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Depressão Adolescente

Adolescência, a caminho de que caminho(s)?

Autoria: Inês Mota

Chegar à adolescência é chegar a esse período no qual ocorre uma mudança de estado e é passar a estar continuamente, durante esse período, nesse estado de mudança.

Chegar à adolescência é  atingir a puberdade fisiológica e passar a presenciar a transformação do próprio corpo. É poder, a partir de então, conhecer o corpo que se expande, é poder querer subtraír, renegar ou esconder esse mesmo conhecimento.

Emoções e Direcções

Chegar à adolescência é passar a estar nesse caminho de descoberta de si, daquele que crescendo, muda. É estar também nesse caminho dessa nova e renovada forma de sentir essa continuada mudança. Há de facto  no adolescer esse caminho da turbulência da vivência das emoções. Essa rebentação íntima, quase exagerada, desse novo mundo do sentir-se diferente- essa densidade da vivência das “emoções centrípetas”.

E concomitantemente a este caminho, mergulho para dentro, há um outro no sentido inverso, o salto para fora. Há essa vontade da conquista, da descoberta para além do que limita, há esse ímpeto de rasgar as fronteiras.

Há neste salto, uma atitude irrefletida no acto de sair ou de se afastar (sair de casa ou afastamento em relação àqueles que têm assumido a protecção), e há neste salto aventura  simultaneamente um desafio ambicionado que corresponde a um fenómeno de entrada (novos grupos de pares, novas actividades), constituindo-se assim este complexo movimento como um “saír entrando”. E há neste movimento o grito e o murmúrio que o acompanham, a vivência exteriorizada das “emoções centrífugas”.

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Desafios

Há sempre na adolescência essa vivência intensa e profunda, marcada, transitória mas duradoura.  Há essa confusão de modificações que visam uma autonomização progressiva e uma busca e definição da individualidade e identidade.

A adolescência é sempre uma fase intensa para todos, saborosa, fresca e por vezes violenta. A atracção pela aventura, a vivência da sexualidade, de sentimentos de perda, a expressão da cólera. E este crescer adolescente marca a vivência de todos: o jovem e as suas famílias. Intensifica-se no adolescente, perpassa-o, densificando-se em todo o sistema familiar, em cada um dos membros das suas famílias. Na sociedade ocidental contemporânea é então a família que têm de empreender sozinha esta viagem para  a qual está por vezes pouco preparada.

E se não é fácil para as famílias perceberem esse caminho da adolescência, de cada um dos adolescentes, a verdade é que também não é mais simples para o próprio adolescente.

 

O caminho escuro do deprimir adolescente

Os adolescentes têm em geral dificuldade de perceber o que lhes está a acontecer, dificuldade em conhecer as suas próprias ideias e sentimentos. É por vezes uma magia muito tenebrosa e há, por isso, um predomínio da acção das  “emoções centrífugas” em relação ao conhecimento das “emoções centrípetas”. Em todo o caso há sim, essa manifestação bem vincada de um comportamento determinado e dominante por parte do adolescente, e da sua continuada forma de afirmação. Mas para além da acção, e no seu íntimo há o fervilhar  das “emoções centrípetas”, que por vezes jorram, e  transbordam abrindo a ferida e instalando por vezes a dor e o sofrimento.

Isto, porque percorrer um caminho desconhecido às escuras mete medo.  Surge então por vezes no adolescer o medo de ser oprimido pelo medo e a luta por vezes frustrada de esconder esse medo e assim a necessidade do adolescente de se afastar da família e dos amigos, de muitas vezes se sentir inundado pelas lágrimas, de se sentir inútil, desvalorizado e incapaz de estar com os outros.

E neste processo de vulnerabilidade, a dor e o sofrimento abrem caminho e começam labirinticamente a edificar a sua morada, conduzindo o adolescente a caminhos de fácil acesso, por vezes curtos, por vezes terrivelmente  intermináveis que são no entanto aclamados por permitirem uma evasão gratificante e um temporário alívio dos sintomas dolorosos: o uso e abuso de drogas variadas.

E há infelizmente ainda outros caminhos, de carácter mais definitivo que se insurgem neste períodos de sofrimento e maior vulnerabilidade, pois subjectivamente quem não se sente amado, não consegue amar nem encontrar  sentido para viver e é por isso que o suicídio é maior risco da depressão no adolescente.

Seguir o caminho

A adolescência é um chegar a um caminho de porvir e é de facto difícil e relutante o diagnóstico de depressão devido à concepção de que os sentimentos depressivos são muito comuns neste estado de mudança pelo entrecruzar das vivências da individualidade, das “emoções centríptas” e “emoções centrífugas”.

Observa-se de facto, por vezes e transitoriamente, sem especificação ou significado clínico no adolescer um humor triste, perturbações de sono, perda de interesse ou prazer pelas actividades habituais, diminuição de energia, fadiga, perda de apetite e peso, dificuldades de concentração e em tomar decisões e ainda também por vezes ansiedade, irritabilidade e agitação. Porém, a depressão  ocorre nesta faixa etária com uma frequência praticamente igual à de qualquer outra idade em que os mesmos sintomas assumem uma duração, e intensidade significativamente dolorosos.

A adolescência é um caminho mágico, vivido como fantasmático, recordado como fantástico.

A adolescência é esse mistério dos caminhos, há os perigos e se há no deprimir um adormecer há um acordar para no caminho se recordar.

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