Conversas entre o corpo e a mente: sobre a emergência da psicossomática – I

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Bruna Rosa

Bruna Rosa

“Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma

Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida (…).”

Fernando Pessoa

A relação entre mente e corpo, à semelhança da dinâmica saúde/doença e vida/morte, tem sido alvo de um interesse sistemático ao longo da História da Humanidade, mantendo-se na actualidade como um tema “controvertido e fecundo” (Cerchiari, 2000).

A magia e a cura começaram por ser indissociáveis – “os primeiros médicos eram sacerdotes; as primeiras clínicas, templos. As causas das doenças não estavam no organismo dos pacientes mas em acções de seres sobrenaturais, deuses ou demónios” (Iummato, n/d, p.3). A cura era, assim, procurada em rituais religiosos (Volich, 2007).

O homem (médico) munido com uma máscara de cervo encontrado na caverna de Trois Frères, datado de cerca de 16000 anos, surge como a mais antiga representação do homem curador de enfermidades (Calder, 1970, cit. por Castro, Andrade e Müller, 2006).

A civilização assírio-babilónica (3000 a.C.) dava conta da associação dos demónios e doenças, como era o caso das doenças oculares, atribuídas ao vento Demónio do Sudoeste. No Antigo Egipto, “paralelamente à associação entre deuses e sacerdotes, emergiram também os primeiros sinais de um raciocínio analógico na compreensão de sintomas e na escolha terapêutica” (Haggard, 1940, cit. por Volich, 2007, pp.19-20). Segundo Ayache (1992), o papiro de Ebers, um dos tratados médicos mais antigos e completos que se conhecem, “já esboçava uma descrição do corpo humano, das suas doenças [ex.: enxaquecas] e de quadros clínicos detalhados, acompanhados de procedimentos terapêuticos e de prognósticos” (cit. por Volich, 2007, p. 20).

A visão popular de doença atribuía as enfermidades aos deuses, como pode ser observado no caso da peste que afligiu os gregos, descrita na Ilíada de Homero. Na mitologia grega, várias divindades estão vinculadas à saúde: Apolo (deus da medicina cujas flechas disseminavam a peste e as doenças), Asclépio (que, substituindo Apolo, se tornou o grande deus grego da medicina), Hígia e Panaceia (filhas de Asclépio). De acordo com Capitão e Carvalho (2006), “a desvinculação da doença do pensamento religioso desenvolveu-se a partir de confrontações públicas de ideias e do posicionamento de escolas políticas, filosóficas, científicas e até mesmo religiosas” (p. 22).

O pensamento de Sócrates (470 a 399 a.C.) emergiu num período de grande prosperidade para Atenas, levando gradualmente à concepção do Homem como um ser constituído não apenas por um substrato material – o corpo biológico – mas também por uma essência imaterial, vinculada aos sentimentos e à actividade do pensamento: a alma. Posteriormente, Hipócrates (460-377 a.C.), Platão (429-347 a.C.) e Aristóteles consideraram a unidade indivisível do ser humano. Na visão dualista platónica, a alma, parte imaterial do Homem, era entendida como uma entidade tripartida (inferior, média e superior) que pré-existiria ao corpo, sobrevivendo-lhe.

Platão postulou que o equilíbrio entre o corpo e a alma seria o elemento crucial na saúde, podendo as perturbações mentais terem uma causa moral ou corporal (Iummato, n/d).

Partilhando a concepção tripartida de Platão, Aristóteles postulava que todo o organismo é a síntese de dois princípios: matéria e forma – “a alma estaria ligada ao corpo físico, e toda a doença física teria também uma expressão anímica” (Volich, 2007, p. 23).

Hipócrates de Cós, contemporâneo de Sócrates que deu à medicina o cariz científico “inaugurando uma medicina naturalista, baseada numa doutrina, metodologia e deontologia específicas” (Volich, 2007, p. 24), introduziu a ideia de unidade funcional do corpo, na qual a “psyché” exerceria uma função reguladora. Considerava o Homem uma unidade organizada (sendo impossível observar as partes do corpo abstraindo-as do todo corporal) passível de se desorganizar, adoecendo (Volich, 2007). Hipócrates postulou que a saúde se basearia no equilíbrio entre quatro elementos: bílis amarela, bílis negra, fleuma e sangue. De acordo com Volich (2007), “o corpus hippocraticum descreve muitas das concepções filosóficas, etiológicas e terapêuticas que fundaram a medicina moderna” (p. 24).

Nessa mesma época, em Cnido, na Ásia Menor, desenvolvia-se uma prática médica distinta, seguida por Galeano. A abordagem da doença era focalizada nos sintomas e, a partir dos órgãos atingidos, estabelecia-se o diagnóstico e a sua nosografia (classificação). A doença tinha a sua origem numa lesão orgânica e a intervenção médica consistia em localizar o mal no corpo e, se possível, eliminá-lo. A medicina “galénica” era cosmocentrada, com tratamentos baseados na contenção de excessos, no repouso, na alimentação, em banhos para acalmar e aplacar a dor, não havendo intenção de cura, mas sim de permitir que o corpo retomasse o equilíbrio e assim se restabelecesse.

No Renascimento, o conhecimento da anatomia revelou-se fundamental para a compreensão do adoecer e da terapêutica. A visão de René Descartes, com a sua concepção dualista, tendeu a priorizar a clareza e a distinção do corpo e de suas funções, valorizando o seu substrato material em detrimento do subjetivo. Embora houvesse nessa época a disseminação do método científico, a preocupação com uma visão integrada do organismo e do adoecer permaneceu presente. O Vitalismo, da Escola de Montpellier, oriundo do Aninismo, doutrina retomada de Aristóteles, defendia a existência de uma força vital encontrada na origem da sensação, do movimento e da vida, responsável também pela saúde e pela doença.

Bibliografia:

Capitão, C., & Carvalho, E. (2006). Psicossomática: Duas Abordagens de um Mesmo Problema. Revista de Psicologia da Vetor Editora, 7 (2).

Castro, M., Andrade, T., & Müller, M. (2006). Conceito Mente e Corpo Através da História. Psicologia em Estudo, 11 (1).

Cerchiari, E. (2000). Psicossomática: Um Estudo Histórico e Epidemiológico. Psicologia: Ciência e Profissão, 20 (4).

Iummato, A. (n/d). Medicina Psicosomática. Consultado a 1 de Dezembro de 2013 através de http://www.slowmind.net/colombo_net/psicosomatica.pdf

Volich, R. (2000). Psicossomática. São Paulo: Casa do Psicólogo.

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