Dói-me a cabeça e o universo* – Parte I

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Andrea Oliveira

Andrea Oliveira

Assim é muitas vezes… depois de um acontecimento de vida marcante que de alguma forma nos abala a estrutura, as certezas sobre as quais tínhamos construído tantas verdades absolutas sobre nós, sobre a vida, sobre a nossa vida, sobre o mundo… de repente… tudo se desmorona e somos assaltados pela angústia, pela . E surgem questões como:

“Existir será muito mais do que apenas viver?”

“Que propósito traz o meu espírito, materializado em mim nestas células, para se permitir existir?”

“Esforcei-me tanto para conseguir este emprego e agora fiquei sem ele, porque é que tem de ser assim tão difícil? O que andamos aqui a fazer?”

“Para que é que me esforcei tanto por esta relação se agora chegou ao fim? Porque é que o universo uniu o que não era para ficar junto?”

“Que propósito maior há na vida? E na minha, que propósito há?”.

Ao longo da nossa vida, do nosso processo de evolução enquanto seres humanos, passamos por vários estádios de desenvolvimento, e nesses diferentes estádios enfrentamos várias mudanças: físicas, biológicas, psicológicas, sociais, espirituais…, que nos permitem progredir de um estádio para outro e evoluir. Estas mudanças podem ser desencadeadas por factores internos (psicológicos e fisiológicos) e externos (sociais, interpessoais, ambientais).

Temos como exemplos de acontecimentos que podem desencadear reflexões existenciais e consequentes mudanças no estado mental – que entenderemos aqui como o somatório das nossas crenças e valores de onde decorrem o sentido de identidade, o significado e o propósito (de vida) – a perda de um emprego, o fim de uma relação, a morte de alguém próximo, uma catástrofe natural, uma doença grave… mas também estados de graça como a gravidez, o dar à luz, o ser pai, o ser-se atingido pela seta do cupido

Havendo uma forte ansiedade resultante da sensação de profunda incerteza sobre como responder às mudanças, da nossa dissonância e conflito cognitivo (de ideias) sobre a situação que estamos a viver, falamos de ansiedade existencial, e estamos perante aquilo que todos conheceremos bem como crise existencial (CE).

À ansiedade juntam-se outros sentimentos que compõem a fotografia de uma CE: a angústia, o conflito interno, a solidão, o desespero, a desesperança. Enfrentamo-la quando não encontramos, no nosso padrão de funcionamento habitual, forma de dar resposta ao acontecimento, e sentimo-nos assoberbados, como que esmagados por um acontecimento que está longe de poder ser controlado por nós, e somos atingidos por uma incapacidade para focar a energia. O nosso sistema é desafiado a rever a sua forma de operar e a alinhar-se com objectivos, valores, comportamentos… com mais significado, ou pelo menos, com significados de maior profundidade.

Ninguém gosta de passar por uma CE, mas a verdade é que é nestes momentos que temos a possibilidade de nos tornarmos mais conscientes de nós próprios enquanto indivíduos, enquanto seres (humanos). Por isso, não há forma de esta não ter impacto no trabalho, na vida social e familiar. A mente pode ser conduzida a evoluir quando se confronta com a ameaça; o sofrimento cria a oportunidade de uma reconstrução criativa que conduz a um estádio de desenvolvimento mais evoluído, como se a CE fosse o catalisador da mudança.

A forma como cada um de nós decide lidar com a crise e estas mudanças é tão específica como a personalidade ou o estilo de vida, por isso não há dois processos iguais. Podem ser várias as estratégias de coping (ações conscientes – cognitivas ou comportamentais – que colocamos em prática para lidar com a situação geradora de ansiedade) que adoptamos, umas são desadaptativas e outras mais maduras e, por isso, adaptativas. Isto pode fazer a diferença entre a superação da CE e o desenvolvimento de uma perturbação emocional/mental, nesta fase ou mais tarde.

(Os mecanismos/estratégias de coping especificamente aplicados à superação das crises existenciais são o tema do próximo artigo).

Fique certo de que a sua superação vai resultar num maior auto-conhecimento, numa forma mais rica e compensadora de se ver a si próprio (numa melhor auto-estima), reconstruindo o sentido da sua existência, a sua identidade, redefinindo o seu lugar no mundo. Encontrará aqui um ponto de mutação, tomando consciência das suas possibilidades reais e concretas, que o tornará capaz de fazer as suas próprias escolhas e decisões.

A duração é variável, dependendo da situação que a gerou, da pessoa em si e das estratégias de coping que usa para a superar. Algumas pessoas podem passar por uma CE sem terem verdadeira noção do que está a acontecer, sentindo-se sem capacidade para superar a situação e tornando insuportável conviver com o conflito aberto. Na eventualidade de se sentir assim, ou se, mesmo sabendo que se trata de uma CE, sente que não está capaz de a ultrapassar, que esta perdura há tempo demais, se sente que sozinho não está a conseguir encontrar novos significados, novas formas de teorizar o mundo, novas soluções para estes velhos problemas e questões… Então, sim, procure ajuda profissional especializada. E nesta altura pode ter a certeza de que está dado o primeiro passo para a passagem a um estádio seguinte, mais evoluído que o anterior e mais sereno que aquele que está a viver no momento!

Deixo-lhe uma música que pode retratar o período de uma crise existencial e o início do desbloqueio; o início do período da resignificação.

Depois de uma CE, nada ficará como antes… (se superar de forma positiva) ficará muito melhor!


* Fernando Pessoa

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