Amores e desamores

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Susana Matos Duarte

Susana Matos Duarte

Felizmente, a nossa sociedade tem vindo a valorizar cada vez mais a importância do Amor nas relações. Porém, muitos mitos se têm criado à volta do que é verdadeiramente o Amor. Para muitas pessoas, o Amor parece ser uma mistura entre o amor romântico de séculos anteriores (que tem mais a ver com a paixão arrebatadora do que propriamente com o amor…), e uma necessidade de que o outro, na relação, preencha todas as nossas necessidades afectivas. Ainda se confunde muito Amor com Paixão…

A realidade é que, passada a fase da paixão, há todo um conjunto de dinâmicas que mudam de forma mais ou menos abrupta: aquela ânsia pelo outro, aquele fogo que unia os corpos, aquela sensação mágica de que tudo no outro nos completa, pode começar a esmorecer…e não ser suficiente para criar laços de afinidade e partilha.

Costumamos ouvir definições sobre o Amor como ser o “encontrar a nossa cara-metade”, ou o necessitar do outro para se “sentir completo”. O problema surge quando, na realidade, para sermos uma face da mesma moeda, temos também de ser metades de nós próprios… Baseados nestas ilusórias concepções, temos elementos do casal que praticamente anulam as suas maneiras de ser, tentando a todo o custo encaixar-se no outro. Assim, como não há um equilíbrio entre o que se dá e o que se recebe, havendo um “dominante” e um “dominado”, a relação torna-se frágil e geradora de sofrimento. O “dominado” precisa tanto do outro, é tão dependente afectivamente, que se torna obsessivo e asfixiante, adoptando uma postura de “vítima”; por outro lado, o “dominador” é tão insatisfeito, que procura no outro uma espécie de espelho mágico, narcísico, exigindo que todas as suas vontades sejam cumpridas por direito. Este tipo de relação desarmoniosa pode tornar-se demasiado desgastante e culminar em desamor.

Quando, no final, a relação acaba por não resultar e se dá uma ruptura, tenta-se de tudo: encontrar “culpados”, esmiuçar onde é que se falhou, e sofrer um sem número de pressões íntimas e sociais. E eu atrevo-me a afirmar: será que não é possível que essas duas pessoas possam simplesmente não ser uma para a outra e pronto? Talvez, em muitos casos, a separação/divórcio seja mesmo a melhor solução e não haja realmente mais nada a saber. Se estar com outra pessoa significa arruinar a nossa liberdade individual, então, essa relação não pode fazer sentido. A sua continuidade forçada só iria perpetuar problemas físicos, emocionais e da alma…Por vezes, uma ruptura pode ser o princípio para uma vida melhor, mesmo que implique inicialmente uma boa dose de sofrimento.

Para que uma relação amorosa faça sentido, é fundamental o ingrediente principal – o Amor -, mas é também muito importante que o casal sinta que está a construir um Projeto em Comum! Talvez seja esta a verdadeira essência do Amor: sermos livres no nosso interior, mas, dentro dessa liberdade, continuarmos a querer aquela pessoa: porque ela nos faz sentido, porque ela nos enriquece interiormente e porque queremos tê-la ao nosso lado, pela vida fora, a crescermos juntos!

“Todo o casal faz-se de três elementos: eu, tu e nós. Cada um deles tem uma identidade e uma vida próprias e nem o casal nem os cônjugues podem esquecer-se de que autonomia, partilha e negociação são, se não palavras mágicas, pelo menos instrumentos fundamentais de articulação.”

(in Alarcão, M., 2000, “(des)Equilíbrios Familiares”, p.121)

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