Comunicações difíceis

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Gustavo Pedrosa

Gustavo Pedrosa

A comunicação tem sempre um papel fundamental nas nossas vidas sociais. A nível familiar e, principalmente no casal, essa comunicação assume um papel ainda mais preponderante e, ao mesmo tempo, assustadoramente complexo e extenso.

Escrever sobre a comunicação num sistema, seja no casal, seja na família, será sempre um exercício demasiado extenso para uma leitura “ligeira”. No entanto, facilmente identificamos alguns erros comunicacionais nas famílias que atendemos em contexto clínico.

Em situações de maior pressão ou desconforto, os membros do casal tendem a basear ainda mais a sua comunicação em sinais, muitas vezes incompreensíveis ao outro. Esses sinais, as “meias palavras”, os comportamentos pouco naturais, os amuos, a agressividade verbal, o evitamento, o revirar os olhos, entre outros, são um complemento à comunicação, não devendo ser substitutos da assertividade e da comunicação verbal, especialmente em casais recentes ou com pouca reciprocidade verbal. Estes comportamentos devem ser ensinados, explicados, partilhados, aceites e regulados em casal, sem crítica negativa ou julgamento, para que essa comunicação não-verbal cumpra o seu papel de forma muito mais eficaz e não comprometerem ainda mais o bem-estar do casal, com assunções ou interpretações erradas ou com a contaminação da comunicação “remanescente”.

As diferenças de género, educacionais e culturais já foram abordadas em textos anteriores, mas são sempre importantes de relembrar. Ao pragmatismo tipicamente masculino, contrapõe a análise mais demorada e esmiuçada das mulheres. Ao urbanismo mais preocupado com o bem-estar pessoal, balança um maior tradicionalismo familiar e preocupação com a imagem social mais ligado às populações do interior e das comunidades menos populosas. Também aqui deverá haver uma compreensão das raízes e valores do cônjuge, com a partilha de opiniões e aceitação da diferença que poderá, naturalmente, existir.

As diferentes expectativas perante a comunicação e a forma como comunicamos também devem ser partilhada. Facilmente o cônjuge pede ao outro que comunique de uma forma com a qual não está acostumado ou com a qual não se sente confortável. Com a mesma facilidade, esse esforço é menosprezado, originando uma situação de exposição a qual, regra geral, é correspondida com uma resposta menos motivadora (ex: julgamento, critica negativa, desprezo). Atenção especial aos pedidos de aumento ou alteração da comunicação, pois envolve um cuidado redobrado de ambas as partes.

As diferenças entre o papel familiar e o papel social são, também eles, factor de discórdia. Explorem as diferenças e similitudes de ambos os contextos, uma vez mais sem preconceito, julgamentos ou criticas negativas. Não exijam alterações gigantescas; antes peçam pequenas e graduais mudanças que sejam possíveis de executar.

A base de um melhor comunicação é a compreensão e aceitação da diferença. É importante percebermos que esse esforço de melhorar ou potenciar a comunicação parte de ambos.

Não tem obrigatoriamente que haver uma cedência, um vencedor ou uma mudança radical. As pequenas mudanças potenciam as grandes mudanças. E a mudança de um dos lados potencia a mudança do outro.

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