
Filipa Jardim da Silva
Quando as temperaturas começam a baixar e o dia escurece mais cedo, é natural que haja uma maior tendência para ficar em casa, uma preguiça que convida a comer e a dormir mais. É uma reacção normal e, provavelmente, já toda a gente a sentiu. Mas há pessoas que reagem de uma forma mais radical à alternância das estações, com a chegada do Inverno a dar lugar a uma letargia e fadiga sem precedentes, a alterações do humor, e a sentimentos e comportamentos depressivos.
O que é a depressão sazonal?
Nestas situações estamos perante uma depressão sazonal, também designada como desordem afectiva sazonal. Trata-se de uma condição cíclica, ocasionada por um desequilíbrio biológico que costuma ocorrer no período do outono e do inverno, e atenuar-se ou mesmo desaparecer nos dias quentes e solarengos do Verão.
Acredita-se que esta depressão esteja relacionada com a redução da luz natural e as baixas temperaturas. A diminuição da luminosidade, quer em intensidade quer em qualidade, revela-se determinante para as pessoas que sofrem de depressão sazonal.
A luz influencia o nosso relógio biológico, interferindo nos ciclos de vigília e sono mas também no humor. Tudo indica que a baixa luminosidade causa uma quebra na produção de serotonina, um químico natural do cérebro que afecta o humor: quanto menos serotonina, maior a tendência para a tristeza e a depressão; pelo contrário, níveis acrescidos deste neurotransmissor aumentam o estado de satisfação, daí ser chamada de hormona da felicidade.
Por outro lado, a luz também tem influência sobre a melatonina, uma hormona associada ao sono e que é produzida durante a noite. Durante o Inverno as noites são maiores do que os dias o que faz disparar os níveis de melatonina e, com eles, a sensação de fadiga e de falta de energia.
A fadiga é permanente, mesmo com mais horas de descanso durante a noite uma vez que o sono não cumpre o seu papel regenerador. Também o apetite sofre alterações, sendo frequentes os desejos vorazes por hidratos de carbono, em particular açúcares, o que acaba por conduzir a um aumento de peso. A perda de energia é comum, acompanhada de dificuldades de concentração e processamento da informação. A ansiedade e a tristeza dominam, com progressiva perda de interesse pelas actividades que outrora davam prazer e com tendência para o isolamento.
Assim, de uma forma geral, os sintomas mais comuns da Depressão Sazonal são:
- alterações de peso e apetite;
- exaustão e fraqueza;
- insónia ou sono prolongado;
- isolamento e irritabilidade;
- ansiedade, desespero e carência;
- raciocínio lento e dificuldades de concentração;
- sentimento de culpa;
- ataques de choro, angústia;
- (por vezes) pensamentos suicidas.
Quais são as causas?
Não se conhecem as causas da depressão sazonal, mas o conhecimento dos mecanismos da influência da luz sobre a melatonina e a serotonina permite concluir que a depressão sazonal é mais um processo biológico do que psicológico ou psiquiátrico. Esta teoria é confirmada pelo facto de ser mais frequente à medida que aumenta a latitude, ou seja, nos povos que vivem mais distantes do Equador e, portanto, com menos horas de luz por dia.
A idade também parece desempenhar o seu papel, na medida em que este é um problema mais comum a partir dos 25 anos, sendo muito raro abaixo dos 20. É também mais frequente entre o sexo feminino, embora no masculino os sintomas possam ser mais acentuados.
Não há, contudo, explicações para estas diferenças, até porque a depressão sazonal é pouco diagnosticada. E, no entanto, quando não tratada pode ter consequências tão graves como a depressão propriamente dita, reconhecida como uma doença psiquiátrica.
Luz contra a falta de energia
Tal como a depressão, é possível tratar esta desordem sazonal.
Uma das opções é o recurso a medicamentos antidepressivos, sobretudo se os sintomas forem severos. Em complementariedade ou alternativa, surge a psicoterapia; apesar da depressão sazonal estar essencialmente ligada a mecanismos biológicos um processo psicoterapêutico pode ser útil para ajudar a lidar com as mudanças nos sentimentos e nos comportamentos.
Na primeira linha do tratamento está a fototerapia: a luz é utilizada para amenizar uma condição que é desencadeada pela ausência de luminosidade. A fototerapia melhora os sintomas ao actuar sobre o organismo tal como a luz solar, mas sem os efeitos da radiação ultravioleta.
É através dos olhos que se colhem os benefícios desta terapia: os fotões são captados pela retina e daí transmitidos ao cérebro, onde fazem diminuir a libertação de melatonina e aumentar a produção de serotonina, voltando a equilibrar o humor. A exposição a esta luz artificial deve ser controlada, em sessões de curta duração, de acordo com as indicações médicas.
Em tempo de Verão
A depressão sazonal não é um exclusivo do Inverno, podendo acontecer também no Verão, com os sintomas a despontarem nos dias mais quentes da Primavera. São sintomas como ansiedade, irritabilidade, agitação, insónia, perda de apetite e de peso e diminuição da libido.
Há ainda casos, mais raros, em que os sintomas de Verão não são de depressão mas de mania – é a chamada desordem afectiva sazonal invertida, que se manifesta através de humor constantemente elevado, aumento da actividade social, hiperactividade e entusiasmo desproporcional à situação.












