Aprender a viver com a memórias que causam dor

Sónia Anjos

Sónia Anjos

Temos experiências de vida que gostamos de recordar, das quais nos orgulhamos e que nos transmitem uma sensação de bem-estar e alegria. Temos experiências de vida difíceis e dolorosas e que gostaríamos que não tivessem acontecido. Algumas vivências destas experiências difíceis acabam por se desvanecer com o tempo, outras permanecem ao longo da vida e surgem ( sem darmos por isso) com a mesma carga emocional do passado.

 

Quantas vezes não desejou ter o poder para poder apagar essas memórias da sua mente? Infelizmente ou se calhar felizmente não podemos apagar as memórias que nos perturbam. Afinal a vida é assim, feita de bons e maus momentos. A história de vida individual só tem significado com todas essas vivências e aprendizagens.

 

Porque há memórias que nos continuam a  perturbar e  a afetar o nosso bem-estar apesar de distantes? Por exemplo, se passarmos por uma situação  em que nos sentimos humilhados, é natural que durante semanas e até meses possamos ficar perturbados, não consigamos pensar noutra coisa, que surjam imagens perturbadoras, que possamos sentir zanga e ou vergonha. Passado algum tempo estas vivências vão-se desvanecendo e até nos permitem aprender a lidar melhor com situações futuras. No entanto nem sempre é assim,  a experiência pode dar origem a uma memória traumática que normalmente compromete a forma como nos vemos a nós e nos relacionamos com os outros em determinadas situações no futuro.

 

[h2]O que faz com que algumas experiências sejam gravadas de forma desadaptativa e gerem memórias traumáticas? Como estas memórias podem interferir no bem-estar actual?[/h2]

De uma maneira geral, quando estamos perante um acontecimento adverso, a vivência em termos emocionais, cognitivos e sensorial é integrada de forma adaptativa em esquemas emocionais e cognitivos. São este esquemas que nos permitem lidar com situações futuras. Nem sempre isso acontece. Pode acontecer que perante estas vivências a informação seja armazenada em esquemas desaptativos. Nestas situações e sempre que surge um estímulo interno ou externo que active a memória do acontecimento original,  a informação emocional e cognitiva relacionada emerge na sua forma original. Uma das razões para isto acontecer pode estar relacionada com um desequilíbrio no sistema nervoso, causando alterações nas conexões entre os neurotransmissores que faz com que a informação se mantenha cristalizada e não seja processada de forma adaptativa.

 

O EMDR – eye movement desentization and reprocessing é uma técnica desenvolvida em 1987 pela Dr Francine Shapiro e que permite a dessensibilização  e o reprocessamento de memórias cristalizadas  pela estimulação bilateral do cérebro, através do movimento ocular.  Este mecanismo é semelhante ao que acontece na fase REM do sono.

 

O EMDR é uma abordagem terapêutica aceite na comunidade científica como tratamento de primeira linha para o  stress pós-traumático, como a Associação Americana de Psiquiatria, Organização Mundial de Saúde, o departamento de saúde mental de Israel, da Irlanda do Norte, do Reuno Unido, França, Suécia entre outros. Diversos  estudos científicos têm demonstrado a aplicação clinica do EMDR a outras problemáticas como a dor crônica, transtornos somatoformes, fobias e pânico.

 

 

A eficácia do EMDR reside no facto de ser uma abordagem integrativa que permite não só a estimulação bilateral do cérebro mas também o reprocessamento  de informação emocional, cognitiva, e sensorial. Esta abordagem multidimensional permite uma intervenção rápida não só na redução sintomatologia mas também no reprocessamento da memória e das suas conexões a nível emocional e cognitivo.

2015-08-21T10:01:38+00:00 Agosto 21st, 2015|EMDR, Sónia Anjos|
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