Dentro de um cérebro deprimido

Cérebro na depressãoIsso da depressão…?

Com a progressiva disponibilização de informação sobre saúde junto do grande público, actualmente, todos nós temos automatizado o conhecimento de que numa gripe, numa anemia, doença cardíaca ou qualquer outra condição médica existem condições de funcionamento do organismo que nos afastam de processos de saúde e exigem intervenção ou recuperação para serem corrigidas ou geridas, num processo de retoma e re-equilíbrio internos.

No entanto, em saúde mental, ainda há uma ideia meio nebulosa de que aconteceram umas coisas na vida das pessoas que misteriosamente se misturaram com algo de errado e que vagamente pertence ao domínio da vontade e criaram contextos emocionais aos quais qualquer um – ou pelo menos, “os fortes” – poderia resistir e contrariar. Ora isto é tão disparatado como pensar-se que podemos fazer desaparecer uma gripe por artes mágicas, só pela força de vontade ou que nos engripámos porque somos fracos de espírito.

Nas condições psicológicas (aqui assumidas como melhor tratadas por um psicólogo), tal como nas condições médicas (aqui assumidas como melhor tratadas por um médico) existem funcionamentos internos que estão em desequilíbrio homeostático – há um mau funcionamento – e que têm de ser corrigidas em contexto próprio. Tal como em medicina, ainda há muito deste funcionamento organísmico que está sob estudo, sabendo-se que ainda resta um longo caminho a percorrer, para descodificar o intrincado e complexo mundo da fisiologia, mas não há por que continuar a pensar em termos antiquados de humores que afectam uns quantos com alguma falha de carácter – é errado, não é útil e apenas ajuda a perpetuar o adiamento da procura de ajuda/tratamento que se impõem para reverter uma situação de sofrimento e retomar qualidade de vida.

Hoje, ilustramos o que acabámos de dizer com o tema da depressão, um dos temas simultaneamente mais comuns e pior interpretados pelo público. A depressão inclui um conjunto de apresentações clínicas que devem ser correctamente diagnosticadas, porque, dependentemente da sua forma de apresentação, assim requerem intervenções diferentes. Neste caso falamos de depressões major ou persistentes – havendo uma diferença sobretudo de severidade entre as duas.

De uma forma geral, a depressão atinge números terríveis na população: é a 2ª perturbação mais comum do foro mental e a razão mais frequente que leva as pessoas a dirigirem-se a psicólogos ou psiquiatras. Cerca de 1 em cada 20 homens vão sofrer um episódio depressivo ao longo das suas vidas e este número duplica nas mulheres. Além disso, é a situação em saúde mental que mais facilmente pode ser mortífera: 1/3 das pessoas deprimidas considera a possibilidade de suicídio e 8% faz pelo menos uma tentativa de suicídio.

A depressão gosta de companhia, atrapalhando-a sempre… As pessoas deprimidas têm maior tendência para hábitos de vida problemáticos – fumam mais, comem pior, não praticam exercício físico, têm mais problemas na adesão aos tratamentos de doenças crónicas, como a diabetes. Além disso, há uma elevada incidência de depressão aliada a doenças do foro médico, chegando a duplicar. E, estando muito ligada a quebras de produtividade tem um impacto brutal na economia.

Vamos então mergulhar na neurodinâmica da depressão? O que é que já se sabe sobre o estado de funcionamento do cérebro deprimido?

Neurodinâmica da depressão

Em termos cerebrais, a depressão é um trabalho em equipa de 3 grandes módulos:
• Os elementos superiores: hemisférios esquerdo e direito, e o córtex
• Os elementos de base: o hipocampo e a amígdala
• O intermediário: córtex cingulado anterior (CCA)

Módulo superior:

O hemisfério esquerdo gosta do que é positivo, é mais analítico, dado a procurar a acção e sabe falar, porque é uma sede importante da linguagem. Já o hemisfério direito tem uma queda natural para o que é negativo, apreende a realidade de uma forma mais global, e está muito envolvido nos comportamentos de evitamento.

Num episódio depressivo, os dois hemisférios ficam em desequilíbrio: o lado direito fica mais activo e o esquerdo retrai-se.
Desta forma, as pessoas evitam o contacto social (talvez mesmo por também terem dificuldades em explicar o que se passa com elas, porque a área da fala fica com menor capacidade) e evitam actividades que até teriam o potencial de as fazer gradualmente sentirem-se melhores. E ficam dominadas pelo negativo, sem grande capacidade para absorver o positivo, pela menor actividade do hemisfério esquerdo.

Módulo de base:

O hipocampo e a amígdala, duas pequeninas estruturas cerebrais, trabalham em conjunto. O hipocampo ajuda a criar novas memórias a partir da experiência, ajuda-nos a encontrar novos caminhos para o nosso destino, e dá-nos a localização espácio-temporal. A amígdala é o nosso botão de pânico cerebral, capaz de disparar os alarmes em fracções de segundo, e é também a responsável por gravarmos aquelas primeiras impressões sobre os outros que são tão importantes para nos orientarmos socialmente, sabermos o que sentimos por eles, o que eles sentem por nós e, mesmo, descodificarmos as suas intenções em relação a nós.

Quer o hipocampo, quer a amígdala diminuem de tamanho quando sujeitos a stress crónico, sempre presente numa depressão, o que debilita a sua actuação (não se preocupe! Esse processo é revertido quando as situações de stress são levantadas). O hipocampo chega a ter uma redução de 10% a 20% de tamanho em pessoas que estejam cronicamente deprimidas.

Quando estamos deprimidos, o hipocampo torna-se menos activo, prendendo-nos na incapacidade de sairmos de um modo letárgico. Já a amígdala fica mais activa, o que faz com que o medo e a ansiedade se tornem presentes em maiores doses, com a amígdala a enviar um fluxo contínuo de mensagens emocionais negativas para os elementos superiores, dizendo ao córtex que se devia preocupar

O intermediário:

Como um gestor intermédio, o CCA recebe e gere informações “de cima e de baixo”. Num episódio depressivo não tem mãos a medir, tentando criar algum equilíbrio interno, mas sem grande sucesso. Uma das coisas que faz habitualmente é monitorizar o nosso funcionamento, procurando erros e activando-se quando encontra um. Quando se instala uma depressão, as memórias que nos surgem são apenas as negativas, porque a memória é um processo dependente do estado emocional – se estamos contentes, lembramo-nos de coisas boas, mas, se estamos tristes só nos conseguimos lembrar do que foi também triste. Por isso, o ACC encontra uma imensidade de coisas que correram mal e fica hiper-activado.

 

Além disso, como também tem um papel importante a selecionar e a codificar as experiências que passam ou não para a memória de longo prazo, quando fica muito activado, e os seus parceiros de baixo estão de mãos cheias com o stress e literalmente a encolherem, torna-se-lhe mais difícil prestar atenção ao que de novo se passa na vida, ficando a braços apenas com as memórias difíceis, mesmo que na realidade (lá fora) se estejam a passar coisas boas. Ficamos com tudo o que foi amargo e surdos ao que é bom.

E agora?

Bem, em psicoterapia, com ajuda das intervenções eficazes – e há várias abordagens demonstradas como muito eficazes em depressão – são criadas as condições, com técnicas criteriosamente escolhidas, para quebrar o ciclo vicioso de negativismo e inacção que mantém o cérebro neste modo e que, de outra forma, nos prenderia numa espiral descendente de negativismo. Algumas situações requerem intervenção psicofarmacológica, de acordo com critérios que começam a estar objectivados, pelo que já é possível o seu profissional de saúde dizer-lhe com alguma certeza se deve “tomar comprimidos” ou não, em conjunto com a intervenção psicoterapêutica.

O que é fundamental reter: a depressão é muito comum e é uma doença séria que exige tratamento, tão rápido quanto possível. O tratamento é eficaz e existem diversas intervenções capazes de conseguirem resultados e fazê-lo sair de um estado que degrada a qualidade total de vida. Se tiver critérios clínicos de depressão – pode fazer o módulo de Vulnerabilidades do Snapshot, para ficar com uma boa ideia quanto à presença de depressão ou alguma outra condição comum em saúde mental – ou conhecer alguém em quem reconheça sintomas – pode ler sobre depressão na nossa página sobre depressão – recorra a um profissional de saúde mental.

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde
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2017-03-05T17:44:08+00:00 Setembro 14th, 2014|Depressão, Madalena Lobo|

4 Comentários

  1. leticia 14/09/2016 at 21:36

    Usei o blog para estudo da faculdade e simplesmente amei, deu para entender muito bem como funciona a parte do cérebro em relação a doença. Muito obrigada <3

    • Oficina de Psicologia 15/09/2016 at 19:44

      Obrigada nós pelo feedback!
      Abraço da Oficina de Psicologia

  2. olhar bipolar 16/09/2014 at 13:18

    Estou encantada com o blog, parabéns pelo trabalho. Me deixa cheia de motivação para segui meu tratamento. Obrigada.

    • admin 16/09/2014 at 14:51

      Muito obrigada! 🙂
      Ficamos mesmo felizes com as suas palavras e mais ainda com a sua renovada motivação para se sentir bem!
      Abraço

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