Acender uma vela a meio do túnel

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Francisco Gonçalves Ferreira

Francisco Gonçalves Ferreira

Ouço muitas vezes as pessoas dizer que precisavam que alguém lhes mostrasse a luz ao fundo túnel. É uma expressão relativamente presente na vida das pessoas logo desde a adolescência, tendo uma expressão curiosamente forte nessa fase. Num trabalho que realizei de prevenção do suicídio e promoção da saúde mental nas escolas, com alunos do 9º ano, quando perguntava aos adolescentes como poderiam fazer para ajudar um colega ou um familiar que lhes dissesse que desejaria morrer, a resposta era muitas vezes “mostrar a luz ao fundo do túnel”, que significava mostrar o mais possível que a vida é boa, que o que é importante é que as pessoas se divirtam e não pensem nos problemas.

Com os adolescentes na escola, mas também na sala de terapia, as famílias, os casais, as pessoas, acabam por demorar pouco tempo até perceber que muitas vezes essa tentativa, apesar de muito bem intencionada, provoca distância e sentimento de incompreensão, por vezes até aumento do desespero, por parte de quem está a querer ser ajudado, de quem sofre, de quem vive no túnel há muito tempo. O caso muda de figura quando essas pessoas são desafiadas a encontrar uma vela para acender a meio do túnel, abandonando o foco na pressa pela meta, pela luz total, e admirando os pormenores de um lugar escuro acompanhado.

Surgem diálogos surpreendentemente ricos quando nos juntamos a alguém para ver, sentir, descrever o escuro sem a pressa ou a responsabilidade de criar luz, ou sem a culpa de não conseguir curar. Não importa curar. Importa sentir, de preferência acompanhado. Perguntava-me noutro dia um pai como haveria de explicar à filha que ela não tinha que ficar triste porque os colegas da escola não gostam dela. Perguntei-lhe como fazia ele quando se sentia no seu próprio túnel. Respondeu-me que não sentia, nunca se permitiu entregar ao sofrimento porque só sofre quem é fraco. Perguntei-lhe porque me pedia ajuda. Respondeu-me “para que me ajude a sair do sofrimento”. Perguntei-lhe “como faço para entrar?”. Pediu-me para continuar a fazer perguntas. Após alguns minutos de perguntas e respostas sérias para tentar perceber onde, quando e de que forma se abria a porta de entrada para os seus sentimentos, perguntei-lhe: “sente-se agora mais feliz? Ele respondeu-me seriamente “não”.  Depois esboçou um sorriso e disse “mas talvez mais acompanhado”. Devolvi-lhe o sorriso e respondi: “bem vindo ao túnel”.

Se notar que alguém próximo de si se sente num túnel sem saída nem luz ao fundo, espere só mais um segundo antes de mostrar a saída. Não procure respostas, faça perguntas. Pergunte à tristeza dele ou dela de que cor é, que forma tem, que peso tem, com que imagem se prefere representar, a que cheira, se se comesse a que saberia, com que velocidade se move, e por aí fora. Desbunde. Não precisa resolvê-la. Precisa apenas conhecê-la um pouco melhor para saber por onde entrar. É que quando se está lá dentro acompanhado, o caso muda sempre de figura!

 

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