Dói-me a cabeça e o universo – Parte II

Andrea Oliveira

Andrea Oliveira

Como lidar com uma crise existencial?

Perante uma crise existencial (tema abordado num artigo anterior) poderá ser ou não capaz de atribuir um sentido positivo a essa experiência, poderá ou não conseguir encontrar uma explicação e aceitá-la. Se o conseguir, permitir-se-á progredir e amadurecer em prol de um desenvolvimento psicossocial saudável e harmonioso, promovendo o seu crescimento interior e auto-conhecimento.

É importante que saiba que há uma pessoa activa e corajosa dentro de cada um de nós, que pode e deve definir o significado da sua existência. A superação da crise, como vimos antes, passa pela reconstrução da identidade, pelo abandonar das roupas usadas, e isso conduzirá a um novo patamar de desenvolvimento na sua evolução como pessoa, como ser (humano).

Cada um deve escolher resolver a crise, evitando que o sofrimento seja destrutivo, mas antes estruturante: ter a coragem necessária para mergulhar nas profundezas do oceano ou passar pelo calor seco do deserto, e escolher ser a fénix, ao invés da avestruz, negando, evitando ou camuflando a dor que está a sentir.

Todos temos essa liberdade de, consciente e activamente, agir de forma construtiva sobre a(s) emoção(ões) perturbadora(s), num esforço para regular o estado emocional e reduzir a ansiedade e angústia existenciais – estratégias de coping focadas na emoção. E/ou ainda optar por actuar sobre o problema, sobre a situação que espoletou a crise, tentando alterá-lo. Esta segunda variante das estratégias de coping – focada no problema – é usada menos vezes em situações de ansiedade existencial, dado que, na maioria dos casos, as crises existenciais resultam de acontecimentos que fogem ao nosso controlo e normalmente avaliados como inalteráveis. Contudo, há situações específicas de crise existencial onde é possível usá-las.

A superação positiva da crise dependerá então da utilização de mecanismos de coping adaptativos. E quais são? O que podemos fazer para lidar de forma construtiva com a ansiedade gerada por uma crise existencial?

Antes de tudo: ouça-se. E respeite a sua vontade. Se lhe apetecer hoje ficar embrulhado em si, consigo, no silêncio, na procura de respostas, ou simplesmente a pensar sobre as questões que o atormentam, faça-o.

Procure direccionar e focar essa energia usando a arte como forma de expressão daquilo que sente, seja a escrita, a composição de música, a pintura, a fotografia… ou simplesmente ouça e sinta em si a arte: ouça música, leia…

Procure lembrar-se de que outros também se debatem/debateram com questões semelhantes. Pesquise, leia e tome consciência do impacto que essas leituras, autores, pensadores têm em si. Quem sabe vem a identificar-se com algo ou algum deles e (re)descobre respostas, (re)elabora significados para as suas questões? Se não os encontrar desta forma, tudo bem, aceite isso, não é peremptório que aconteça.

Medite um pouco. Se nunca aprendeu a fazê-lo, quem sabe se é esta não é uma boa altura? Escolha um sítio sossegado (em casa ou fora) e permita-se simplesmente estar, a notar qualquer coisa que possa surgir no meio do silêncio exterior (ainda que por dentro o barulho seja imenso), repare no silêncio e/ou em qualquer som, qualquer sabor, qualquer sensação que surja no corpo, (ou) na alma… Note e não avalie, repare e não interprete, contemple e não julgue…

Faça uma lista de duas colunas com as vantagens e desvantagens que encontra em viver, e verá que, ainda assim, neste momento, a lista será maior na coluna das vantagens. Se não for, e perdurar no tempo esse desfasamento para a coluna das desvantagens, procure ajuda profissional especializada.

Vá até lá fora, sinta o ar fresco desta altura na face, caminhe um pouco. Repare e permita-se ser atingido por qualquer coisa que lhe faça sentido, que tenha ressonância em si, que o faça sorrir, ainda que só por dentro… e esteja atento a isso.

Durante a caminhada (ou quem sabe, durante a condução, se optar por pegar no carro e conduzir), imagine que ao seu lado está aquela pessoa por quem tem uma admiração e um respeito especiais. Pergunte-lhe a opinião sobre o que está a passar e que conselho lhe pode dar.

Pense ainda se há alguma causa altruísta a que possa/queira dedicar-se.

Procure algum objectivo seu a curto prazo que possa antecipar e planear, sentindo assim que volta a ganhar controlo sobre a sua vida.

Há pessoas ainda que usam o humor como estratégia de coping de eleição e usam-no muito bem! Fazem deliciosas caricaturas das questões e crises existenciais humanas (como o realizador Woody Allen) e fazem-no, sobretudo, com as suas próprias crises existenciais.

Telefone a um amigo e apoie-se no amor e amizade que os une.

Se for possível alterar o problema que a gerou (no caso do desemprego/desocupação profissional), elabore uma lista com todas as acções concretas que o podem ajudar a resolver.

A espiritualidade (filosófica ou religiosa) é mais um mecanismo de coping comum no que respeita à superação de crises existenciais, e que se trata de uma estratégia adaptativa quando não restringe a sua liberdade, a sua capacidade criadora activa e criativa nesta procura dos novos significados e lugar no mundo.

Na certeza de que tem em si tudo o que precisa para atravessar o deserto e/ou mesmo mergulhar nas profundezas do oceano, opte por ganhar coragem e lidar com essa ansiedade e angústia de forma construtiva e adaptativa. Lembre-se sempre de que “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro, desperta” (Carl Gustav Jung).

2014-02-18T19:49:53+00:00 Fevereiro 18th, 2014|Ansiedade, Desenvolvimento Pessoal|
Translate »