De volta dos caracóis

De volta dos caracóis

“A esta hora, com o sol que está, uma sombra sabe mesmo bem, sobretudo com um prato de caracóis à frente!”

“Verdade! Até porque não me parece que caracóis sejam material de engorda J Uma das minhas promessas a mim própria foi começar a tentar perder uns quilitos que me andam a estragar o guarda-roupa”

“Ah, bom? Tu não fazes por menos – lá vão mudanças em tudo! Reparei que vais ajustando a postura para estares mais descontraidamente direita. Com o tempo apanha-se o jeito, não?”

“Tens razão – ainda vou precisar de muita prática, até que me saia naturalmente, mas reparo logo que há alguma coisa cá dentro que se modifica quando corrijo a postura e passo de encolhida, como dizias ontem, para costas direitas, ombros e queixo levantados e braços ao lado do corpo ou mesmo levantados ou afastados. Foi uma boa dica! Venham mais J”

“Bom, isto também não é carregar num botão e por a fábrica das dicas a funcionar 😉 Mas deixa-me pegar no tema das dietas e da alimentação, que é sempre material muito na moda quando as pessoas aterram na praia e percebem que estão muito longe da imagem de modelos fotográficos e que, afinal, são mesmo imperfeitas”

“Amiga! Se fosse só uma imperfeiçãozita aqui e ali, eu até convivia bem com o tema! Mas o Inverno não foi nada meu amigo, e com a complicação de vida profissional e dois miúdos para criar, aquelas óptimas ideias sobre comida saudável foram ficando sempre adiadas para o amanhã que nunca é dia”

“É importante teres um compromisso sério contigo mesma sobre o que te propões ingerir diariamente, mas cuidado com as resoluções irrealistas. E já agora, com os disparates, que são mais do que muitos, a propósito da alimentação e com as promessas impossíveis. Mais uma vez: mantém as coisas simples e realistas! De que é que serve a solução mais ideal e perfeita do mundo, se não conseguires aderir a ela, porque não se ajusta ao teu estilo de vida e te exige tanto esforço que deixas cair ao fim de poucos dias?”

“Nisso, realmente, tens razão. A quantidade de dietas que já comecei… Passo fome, lá perco uns quilos no início, mas, depois, vou voltando aos velhos hábitos e recupero tudo e mais alguma coisita… Não tens por aí uma pílula mágica, pois não?”

“Tenho. Duvido é que gostes… Chama-se bom senso! Ter e manter uma forma física adequada à constituição e idade de cada um exige 3 coisas em simultâneo, e nenhuma delas é surpreendente. Uma diz respeito às escolhas alimentares que devem ter diversidade, ingredientes saudáveis – ou seja, tão pouco processados quanto possível – e cozinhados com pouca gordura e apenas da “boa” como azeite. As nossas avós não tinham nenhum problema com isto, por isso deve haver um efeito perverso qualquer de informação a mais… A outra coisa é mexermo-nos! O corpo humano não foi feito para estar de rabiosque sentado todo o santo dia e, se não nos mexemos, só se passarmos fome à séria é que não engordamos. E a 3ª coisa é alterar comportamentos alimentares. Há estudos sérios – em vez daqueles estudos de faz-de-conta que servem para vender produtos – que demonstram claramente que, quem quer perder peso e manter um peso saudável tem de fazer as 3 coisas em simultâneo. As duas primeiras não são comigo, mas a parte dos comportamentos alimentares é terreno da Psicologia – quando quiseres entrar numa regulação de peso mesmo à séria, não te esqueças de envolver um psicólogo especializado nesta área, em conjunto com o teu nutricionista e um bom personal trainer. E agora come lá mais uns caracóis, que a seguir vamos dar um grande passeio na praia!”

“Mas olha que tinhas razão… Não gostei nada! Preferia a versão do truque rápido que vai consertar definitivamente todos os meus problemas, enquanto o diabo esfrega um olho 😉 É mesmo muito mais agradável pensar que haja alguém por aí com a fórmula mágica prontinha para eu ficar elegante como nunca, e sem esforço. Deve ser o que me dizias no outro dia: o que resulta na vida acaba sempre por ser passinhos consistentes na direcção certa, em vez daqueles actos do tipo bungee jumping J”

“Pois. Mesmo que ninguém goste muito de ouvir isso 😉 Que tal um passeio agora, que já refrescou?”

“Boa! Vamos caminhando. Pensando bem “vamos caminhando” é uma boa metáfora para abordar a vida em geral. E eu lembro-me de me teres dito há muito tempo atrás que sempre que uma pessoa se mexe, o corpo produz químicos que contrariam a ansiedade e a depressão. Por isso, vamos lá a uma boa caminhada anti-stress! E, olha, já percebi que nutrição é com nutricionistas e não com psicólogos, mas tenho ouvido falar sobre alimentos bons para o cérebro e tu deves saber algumas coisas sobre isto, certo?”

“Sim, têm vindo a ser apurados alguns alimentos que são ricos em nutrientes que, de uma forma ou de outra, são fundamentais no bom funcionamento cerebral, quer de um ponto de vista intelectual, quer na regulação emocional. Basta uma procura rápida na internet e aparecem listas de todas as formas e feitios sobre os alimentos considerados como bons ajudantes do cérebro. Mas se pedes a minha opinião, já sabes que não estou em modo de te criar ideias demasiado simplistas, não é?”

“Ah! Bom! Se é para me frustrares, acho que consigo fazer isso sozinha J. Deixa-me lá ver… Aposto que vais dizer que se eu me concentrar numa alimentação variada e saudável, tenho os nutrientes todos de que preciso, para todos os órgãos do corpo, sem ter que andar preocupada se comi as 3 nozes diárias para o cérebro, o copo de leite para os ossos e a malagueta para o estômago. Acertei?”

“Tu és rápida, hem? De facto, em condições de saúde, não há necessidade de andarmos à pesca de suplementos adicionais J. Claro que, quando existem problemas de saúde, física ou mental, é interessante que as pessoas se aconselhem com os seus profissionais de saúde sobre aquilo que possa ajudar o organismo, mas esse não é o teu caso, certo? E, se calhar, grande parte do interesse que as pessoas têm nestes temas é o facto de isto poder ser simples e tranquilizador – “se eu comer isto, a memória melhora; se eu comer aquilo, rejuvenesço; e se comer aqueloutro, posso concorrer a Miss Universo”.

“Não sejas mazinha, que me estás a tirar a esperança de chegar a Top Model… Agora a sério, uma das coisas que me pôs a pensar em fazer algumas modificações na minha vida, foi ter andado com o cérebro um bocado empastelado nos últimos tempos – a memória funciona quando lhe apetece; manter a atenção por mais do que uns minutos, nem pensar; e o raciocínio fica bloqueado ou a 10 à hora. Às vezes, até me sinto um bocado burrinha…”

“Nesse caso, ainda bem que já estás de férias!!! O que estás a dizer acontece em situações já de algum cansaço ou mesmo exaustão. Felizmente é temporário. Havendo descanso, que, às vezes, basta que seja uma noite bem dormida, passa e retomam-se os níveis anteriores, por isso, não te preocupes mais do que considerar isso como um sinal de alerta, motivador de pausa e descanso. E com muita paciência, porque isto não é estalar os dedos e esperar que o organismo retome o ponto onde estava! É preciso respeitar o ritmo e o tempo que for necessário”

“De facto, só com uns dias de férias, e uma nova rotina, já começo a sentir a cabeça a mexer-se com mais agilidade J. Alguma sugestão para ver se chego em melhor estado mental às próximas férias?”

“Ah, sim, claro. Tal como a alimentação, a vida também deve ser diversificada. O cérebro é um esfomeado por actividade, mas detesta que se insista no “mais do mesmo”. Aquilo que é verdadeiramente um bom alimento para o cérebro é irmos saltitando de actividades ao longo do dia e ao longo dos dias. Imagina que estás numa reunião a debater temas durante uma hora; é uma boa ideia, a seguir, fazeres qualquer coisa que envolva o cérebro de uma forma muito diferente – por exemplo, em vez de aproveitares para encaixar mais uma reunião (uma actividade relacional e que envolve negociação, acomodação de diferentes perspectivas, gestão de conflitos, etc), ficares um pouco a analisar dados numéricos da tua área (actividade isolada, raciocínio matemático, lógica formal, etc). Ou, estando de férias: estás a ler um bocado, depois vais mexer-te, depois conversar, depois cozinhar, depois fazer um jogo de raciocínio…”

“OK. Percebido – um pouco de cada coisa, em sucessão, envolvendo o cérebro de tantas formas diferentes quantas as possíveis”

“Isso! A actividade cerebral é fundamental para manter o cérebro em forma. Com pausas pelo meio. Além disso, mesmo que pareça ilógico, o movimento físico ajuda e muito no bom funcionamento cerebral – quando nos mexemos com regularidade, conseguimos melhor concentração, maior clareza de raciocínio e uma maior abrangência. E, claro que não consigo deixar de dizer isto: “em forma” não é necessariamente “feliz”… Mas isso já é outra história. Talvez amanhã, que a família quer a nossa presença?”

“Se prometes que me explicas como é que faço o meu cérebro feliz, é mesmo quando tu quiseres, que eu até bloco-notas vou trazer!”

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Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde
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2017-03-05T18:09:15+00:00 Agosto 8th, 2014|Desenvolvimento Pessoal, Madalena Lobo|
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