Desbloquear traumas psicológicos com EMDR

Susana Matos DuarteSe pensarmos um pouco, todos temos traumas ao longo da nossa história de vida. Talvez muitos dos que me lêem não se identifiquem com esta afirmação mas, nesse caso, tentarei aprofundar um pouco mais o conceito alargado de trauma.

De acordo com a sua definição, o trauma corresponde a  uma experiência emocional desagradável de tal intensidade, que deixa uma marca duradoura na mente do indivíduo. Assim, sempre que experienciamos situações muito perturbadoras, o nosso cérebro – que tem como uma das suas principais funções proteger-nos de perigos e ameaças – grava essas recordações através de vários canais: imagens (ex: imagens visuais do acontecimento ou situação), emoções (ex: medo), corpo (ex: sensação de aperto no peito, dificuldade em respirar) e pensamentos (“eu portei-me mal, por isso, mereço ser castigado”). Compreendendo esta complexidade das memórias traumáticas e a forma como estas ficam alojadas no nosso cérebro, podemos perceber porque é que estas podem causar um impacto tão significativo no nosso funcionamento actual. É precisamente por essas memórias terem sido alojadas no cérebro de forma disfuncional que continuam a ter um impacto negativo na nossa vida, pois o cérebro – que quer proteger-nos, mesmo que de forma desadaptativa – capta todos os sinais externos e internos que possam indiciar alguma semelhança com o trauma ocorrido no passado, sendo que estes sinais funcionam como uma espécie de “gatilho”: quando uma memória é ativada, é como se revivessemos de alguma forma o que aconteceu no passado. Daí, muitas vezes, não conseguirmos controlar algumas das nossas reações emocionais e agirmos de forma menos adaptativa às situações que funcionem como os tais “gatilhos”, apesar de racionalmente conseguirmos perceber o nosso erro quando analisamos posteriormente a situação.

É especialmente durante a infância que muitos dos traumas começam a criar as suas raízes. Talvez porque nesta idade a imaturidade psicológica e emocional não nos permite processar os eventos traumáticos de uma forma mais construtiva: o sistema nervoso é imaturo e a capacidade analítica das situações é ainda muito rudimentar. Deste modo,  quando nos sentimos ameaçados por uma situação, gravamos essa memória nos seus vários canais e associamo-la a uma espécie de crença irracional e desadaptativa, que se enraiza na nossa estrutura de personalidade e perturba o nosso funcionamento.

Para que possamos compreender melhor este processo, imaginemos o seguinte exemplo: ao longo da infância, os pais foram extremamente críticos e exigentes com o seu filho. Sempre que ele fazia algo bem, não o elogiavam nem faziam grandes comentários de aprovação, como se ele não fizesse mais do que a sua obrigação. Porém, sempre que o seu filho cometia algum erro, mesmo que insignificante, os pais eram extremamente críticos e punitivos com ele. Neste padrão de funcionamento familiar, o filho experienciou um ou outro episódio mais marcante, como por exemplo, o pai a reagir de forma irada e a castigá-lo de forma severa e desproporcionada apenas por ter feito uma asneira típica da sua idade. Ao longo dos anos, o filho foi desenvolvendo um medo intenso de errar e uma hipersensibilidade à crítica, tentando fazer tudo de forma muito perfeccionista e exigente, ficando muito desiludido consigo próprio sempre que não atingia os seus objectivos e desistindo facilmente ao mínimo obstáculo. O filho poderá ter desenvolvido, por exemplo, a crença de que “Eu não sou suficientemente bom”. E esta crença prolongou-se pela vida fora, afetando o seu funcionamento em todas as áreas (na escola, no trabalho, nas relações), causando-lhe um elevado grau de sofrimento.

A intervenção psicoterapêutica através de EMDR (Eye Movement Dessensitization Reprocessing) é das técnicas mais rápidas e eficazes para desbloquear o sistema nervoso, de forma a permitir que o cérebro processe as experiências traumáticas e as armazene de um modo mais adaptativo. Este processo é feito através de uma estimulação bilateral do cérebro que promove a comunicação entre os 2 hemisférios cerebrais, semelhante ao que acontece quando estamos a sonhar (fase REM  – Rapid Eye Movement), facilitando deste modo o processamento do material inconsciente. Esta técnica pode ser usada em situações traumáticas resultantes, por exemplo, de exposição a acidentes ou violência doméstica, mas também numa variedade de situações, tais como depressão, ansiedade, pânico, bullying, fobias, perturbações psicossomáticas, luto, entre outras. Os seus resultados são fascinantes: ao ser retirada toda a carga emocional e física associada aos traumas, bem como a modificação das crenças negativas associadas, recriam-se as potencialidades e promovem-se os recursos para que possamos encarar a vida de uma forma mais positiva e funcional. Experimente e sinta as diferenças.

2015-10-25T10:49:42+00:00 Outubro 25th, 2015|EMDR, Trauma|

2 Comentários

  1. wanderson 10/02/2016 at 15:50

    Tive maustrato quando criança meu pai me humilhava tidos os dia quando chegava em casa bêbado e agora não consigo ficar bem com ninguém muito perto de mim preciso de ajuda

    • Oficina de Psicologia 15/03/2016 at 16:41

      Caro Wanderson,
      Teremos todo o gosto em ajudá-lo, mas isso apenas pode ser feito num contexto de consultas de Psicologia Clínica. Fique à-vontade para nos contactar por email.
      Abraço,
      Oficina de Psicologia

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