Diz que sim, diz que não… E então como é que eu chego a centenária?

Como é que chego a centenária?

A proliferação de estudos científicos das últimas décadas faz com que existam estudos para (quase) todos os gostos. Sai estudo que conclui que o chão é branco; sai novo estudo que diz que afinal é preto. Entre problemas de concepção teórica ou estatísticos, torna-se cada vez mais difícil sentir confiança no chão que nos sustenta.

 

A investigar um pouco o tema da felicidade deparei-me com dois estudos, quase lado a lado, um de 2011 e outro de final de 2015, ambos acima de qualquer suspeita razoável e com amostras grandes e seriedade de análise. Apenas que um conclui que felicidade nos compra anos de vida e outro que diz que não aquece nem arrefece. Pronto. E assim fica uma pessoa sem saber se há-de rir ou não para chegar a velhinha 🙂

 

Para o artigo publicado em 2011, no Applied Psychology: Health and Well-Being , foram revistos 160 estudos e chegaram à conclusão de que existe evidência significativa de que, sendo tudo o resto igual, as pessoas felizes tendem a viver mais anos e em melhor saúde do que as pessoas infelizes. Até aqui ficamos contentes. Vai ao encontro da sabedoria popular, por isso, já é quase intuitivo para todos nós. O objecto deste estudo foi o bem-estar subjectivo (vulgarmente chamado felicidade): um sentimento positivo sobre a sua vida, não estar stressado, nem ansioso, nem deprimido. Os dados que obtiveram foram tão conclusivos que são mesmo mais evidentes, segundo os autores, nesta causalidade de felicidade-boa saúde-longevidade, do que os resultados que ligam obesidade a uma menor expectativa de vida. Muito convincente!

 

Já no Lancet, em Dezembro de 2015, apresentaram os resultados de um estudo que observou 1 milhão de mulheres inglesas – leu bem: 1 milhão. Digamos que a amostra nos deixa logo em sentido. E a conclusão? A felicidade não tem nenhum efeito directo na mortalidade. Os autores afirmam ainda mais: que a crença generalizada de que a infelicidade e o stress causam problemas de saúde se fica a dever a uma confusão científica de causa e efeito; ou seja, será um tema em que os estudos têm baralhado ovo e galinha. Não fica doente porque é infeliz; é infeliz porque está doente. O mesmo se aplicando ao stress.

 

Agora, entre os dois estudos (e os vários outros igualmente contraditórios que se alinham de um e outro lado) venha o diabo e escolha. E enquanto isso não acontece e não há uma demonstração final em relação a este tema, sobra para cada um de nós ter o salto de fé que entender. Escolher entre não valer a pena cuidar de si e da sua saúde emocional – bem-estar subjectivo e stress incluídos – ou investir atenção e prioridades no seu auto-cuidado. Pela minha parte, já escolhi – prefiro chegar a centenária bem-disposta, a viver cem anos de depressão. E a sua escolha, qual é?

 

 

Referências

Ed Diener, Micaela Y. Chan. Happy People Live Longer: Subjective Well-Being Contributes to Health and LongevityApplied Psychology: Health and Well-Being, 2011; DOI: 10.1111/j.1758-0854.2010.01045.x

 

Bette Liu, DPhil et al. Does happiness itself directly affect mortality? The prospective UK Million Women StudyThe Lancet, December 2015 DOI: 10.1016/S0140-6736(15)01087-9

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde
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2017-03-05T18:34:26+00:00 Junho 7th, 2016|Felicidade, Madalena Lobo|