness nas escolas do seu distrito, através de um fundo federal de 1 milhão de dólares. Ryan já fez várias sessões de meditação e conferências sobre Mindfulness para os membros gestores, e os colaboradores, da Capitol Hill. Este esforço, afirma Ryan, pretende “acender pequenas velas por baixo da abóbada da Capitol”.

Elizabeth Stanley, uma professora associada de Georgetown, está a tentar fazer o mesmo para as pessoas de uniforme (= militares). Stanley era uma oficial de inteligência do exército, quando, no início dos anos 90, foi destacada para os Balcãs. Depois de sair do activo, Stanley inscreveu-se num programa doutoral em Harvard e obteve um MBA no MIT – simultaneamente – com o plano de seguir uma carreira estudante questões de segurança nacional.

Contudo, as exigências de dois cursos superiores, por cima de stress residual do seu tempo nos Balcãs, Stanley teve dificuldade em lidar com isto tudo. “Apercebi-me que o meu corpo e o meu sistema nervosa estavam sempre presos em alta”, afirma. Ela iniciou terapia, começou a praticar yoga e meditação mindful, conseguindo finalmente terminar o seu doutoramento e MBA.

“Num longo retiro em 2004, apercebi-me que eu queria juntar estes dois lados de mim e queria encontrar uma forma partilhar estas técnicas com os homens e as mulheres de uniforme”, afirma Stanley. Juntou-se com Amishi Jha, uma neurocientista da Universidade de Miami que estuda a atenção, e juntas lançaram um estudo piloto (com fundos privados) que pesquisou se um programa de Mindfulness poderia tornar os militares da Marinha mais resilientes face ao stress das situações de combate. Os resultados foram tão promissores, de acordo com Jha, que o Departamento da Defesa lhe atribuiu duas bolsas de 1 milhão de dólares para continuarem a sua investigação, utilizando um programa de MBSR criado por Stanley, designado Treino de Fitness Mental baseado em Mindfulness (“Mindfulness-Based Mind Fitness Training”). Desde então, Stanley tem estado envolvida em mais dois estudos relacionados com o Mindfulness e os militares da Marinha, e Jha recebeu mais 3,4 milhões de dólares para estudar os efeitos do treino do Mindfulness no stress de outras populações, tal como estudantes universitários em altura de exames ou contabilistas na altura de entregar os impostos.

Os professores têm começado a recorrer cada vez mais ao Mindfulness – o que talvez seja um bom sinal, considerando como as crianças têm a sua capacidade atencional cada vez mais dividida pelas tecnologias. (Em média, um adolescente americano envia e recebe mais de 3000 mensagens por mês.) Um programa chamado “Escolas Mindful” oferece treino online para professores, ensinando como é que eles podem equipar os seus alunos com técnicas para estarem mais concentrados nas aulas e para lidarem melhor com o stress. Lançado em 2010, este programa já chegou a mais de 300.000 alunos e a professores de mais de 43 países e de 48 estados dos EUA.

“Sempre foi a minha intenção que o Mindfulness chegasse às massas”, afirma Kabat-Zinn, cujo livro “Viver em modo de catástrofe” (“Full Catastrophe Living”), publicado pela primeira vez em 1990, é a bíblia do MBSR. Ultimamente, este professor também tem levado o Mindfulness fora de portas. Em Novembro foi a Beijing, onde liderou um retiro para 250 estudantes chineses, cientistas e monges. “Isto é uma coisa que as pessoas agora começam a achar cativante, em muitas muitas culturas, e a razão para isso reside na ciência”, afirma.

OUVINDO A VIDA

O curso de MBSR que eu frequentei consistia de 21 horas, mais trabalhos de casa. Numa semana, tivemos de comer de forma mindful, recordando sempre de “inspirar e expirar regularmente (com consciência!)”, de acordo com o handout. Uma vez que éramos todos nova-iorquinos, uma outra tarefa envolvia contar as pessoas que andavam connosco na carruagem do metro. Um dos meus colegas disse que o Mindfulness o tinha ajudado a perceber que, quando ele parava de ouvir música ou jogar no telemóvel, e observava as pessoas à volta dele, ele sentia-se mais presente quando chegava ao trabalho.

Após 8 semanas, juntamo-nos num sábado para um último exercício – um retiro de 5 horas. Cada um trouxe o seu almoço, e depois de meditarmos e praticarmos yoga, comemos juntos, em silêncio, numa das salas do 2º andar com vista para o parque. Depois da refeição, a professora Paulette conduziu-nos para o parque e disse-nos para simplesmente vaguearmos durante 30 minutos – uma prática de meditação chamada “vaguear sem destino” (“aimless wandering”). Sem telefones e sem falar. Apenas a estar presente, disse ela.

Enquanto eu olhava para o vasto relvado, rapidamente identificava os meus colegas. Eles pareciam zombies, a vaguear sozinhos por entre grupos de amigos ou famílias que faziam picnics. Eu vi um grupo de jovens que jogavam frisbee, crianças a andar de bicicleta e duas senhoras a apanhar sol.

Eu vivi perto deste parque durante 3 anos e passei centenas de horas a explorá-lo, todavia o que me pareceu diferente naquele dia do retiro foram os sons. Eu reparei no clap, clap das sapatilhas dos corredores. Vi um grupo que jogava voleibol no relvado, e pela primeira vez ouvi o jogo. A bola fazia barulhos diferentes quando batia no chão ou quando era servida pelos jorgadores. Estes grunhiam quando entravam em contacto com ela. Thud, whap, grunt. Whap, whap, thud. Ouvi também um tilintar suave, e soube logo o que era. Atrás de mim passou um cão com um cartão de identificação na coleira. Jingle, jingle.

Depois dessa meia hora, voltámos para a sala com a Paulette. Tivemos uma discussão breve sobre como poderíamos continuar o nosso treino de Mindfulness, através de outros cursos, e depois acartamos as cadeiras e arrumamo-las no armário. Silenciosamente, descemos as escadas e saímos pela porta da entrada. Consegui aguentar até chegar a casa antes de ligar os meus telemóveis.

Nos meses que se seguiram, eu não tenho meditado muito, no entanto o curso provocou pequenas (mas significativas) alterações na minha vida. Comecei a utilizar um relógio, o que corta para metade as vezes que olho para o meu iPhone, fugindo à tentação de verificar os meus e-mails ou de ir à internet. Quando vou a um restaurante e a pessoa que está comigo se levanta para ir à casa de banho ou para atender uma chamada, eu resisto ir ver notícias ou ir ver o meu facebook no meu telemóvel (uma dica que me deram no curso). Em vez disso, eu simplesmente fico sentada e observo as pessoas à minha volta. E quando passeio na rua, apercebo-me que estou a sentir os cheiros no ar e a ouvir a melodia da cidade. As notas e os ritmos sempre lá estiveram, claro. Mas agora parecem mais ricos e mais importantes.

 

in:

“A REVOLUÇÃO MINDFUL”, by Kate Pickert (Revista Time)Capa

A ciência de encontrar um foco numa cultura de “multi-tasking” esgotante

Artigo traduzido por Catarina Cunha, da Oficina de Psicologia

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