Menopausa
Os fantasmas

Isabel Policarpo
Actualmente, as mulheres vivem cerca de um terço da sua vida em menopausa. Demasiado tempo, para valer a pena olhar para esta nova fase do ciclo de vida da mulher, com objectividade e de modo desapaixonado.
A menopausa, corresponde à última fase do ciclo reprodutivo da mulher e marca sem dúvida a transição para uma fase com mudanças físicas e psicológicas importantes.
Efectivamente, a menopausa é encarada como um somatório de perdas – à perda da procriação e da fertilidade, vem-se juntar a perda da juventude, da feminilidade, da diminuição do interesse sexual e da beleza – com o acrescimo de rugas, peso, calores e mau humor.
Mas as más notícias não ficam por aqui. Esta realidade é frequentemente acompanhada pelo desgaste da relação conjugal , pela casa “vazia” decorrente da saída dos filhos, pela angústia dos pais que envelhecem e ficam mais dependentes, podendo ainda coincidir com a perda do emprego ou com a chegada da pré-reforma .
Para além dos múltiplos desafios fisiológicos, sociais e psicológicos, as mulheres deparam-se ainda com as percepções e atribuições de conotação fortemente negativa acerca da feminilidade e desta nova fase da sua vida. Isto é , à menopausa vem-se juntar ainda o estigma de ser uma mulher em menopausa.
Na sociedade ocidental, o envelhecimento representa uma perda de valor e uma despromoção de per si. O envelhecer no feminino e a menopausa em particular, está associada à ideia de declínio, decadência e de perda de estatuto da mulher.
A imagem da mulher é uma imagem fortemente androcêntrica - a mulher deve ser sexy, magra, jovem e fértil , e a mulher pós –menopausa é murcha, redonda, com rugas e pouco atraente. A valorização da juventude é reforçada pela indústria da cosmética, da moda e pela industria médica e farmacêutica, entre outras. A publicidade e os media ajudam a reforçar este estereotipo social e cultural.
Com o envelhecimento e com o impacto das mudanças que ocorrem nesta fase, em particular as físicas, a mulher sente-se desclassificada, frágil e alvo de restrições e preconceitos , a que acresce a sensação de não ser vista, nem valorizada como quando era jovem.
Ao contrário do homem, que vai envelhecendo de maneira contínua e digna, a mulher perde de repente a sua fecundidade e os seus encantos. Frequentemente ouve-se dizer que os homens de 50 podem ser charmosos, interessantes e adquirir classe com os seus cabelos grisalhos, enquanto à mulher lhe resta na melhor das hipóteses a etiqueta da “simpatia“ . Também a passagem do tempo não parece ser igual para todos.
E então a realidade é mesmo assim tão dura e crua ? Não há nada que se possa fazer? Tem que ser mesmo assim?
O tempo não volta atrás e o nosso corpo também não! Precipitarmo-nos na corrida da “juventude” conduz-nos a uma luta inglória, de onde só podemos sair exaustas e mais vazias, frágeis e deprimidas.
Mas com a chegada da menopausa não temos de ficar depuradas do nosso valor, dignidade e auto-estima. Importa assumir as alterações fisiológicas com maturidade, tranquilidade, respeito e sem falsos pudores. Hoje, sabe-se que a capacidade sexual da mulher não termina com a menopausa, a mulher não deixa de sentir atracção e desejo sexual. A mulher tem direito à sua sexualidade e a obter prazer de forma satisfatória, precisando apenas de um parceiro saudável, carinhoso, interessante e interessado, que saiba ir de encontro ao que lhe dá mais prazer e que seja capaz de a valorizar enquanto mulher.
Em todas as fases do ciclo de vida e em especial na idade madura, a capacidade de adaptação à mudança e a concretização de projectos de vida, são requisitos importantes para se viver bem.
Todas as transformações acarretam perdas e ganhos e a menopausa não é uma excepção à regra. Já falamos muito das perdas, mas quais são os ganhos, podem vocês perguntar?
Com a chegada dos 50 começamos a deslumbrar a ideia de “missão cumprida”. Ganhamos geralmente mais tempo para nós próprias – afinal há tantos projectos que ficaram em stand-by com a chegada dos filhos. Podemos ser avós e gozar e estragar os netos, porque não somos os responsáveis pela sua educação e sabemos que esse tempo passa a correr. Podemos dizer coisas que só mesmo a idade permite. Podemos usufruir mais de cada dia, porque ao longo do nosso caminho adquirimos sabedoria e espiritualidade. Podemos não adiar mais o prazer e a satisfação, porque finalmente estamos “em primeiro lugar”. Podemos e devemos tomar conta de nós – do corpo e da alma, afinal só podemos exigir respeito e valorização se nós próprias dermos esse sinal para os outros.
A mulher tem uma enorme capacidade para se reinventar. Ao longo do nosso percurso cada uma de nós teve por diversas vezes que fazer, desfazer e refazer a sua imagem. Como dizia Simone de Beauvoir “(…) não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres”, e eu não trocava de género por nada deste mundo, mesmo tendo a menopausa às costas.
Diz-me onde moras, dir-te-ei quem és
A menopausa representa seguramente para as mulheres uma fase de mudanças fisiológicas e psicológicas importantes. Mas em que medida a forma como a mulher experiencia a menopausa, não é influenciada pelo contexto social, económico e cultural em que se vive?
Em que medida a forma como a mulher é olhada quando envelhece – valorizada ou desvalorizada – na sua imagem e nos seus papéis sociais interfere na representação que tem de si mesma e no modo como se relaciona com a menopausa?
Com o intuito de responder e clarificar algumas destas questões, diversos estudos têm sido levados a cabo ao longo do tempo, e todos eles apontam no sentido de considerar que a sintomatologia da menopausa varia de facto de acordo com as diferentes culturas.
Na China por exemplo, onde a idade é venerada, as mulheres não apresentam queixas relacionadas com a menopausa.
No Japão, regista-se uma dificuldade de tradução do termo afrontamento, por não existir na língua japonesa uma palavra com este significado, se bem que existam termos relacionados com pequenas mudanças do estado corporal.
De salientar ainda, que tanto as mulheres, como os médicos japoneses perspectivam a menopausa como uma transição natural, relacionada com o envelhecimento, em que os sintomas especificamente relacionados com as alterações endócrinas, como os afrontamentos, têm uma ocorrência irrelevante, sendo o resultado de alterações do sistema nervoso autónomo.
Interessante é igualmente notar que diversos estudos encontraram diferenças importantes na ocorrência dos afrontamentos entre as mulheres em fase de menopausa. Assim constatou-se que a percentagem de afrontamentos pode variar entre 80% nos países ocidentais, contra apenas 10% em países da Ásia oriental.
Estudos com mulheres negras têm revelado que também elas experimentam menos perturbações relacionadas com a menopausa, quando comparadas com as brancas. Uma explicação possível pode residir no facto de as mulheres de raça negra, não valorizarem tanto a sexualidade e feminilidade através do seu aspecto físico, mas antes através da força espiritual.
Vários estudos noutros países têm analisado os sintomas que ocorrem nesta fase – os sintomas específicos, que decorrem directamente da diminuição dos níveis hormonais de estrogénio e progesterona, e os sintomas não específicos, que podem ocorrer em qualquer outra fase de transição em consequência do stress – como as alterações de humor (irritabilidade, ansiedade e sintomas depressivos), os problemas de sono e de memória, a fadiga, a diminuição da libido ou as dores de cabeça, e notaram que no que respeita aos sintomas não específicos não encontraram diferenças entre as queixas apresentadas pelos homens e pelas mulheres neste período da vida, ou seja, que os mesmos são assim independentes da menopausa.
Estudos sobre o significado e a representação da menopausa em diferentes culturas, revelam igualmente a existência de profundas diferenças.
Um estudo realizado junto de mulheres afro-americanas demonstrou que estas tendiam a olhar a menopausa como uma transição esperada e natural e não associada a perturbações determinadas – havendo mesmo algumas que consideravam que estavam a viver um “pico” na sua vida sexual.
Em algumas culturas nativas, a mulher só pode ser “xamã, um papel que é sinónimo de respeito e liderança depois de ter ultrapassado a menopausa, pois só então retem o “sangue da sabedoria” e detem o poder para tomar decisões e assumir responsabilidades tanto em relação às crianças como às mulheres mais novas.
Também nas culturas celtas, a mulher mais velha tende a ser comparada como a semente – a parte que contém dentro de si o conhecimento e o potencial de todas as outras partes, enquanto a jovem é metaforicamente vista como a flor e a mãe como o fruto.
Inversamente é no ocidente que se assiste a uma maior desvalorização da mulher nesta fase do ciclo de vida. Efectivamente, nas culturas ocidentais, orientadas para o culto da juventude, a menopausa encontra-se frequentemente associada a medo de envelhecimento, a perda de estatuto e a problemas com a sexualidade, uma questão sem paralelo em sociedades com valores culturais diferentes.
Individualidades
A menopausa, enquanto última fase do ciclo reprodutivo da mulher, marca a transição para uma fase com mudanças físicas e psicológicas que como já tivemos oportunidade de verificar é influenciada pelo contexto social e histórico-cultural em que a mulher se insere.
É nas culturas ocidentais, orientadas para o culto da beleza e da juventude, que a menopausa se encontra mais penalizada, não só pelas fortes conotoções negativas a que está associada, mas também por ser a cultura onde paralelamente as perturbações e as mudanças que acompanham a menopausa parecem adquirir maior impacto.
Mas será que todas as mulheres do ocidente sentem e vivenciam a menopausa da mesma forma? Em que medida que o papel que as diferentes mulheres ocupam na sociedade interfere com a forma de olhar e vivenciar esta fase de mudança?
Diversos estudos têm demonstrado que as mulheres que desempenham papéis nos quais a actividade intelectual, a criatividade ou a força espiritual são valorizadas – como artistas, políticas, escritoras ou terapeutas, lidam melhor com a transição da menopausa. Enquanto que as mulheres cujo valor sempre dependeu mais da sua aparência física ou do seu papel na família – como actrizes e/ou mulheres só mães e donas de casa, se sentem mais diminuídas no seu estatuto e parecem mais predispostas à depressão nesta fase da vida.
Também as mulheres de classe média e média-alta tendem a diferenciar-se das mulheres de classes mais desfavorecidas, por considerarem que a menopausa representa uma libertação que lhes abre novas oportunidades. Isto é, finalizada a tarefa de cuidar e apoiar os filhos, estas mulheres não sentem vazio, nem que a sua vida perdeu o sentido.
O crescimento e a emancipação dos filhos não tem que representar uma perda, mas antes pode ser perspectivado como uma oportunidade de investimento pessoal e de auto-reflexão. As mulheres têm mais tempo para si, o que lhes permite maior consciência do seu valor.
Interessante é notar, que o facto destas mulheres se sentirem mais confiantes e com mais auto-estima, e curiosamente menos dependentes das opiniões e expectativas dos outros, tende a ser encarado como um sinal negativo da “menopausa” pelos seus companheiros, que estão pouco habituados a que as mulheres pensem em si e por si.
A forma como a menopausa é vivida por cada mulher depende em última instância do seu funcionamento psicológico e do contexto sociocultural, mas este fenómeno biológico tem necessariamente um impacto enquanto finalização da vida reprodutiva e anúncio do envelhecimento. Como qualquer processo comporta perdas e ganhos.
Algumas mulheres lidam com estes sentimentos de modo positivo e tentam superá-los encontrando novas formas de realização e de satisfação, seja a nível profissional, intelectual ou espiritual. Também no âmbito familiar e/ou social, ao inverso de assumirem uma visão catastrófica de “fim”, tendem a ter a sensação de “missão cumprida”.
Contudo, outras mulheres sentem-se insatisfeitas em todas ou em algumas das vertentes, e consequentemente sentem-se fracassadas, tornando-se deprimidas e impotentes.
No fundo, a identidade de cada uma de nós é o produto final da articulação das suas vivências, representações, fantasias e interacções com o mundo real. É neste fluir que cada mulher adquire a forma como se vê e como pensa que é vista pelos outros.
Os sentimentos oscilantes de realização e/ou de fracasso dependem sobretudo da sua experiência de vida e do modo como se relaciona com o mundo externo e de como se projecta no futuro.
A menopausa prepara-se no hoje.













