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Crianças obsessivo-compulsivas?

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Inês Afonso Marques

Inês Afonso Marques

Como o nome parece sugerir uma Perturbação Obsessivo-Compulsiva é caracterizada pela presença de obsessões e compulsões.

Mas atenção! Nem todos os comportamentos que parem ser obsessivos e compulsivos representam uma perturbação. Alguns rituais (como a canção ou história na hora de dormir das crianças) são bem-vindos pela vida do dia-a-dia. Algumas preocupações “normais”, como por exemplo o medo de contaminação, podem aumentar em períodos de maior stress, como quando alguém na família está doente. No entanto, quando os sintomas persistem, não fazem sentido, causam grande sofrimento ou interferem no funcionamento habitual da pessoa e da família, merecem atenção clínica.

As obsessões são pensamentos, imagens ou ideias, indesejáveis e persistentes que são acompanhados por sensações desagradáveis como ansiedade, nojo ou culpa. Exemplos comuns são o medo de germes ou contaminação, medo de magoar-se a si próprio ou aos outros, pensamentos agressivos e preocupações “só assim”. As preocupações “só assim” envolvem necessidade de exactidão ou simetria, mais do que perfeccionismo.

As compulsões, frequentemente chamadas de rituais, são acções realizadas com o objectivo de reduzir os sentimentos, pensamentos e ideias desagradáveis envolvidos nas obsessões. As compulsões, que podem incluir lavar, limpar, verificar, ordenar, contar, repetir, ou coleccionar são realizadas de forma frequentemente bizarra e associadas a regras. Por exemplo, uma criança de 7 anos com preocupações “só assim” e rituais de contagem poderá desenhar e redesenhar a mesma letra dezenas de vezes, tornando difícil a conclusão das tarefas escolares.

 

Especificidades em crianças e adolescentes

Actualmente, sabe-se que a Perturbação Obsessivo-Compulsiva em crianças e adolescentes é mais frequente do que se pensava, assumindo-se que muitas situações estarão por diagnosticar, ocorrendo sofrimento em silêncio. Embora a maioria das características seja comum a ambos os sexos, a investigação tem demonstrado que esta é uma perturbação que se manifesta de forma distinta em rapazes e raparigas. Os rapazes tendem a ter mais pensamentos “só assim” e apresentar tiques e comportamentos de hiperactividade e défice de atenção. Os sintomas tendem a surgir nos primeiros anos de escolaridade. As raparigas exibem mais medo e ansiedade e têm maior tendência para se sentirem deprimidas e os seus sintomas parecem surgir no inicio da adolescência.

Embora a perturbação obsessivo-compulsiva em crianças se assemelhe ao que se passa nos adultos, e existam respostas válidas, tanto com psicoterapia cognitivo-comportamental, como com medicação específica, a intervenção com crianças apresenta alguns desafios. Tipicamente as crianças têm mais dificuldade em ver as suas obsessões como coisas sem sentido e as compulsões como excessivas, especialmente durante uma crise. As crianças sentem-se embaraçadas pelas suas obsessões e compulsões tentando mantê-las em segredo e tendem a ter maior dificuldade em lidar com a ansiedade. Com frequência os adultos da família estão envolvidos nos rituais. Por este motivo, ao longo da intervenção, os pais são normalmente convidados a trabalhar em equipa com a criança, ou o adolescente, e o Psicólogo. Nas consultas de Psicologia, a criança terá oportunidade de receber informação sobre como “voltar a ser o chefe” e aprender estratégias sobre como gerir a ansiedade. A criança terá algumas tarefas para fazer em casa no sentido de a ajudar a sentir controlo, voltando a “ser o chefe”.

 

O que é afinal a Perturbação Obsessivo-Compulsiva?

Enquanto os especialistas não estão certos sobre como surge esta perturbação, existe consenso quanto ao facto de se tratar de uma perturbação neurocomportamental, ou seja, um problema do cérebro e do comportamento que afecta os pensamentos, sentimentos e comportamentos da criança de uma forma muito específica. Como doença neurocomportamental, a Perturbação Obsessivo-Compulsiva, não pode de forma alguma ser vista como “culpa” da criança, ou como algo que a criança poderia parar se “tentasse mais”. Ela deve ser vista como “um curto-circuito”, “um soluço” ou um problema de “controlo de volume” no “computador preocupado” (cérebro) e que a criança não consegue controlar por si própria. Este “computador preocupado” envia, de forma inapropriada, pistas de medo que não merecem tanta atenção. São essas pistas de medo que chamamos obsessões.

 

Voltando às obsessões…

As obsessões são pensamentos, ideias ou imagens que se repetem de forma intrusiva e são acompanhadas por sentimentos negativos, como medo, nojo ou dúvida e pela sensação de não controlo. A criança não quer ter tais ideias, considera-as perturbadoras e reconhece muitas vezes que não fazem sentido. Uma obsessão frequente é o medo de contaminação, do próprio ou do outro, por tocar em algo que possa ter micróbios. Embora não consiga observar as obsessões, poderá reparar que o seu filho se encontra mais distraído. Quando o cérebro envia as pistas indesejadas de medo, as respostas da criança surgem como um comportamento ritualizado, chamado compulsão.

 

Voltando às compulsões…

Compulsões são acções que ocorrem para que a criança se livre dos pensamentos e sinta alívio relativamente à ansiedade e a outros “pensamentos maus”. Por exemplo, a excessiva lavagem de mãos (frequência, duração, intensidade, etc.) é um ritual comum em pessoas com medo de contaminação. Evitar a “contaminação” é também comum, podendo conduzir a níveis elevadíssimos de stress e disfunção. É relativamente fácil entender que as compulsões são respostas desadequadas a obsessões. É possível que o seu filho se sinta deprimido e frustrado por se sentir incapaz de resistir às suas obsessões e compulsões. Encarando esta perturbação como um problema específico do cérebro, conseguirá libertar-se e ajudar a criança a libertar-se da noção que um de vocês é de alguma forma culpado, dando o primeiro passo para um tratamento eficaz.

 

Mas afinal, onde está o problema?

O problema é a perturbação, não a criança. Reforce esta ideia dando uma alcunha à Perturbação. Os adolescentes habitualmente chamam POC (abreviatura do nome da perturbação). Desta forma, a POC torna-se “o mau da fita” e vocês “os bons da fita” que estão a trabalhar para que o “mau da fita” desapareça. Quando se sentir tentado a encarar os sintomas do seu filho como um mau comportamento, relembre-se que está perante uma doença e que o seu filho está doente. Críticas e castigos só tornam mais difícil resistir à perturbação. A paciência, a amabilidade e atenção serão seus aliados, enquanto o Psicólogo ajuda na implementação das estratégias que ajudarão a reduzir os sintomas.

 

Como se intervém?

Depois de identificado e nomeado o problema inicia-se o processo de enfrentar a perturbação, “mostrando-lhe que a criança é o chefe”. O foco principal deste processo chama-se “exposição e prevenção da resposta”. Palavras difíceis à parte, aquilo que se pretende é que a criança, em condições relativamente controladas, se exponha aos objectos, pensamentos e acções temidas, bloqueando os rituais que habitualmente aconteciam e/ou minimizando os comportamentos de evitamento resultantes da exposição. Desta forma, a ansiedade relacionada com a obsessão e os rituais associados, diminuirão ou desaparecerão. Este programa de tratamento inclui formas muito específicas de assegurar que os sintomas sejam reduzidos e nesse sentido o Psicólogo funciona como um treinador da criança, que a ajudará a vencer “o mau da fita”. Se tiver questões sobre o decorrer do processo, não hesite em colocá-las ao terapeuta antes que um pequeno problema se transforme num problema enorme. Lembre-se que o seu papel é o de apoiar a criança, não de ser o seu treinador neste processo.

 

Os pais perguntam: “Como posso ajudar?”

Em muitos casos a criança sabe que a POC não faz sentido. Por esse motivo, relembrar a criança que o seu comportamento é maluco, trapalhão ou despropositado apenas ajudam a criança a sentir-se pior. Simultaneamente, aconselhar a criança a “parar com aquilo” terá o mesmo efeito. Ninguém detesta mais a POC que a criança que a tem. Acredite que se pudesse, já a teria parado. Não interprete erradamente os comportamentos da criança, achando que são maus comportamentos passíveis de castigo.

Os pais funcionam como apoiantes da criança quando ela inicia a sua batalha para vencer “o mau da fita”. Sendo uma claque apoiante e cheia de confiança, ajudará a criança a sentir-se menos ansiosa nos momentos de exposição às situações temidas. As críticas e os castigos apenas servirão para fomentar a resistência. Não iria criticar o seu filho se ele tivesse diabetes… Lembra-se que lhe falei há pouco da “exposição e prevenção da resposta”? Alguns passos desta caminhada poderão parecer-lhe demasiado pequenos, no entanto confie no “treinador” e tenha em mente que esses passos terão de ser dados ao ritmo da criança.

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