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Gastroenterologia

Barriga (Gastroenterologia)

De que estamos a falar?

Dentro das perturbações psicossomáticas existem as chamadas perturbações gastrointestinais, ou seja relacionadas com o sistema gastrointestinal.  Dentro destas podemos encontrar como mais comuns: a Síndrome do Colon Irritável,  Retocolite ulcerativa, Doença de Crohn e Úlceras pépticas.  Deixamos-lhe aqui uma breve descrição de cada uma delas e a sua relação com a psicologia:

Síndrome do Colon Irritável ou síndrome do intestino irritável:

É uma doença funcional, ou seja, que não apresenta lesões orgânicas, mas causa grande desconforto.

Os principais sintomas são dores abdominais, variações no padrão de evacuação, gases com inchaço abdominal, dores nas costas e náuseas. A sua causa é desconhecida, mas existem fortes correlações com os estados emocionais, nomeadamente com a ansiedade, o “stress”e a depressão.

A Síndrome do Cólon Irritável (SCI), também conhecido por Colite Mucosa ou Cólon Espástico, é uma patologia gastrointestinal funcional e como tal caracteriza-se pela ausência de marcadores anatómicos, patológicos ou biológicos que justifiquem o aparecimento dos sintomas. Sendo uma síndrome, é caracterizada por um quadro sintomático, neste caso do foro gastrointestinal, que pode variar entre leve, moderado a grave, sendo os sintomas mais comuns a diarreia, obstipação, dor abdominal, distensão abdominal, flatulência, náuseas, etc.

A sua incidência no mundo ocidental é muito comum, com cerca de 10 a 20% da população a sofrer deste distúrbio, com predominância no sexo feminino. Apesar do desconforto causado, não existem dados que comprovem a sua relação com casos de hemorragias intestinais, ou algum tipo de doença grave como o cancro intestinal.

A definição de SCI baseia-se unicamente nos sintomas referidos pelos doentes, o que levou à necessidade de criar parâmetros universais, de modo a uniformizar o diagnóstico, sendo o diagnóstico formal actualmente efectuado utilizando os Critérios de Roma III.

Segundo este critério, diagnostica-se a SCI quando se verifica:

- Dor ou desconforto abdominal pelo menos 3 dias por mês nos últimos 3 meses, associado a 2 ou mais itens:

a) Alivio após evacuar;

b) Quando surge, verifica-se uma alteração da frequência das evacuações;

c) Quando surge, verifica-se uma alteração da forma ou da consistência das fezes.

Podem estar presentes em pelo menos 25% dos casos outros sintomas como: pressão para evacuar, urgência para evacuar, presença de muco nas fezes, flatulência ou distensão abdominal.

 

Esta patologia tem um carácter heterogéneo e foi categorizada em 4 subtipos:

- SCI com predominância de diarreia;

- SCI com predominância de obstipação;

- SCI misto (com alternância entre os dois sintomas anteriores)

- SCI não especificado (onde geralmente só referem dor abdominal).

 

Estes subtipos tornam-se mais evidentes com o agravamento da sintomatologia da SCI, e podem variar ao longo da vida do paciente com a possibilidade de existirem marcadas exacerbações ou remissões do quadro sintomático.

Apesar de não se conhecerem ao certo as causas desta síndrome, têm sido apontadas algumas características que possam justificar o aparecimento dos sintomas:

  • Alterações da motilidade intestinal na maioria dos pacientes;
  • Hipersensibilidade visceral, significando que ao mesmo volume de distensão abdominal, estes pacientes respondem com níveis mais altos de dor, o que contribui para a sensação de urgência em evacuar;
  • Desregulação de mecanismos cérebro-intestino
  • Factores emocionais e psicológicos como trauma, ansiedade, etc..
  • Infecções bacterianas, alguns casos podem ter ocorrido após uma gastroenterite.
  • Intolerâncias alimentares
  • Atividade neurohumoral alterada
  • Alterações da flora microbiana.
  • Predisposição genética

As formas de tratamento mais usualmente utilizadas passam primeiramente pelo foro farmacológico na tentativa de melhorar os casos de diarreia ou obstipação. A prescrição de antidepressivos é igualmente comum, uma vez que podem estar associadas perturbações de humor e/ou ansiedade.

 

Retocolite ulcerativa (Colite Ulcerativa)

É uma doença que afecta o intestino grosso. É descrita como um processo inflamatório que compromete o intestino grosso, fazendo com que a mucosa intestinal se apresente inflamada, vermelha, coberta de muco e com ulcerações

As causas permanecem desconhecidas, mas os elementos de ordem psicológica parecem assumir um papel de destaque, embora não possam ser considerados agentes directamente causadores.

Em 75% dos casos de Retoclite, detectam-se factores relacionados com o “stress”. É apontado como exemplo um estudo em que macacos em cativeiro, separados do seus companheiros, desenvolveram Retocolite Ulcerativa e acabaram por morrer.

 

Doença de Crohn, também designada por Ileite ou enterite.

A doença de Crohn é uma doença crónica que causa inflamação do intestino delgado, geralmente da parte inferior do intestino delgado, no chamado Íleo.

Os principais sintomas apresentados são artrite, febre, úlceras na boca e crescimento mais lento.

A tensão emocional pode influir no curso e evolução da Doença de Crohn. A ansiedade talvez seja o factor que mais pesa nos indícios científicos que a ligam ao começo da doença e ao curso da recuperação.

 

Úlceras pépticas

Uma úlcera é como um buraco, uma ferida bem definida, circular ou oval, causada por uma lesão ou simples erosão do revestimento do estomago (úlcera gástrica) ou do intestino (úlcera duodenal) através de ácidos gástricos ou sucos duodenais.

Os principais sintomas são dor, ardor, corrosão, sensação de vazio e fome. A dor tende a aparecer quando o estômago se encontra vazio.

As causas também parecem estar relacionadas com os factores emocionais tais como ansiedade, stress.

Durante a última guerra mundial, em virtude das agressões ambientais, aumentaram significativamente a ocorrência e a reincidência das úlceras em amostras populacionais submetidas a bombardeios, como foi o caso de Londres.

Os desequilíbrios de ordem emocional podem pois provocar ulcerações no tracto gastrointestinal, levando a doenças gastrointestinais.

De tal forma existe influência das emoções sobre o tubo digestivo que este chegou a ser conhecido como a “caixa de ressonância” das emoções!


Como o poderemos ajudar?

Terapia Nutricional:

A terapia nutricional é usualmente aplicada, numa primeira fase, tem o intuito de controlar as crises de diarreia ou obstipação e, numa segunda fase, a prevenção dos sintomas de um modo mais geral. Nesta fase, dá-se especial atenção à possível correlação e avaliação da existência de possíveis intolerâncias alimentares que possam estar subjacentes à sintomatologia nos indivíduos com SCI.

Assim, sabendo quais são os alimentos que podem desencadear ou exacerbar os sintomas, fazendo a sua eliminação e uma correcta substituição nutricional, para que não ocorram carências alimentares, podemos prevenir e controlar os sintomas da SCI.

Para além do controlo da ingestão dos alimentos que despoletam os sintomas, a suplementação alimentar através de alguns componentes que tem mostrado alguma eficácia em estudos clínicos também pode ser benéfica na maioria dos casos.

 

Hipnoterapia Clínica:

As repercussões físicas, psicológicas e sociais resultantes do SCI, são em muitos casos verdadeiramente debilitantes. Perante uma rotina de dores abdominais, obstipação, diarreias, flatulência, e em alguns casos incontinência fecal, geram-se perturbações de ansiedade, isolamento social e depressão. Cria-se um esquema repetitivo, em que a parte emocional e comportamental agrava os sintomas do cólon, que por sua vez, agravam todo o funcionamento biopsicossocial do paciente.

 

Peter Whorwell, Professor de Gastrenterologia da Faculdade de Medicina de Manchester e Director do South Manchester Funcional Bowel Service , tem dedicado os últimos 20 anos à investigação na área do SCI, e aos efeitos da Hipnoterapia Clínica aplicada especificamente a indivíduos com esta síndrome.  As sessões de hipnoterapia têm como foco a inter-ligação entre o cérebro e cólon. As técnicas são aplicadas de modo a proporcionar o alívio dos sintomas, fomentar a educação acerca do funcionamento intestinal, sistema nervoso entérico e funcionamento dos músculos peristálticos (intestinais), assim como, implementar alterações nos comportamentos, percepções e crenças pessoais que podem agravar e perpetuar os sintomas.

Num estudo efectuado por Whorwell (2005), com 250 sujeitos com SCI, verificou-se que após 12 sessões de uma hora cada, 70% dos sujeitos relataram um alívio significativo dos sintomas

Assim concluiu-se que a hipnoterapia clínica se adaptava muito bem à sintomatologia da SCI, uma vez que não existindo alteração estrutural do intestino, o paciente aprende a gerir e a controlar o funcionamento dos movimentos peristálticos (músculos do intestino), o que parece mudar o modo como o cérebro controla a actividade intestinal. Isto é possível porque existe uma ligação entre o funcionamento cerebral e intestinal, uma vez que os intestinos possuem milhões de neurónios (neurónios entéricos) e estes são capazes de captar informação do cérebro e do sistema nervoso central, processá-la e actuar adequadamente conforme a necessidade do momento. Por outras palavras, é como se os intestinos “soubessem, pensassem e tomassem decisões” sobre o que fazer para garantir um bom desempenho das funções do intestino.

 

Outros métodos interventivos:

Tendo em conta que os fenómenos de dor e perturbação gastrointestinal de natureza psicossomática estão intimamente com alterações na actividade do nosso cérebro, particularmente nas nossas ondas cerebrais, é importante também levar em conta o recurso a soluções de alta tecnologia que nos permitem fazer afinações a este nível. O BAUD – Bio Acustical Utilization Device é um aparelho que nos permite utilizar o som como forma de actuar sobre as ondas cerebrais. Através de ondas sonoras cujas características espelham as ondas cerebrais, podemos identificar a frequência da dor que sentimos e encontrar uma frequência que anule esta primeira.

Desta forma, “sintonizamos” o cérebro para um estado no qual a dor se reduz significativamente. Igualmente eficaz tem-se revelado o Alpha-Stim 100. Este aparelho utiliza micro-correntes eléctricas para actuar sobre o cérebro. Sabendo que as ondas cerebrais são a expressão visível da actividade eléctrica do cérebro, este aparelho permite-nos fornecer ao nosso cérebro uma muito pequena corrente eléctrica constante que acerta o funcionamento do cérebro para um estado normal de funcionamento. Desta forma, reduzindo significativamente quer a dor que o cérebro regista, quer os estados ansiosos que propiciam a manutenção dos sintomas que sentimos.

Para eficácia complementar, a última intervenção a ter em conta trata-se de EMDR. EMDR significa Dessensibilização e Reprocessamento por meio de Movimentos Oculares, porque permite a estimulação dos hemisférios cerebrais, onde as lembranças dolorosas são armazenadas. Além de ser usado no Stress Pós Traumático, tem apresentado resultados promissores na área das doenças psicossomáticas.

O reprocessamento de memórias traumáticas, bem como o acesso a emoções reprimidas pode contribuir favoravelmente para o alívio dos sintomas nas doenças gastrointestinais.

 


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