Assuntos Inacabados – Quando as relações do passado contaminam o presente

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Inês Mota

Inês Mota

É com frequência que continuamos nas relações do presente a reviver assuntos inacabados dolorosos, relativos a relações passadas muito significativas.

Assuntos inacabados referem-se à forma como a pessoa se encontra prisioneira num determinado padrão interaccional desenvolvido no passado, acabando por demonstrar com regularidade no presente respostas que continuam a ter uma interferência negativa no seu funcionamento e nas suas relações interpessoais do dia-a-dia.

O assunto está então inacabado no sentido de que de forma intrusiva se “intromete” no presente e é então como se continuássemos a responder àquela situação do passado de uma forma que acaba por já não ser ajustada no contexto presente.

Habitualmente um assunto inacabado é detectado perante respostas secundárias desenvolvidas sobre necessidades básicas universais que não foram preenchidas pelos cuidadores, como protecção, segurança, estima, pertença, autonomia…

As respostas secundárias que se desenvolvem com um carácter protector para o próprio como, desamparo, ressentimento, resignação camuflam normalmente sentimentos poderosos que raramente foram expressos como raiva, medo, tristeza, vergonha, por as necessidades básicas não terem podido ser satisfeitas.

De acordo com a abordagem de Leslie Greenberg, há a possibilidade em psicoterapia de se recorrer a uma tarefa que permite a resolução dos assuntos inacabados: a cadeira vazia.

A tarefa consiste em desencadear um diálogo “sentando”na cadeira vazia o outro significativo: o pai, avô, mãe, avó, tios, irmãos ou qualquer “figura” que de alguma forma tenha sido sentida como negligente, abandónica ou abusadora.

Pelo desenrolar desta tarefa pretende-se que a pessoa possa contactar com o outro imaginado sentado diante de si, com as suas características idiossincráticas e que desta forma seja desencadeada uma resposta emocional diante dessa presença, na qual são evocados sentimentos não resolvidos. Nesta re-experiência guiada permite-se aumentar a consciência emocional dos sentimentos poderosos até então não expressos para que estes possam ser explorados e reestruturados.

Muitas pessoas demonstram resistências em iniciar a tarefa da cadeira vazia, umas porque questões culturais ditam que é um desrespeito manifestar determinados sentimentos perante figuras de autoridade, outras porque o desamparo dita que já tentaram de tudo para a diminuição do mal-estar e outras porque se resignaram e decidiram que não lhes cabe a elas continuar a procurar a resolução daquela relação.

A técnica da cadeira vazia tem a mais valia de permitir a oportunidade de ser desenvolvido um diálogo que “não é real” e que não tem de acontecer no “mundo real”, mas que pode ter lugar no espaço terapêutico, um espaço seguro onde se pode expressar sentimentos poderosos até então apenas mantidos para o próprio, em relação a alguém significativo.

É um trabalho intenso mas que permite que a pessoa experiencie um grande alívio após a resolução do assunto inacabado, pela expressão ao outro do sofrimento pelo qual passou, de como tinha precisado que determinada necessidade fosse “ouvida e vista” e de como tinha precisado que o outro agisse de uma determinada maneira. Desta forma a pessoa pode chegar a um certo tipo de aceitação e compreensão ou não aceitação da acção do outro significativo.

Independentemente da resolução conseguida, há uma liberdade de acção e do sentir que poderá ser vivida no contexto das relações do presente, conseguida pela cicatrização das anteriores feridas abertas no passado.

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