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E se eu me re-inventasse?

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Praia da Barrinha– Ora viva! Agora o fim das férias já se conta em horas. Não tens, assim, uma sensação de tristeza?

– Tenho pois. E uma bolinha de angústia. E uma voz cá dentro a gritar “Não quero que acabem”

– E eu a julgar que os psicólogos conheciam as estratégias todas para não ficarem tristes!

– LOL. Então memoriza que as emoções são todas importantes; lá porque achamos que umas são desagradáveis, isso não é motivo para as rejeitarmos. A tristeza é adequada e surge sempre que há uma perda – no fim das férias, perdemos umas coisitas simpáticas, não achas?

– Ah, sim. O descanso, a liberdade, uma certa suspensão de responsabilidades, a obrigação de aturar gente que não nos interessa 🙂

– E estavas tu a achar que não tínhamos direito a ficar um bocadinho tristes. É aquilo que nos permite dar o salto para o passo seguinte: começarmos a sentir o entusiasmo pelas coisas que também nos são importantes no meio do dia-a-dia habitual, as resoluções de mudanças e até um certo conforto pela retoma com a realidade conhecida. Um passo de cada vez: o que perdemos e, a seguir, o que ganhamos.

– Está bem, mas hoje ainda estou no passo que me diz que ficava mais uns tempos por aqui 🙂 E, como fiquei atenta ao que me entra pelos 5 sentidos, ando muito reconfortada com a qualidade da luz de Verão, com os sons dos pássaros e da brisa na folhagem, com a temperatura da água do mar em contraste com o calor, e tudo e tudo e tudo. E já sei que me vais dizer que, quando voltar à cidade vão lá estar uma data de coisas a beliscarem-me os sentidos também, mas eu agora estou muito entretida com estas.

– Então aproveita cada segundo. De qualquer forma, é o melhor que podemos fazer: aproveitar ao máximo o que se nos oferece a cada momento. E queres um truque para recriar sensações boas e úteis dentro de ti, usando os 5 sentidos?

– Então, não? Venha tudo o que é bom!

– Nesse caso, vou  pedir-te que penses numa emoção própria das férias e que gostasses de levar contigo

– Há tantas… Deixa-me ver… Já sei! Aquela sensação de tranquilidade e serenidade muito especial de quando sabemos que a única coisa que temos de fazer é sentar e usufruir. Ainda ontem estava a ter consciência dessa sensação.

– Então vamos buscar o exemplo de ontem. Fecha os olhos um bocadinho e traz à memória esse momento.

– Já lá estou!

– Agora, e sempre a recordares, lá dentro de ti, repara nos aspectos visuais que compõem a memória desse momento – que cores é que há nessa recordação, como é a luz, que objectos te rodeiam e tudo o que “vês” e faz parte integrante dessa memória

– Está tudo presente cá dentro.

– Então acrescenta-lhe os sons: o que escutas que faz parte dessa recordação? Pássaros, o som da água, vozes de pessoas à tua volta, o som da brisa…

– Tudo em estero!

– E, agora, acrescenta-lhe as outras dimensões sensoriais: se estavas descalça na areia, o toque e o calor da areia a envolver os pés, ou, se estavas sentada numa cadeira, a pressão no corpo da cadeira em contacto contigo, a temperatura na tua pele, do sol ou da sombra onde estavas, os cheiros que te rodeavam…

– Hummmm…

– E agora dirige a tua atenção para o corpo e a forma como o sentes. Consegues descrever-me aquilo de que te apercebes?

– Tenho os braços e pernas assim… pesados e moles. O peito levezinho, e como se tivesse um leve movimento de expansão, a cabeça leve, o estômago quentinho.

– Boas sensações?

– Óptimas!

– Excelente! Então agora aumenta um bocadinho o volume disso que estás a sentir. E dá um nome qualquer a esta sensação; um nome de código de que te seja fácil lembrar, quando quiseres recriar este momento.

– Já está!

– Então vamos guardar. Agarra nesta sensação toda, junto com a memória boa, e guarda-a numa zona qualquer do teu corpo que te faça sentido

– Guardadinha!

– E, assim, ficaste com mais um recurso de bem-estar para alimentares o teu cérebro! Primeiro, convém que pratiques diariamente – aproveitas os momentos “mortos”, como o duche, uma espera, uma reunião daquelas que só servem para encher o tempo. Nesses momentos, durante uns poucos minutos, com o nome de código que escolheste vais à recordação que guardaste dentro de ti, abre-la e deixas-te inundar pelas sensações. Depois voltas a aguardar. À medida que vais praticando, estas sensações que escolheste, de serenidade e tranquilidade, vão sendo cada vez mais rápidas de recriar. É assim como se pudesses ter umas micro-férias todas as vezes que queres ou precisas. Prático, não?

– Super-prático! E isto dá para outras sensações? Por exemplo, auto-confiança?

– Claro! O processo é sempre o mesmo: trazes à memória uma recordação em que essa emoção esteve presente. Tiras uns momentos para acederes a ela, reparando nas suas qualidades sensoriais. Reparas na forma como o corpo reage. Deixas que o volume aumente dentro de ti. Guardas. E praticas aceder a ela, para que o cérebro fique com um bom caminho para lá chegar sempre que quiseres.

– Ah! Excelente! Agora tenho mesmo é de fazer, certo?

– Pois. Já sabes: se queres mudar a tua realidade, tens de arregaçar as mangas e provocar mudanças. Não caem do céu, infelizmente – já Einstein dizia que se continuarmos a fazer as mesmas coisas, vamos continuar a obter os mesmos resultados. E olha que ele não era psicólogo. E, ao que consta, era esperto 🙂

– Está bem, mas como é que passo das boas intenções para as mudanças reais? Vá, já não sou uma adolescente cheia de ideias românticas na cabeça – lembro-me muito bem de todas as vezes em que disse “agora é que vai ser” e, quando dei por ela, estava a fazer tudo na mesma, apesar da resolução de que “amanhã” mudava as coisas.

– E tens razão, porque mudar é algo que o ser humano faz com alguma dificuldade. É como se estivéssemos programados de uma forma muito conservadora para a manutenção do que quer que seja a nossa realidade, mesmo que nos desagrade e, intelectualmente, a queiramos modificar. Por isso, exige sempre um esforço muito consciente e eu diria que quase implacável.

– Pois… Deve ser nessa parte que a vida me corre mal 😉 Mas aposto que vais tirar dessa tua caixinha de ferramentas algumas sugestões úteis, não vais?

– Mas olha que eu não queria que ficasses com a ideia de que passarmos da realidade A para a realidade B é tão simples quanto lermos umas dicas em modo ligeiro de Verão. Afinal, a mudança é o centro nevrálgico de todo e qualquer processo psicoterapêutico. Se fosse simples, não eram precisos profissionais altamente qualificados e actualizados, e consultas com alguma regularidade, certo?

– Certo! Não te preocupes que eu sei distinguir entre umas sugestões para eu ir “crescendo” e mudanças sérias em passo de gigante 🙂

– Então, deixa-me lá encontrar-te o martelo e o alicate para arrancares ou pregares mudanças à tua vida 🙂 Em primeiro lugar, aquilo que tu decides mudar.

– Olha, essa é simples. Quero ser feliz! Não é o que todos queremos?

– Não me parece nada mal, como aspiração de vida 🙂 Mas um objectivo é que não é. Ser feliz, ou estar bem, ou viver uma vida plena ou na tranquilidade de nos sentirmos globalmente satisfeitos com quem somos e com o que temos é um resultado que decorre mais ou menos indirectamente de alguns objectivos conseguidos. Mas, acima de tudo, é algo que não controlamos de forma directa, e é abstracto, complexo e GRANDE! E, ainda por cima, é subjectivo – hoje estou bem-disposta e de bem com a vida: isso significa que estou feliz? Como é que sei? Um bom objectivo é concreto, possível de ser medido e portanto de sabermos se o atingimos ou não, está maioritariamente sob o nosso controlo, é realista e formulado pela positiva. E, claro, deve apontar para uma direcção geral de bem-estar.

– Então, se eu quiser mudar alguma coisa na minha vida, lá voltamos aos passinhos de bébé. E às escolhas práticas. E ao que posso ver, ouvir e sentir.

– Viste? Tudo se junta!

– Então, deixa-me pensar numa coisa que me faça sentido, para usarmos como exemplo… OK. Quero chegar ao final do dia a não me sentir exausta e desmoralizada. Espera… Isto também não é um bom objectivo: é uma igualmente uma emoção, nada específico e ainda por cima formulei-o pela negativa. Hummmm… Quero guardar meia hora para mim todos os dias, para poder fazer as coisas que me fazem sentir bem e desenvolver o meu potencial! Assim, já te parece bem?

– Parece-me lindamente. Aliás, parece-me tão bem, que acho que vou saltar para o barco contigo 🙂 A mim também me dava jeito uma resolução dessas! Então agora temos de operacionalizar isto, senão continua tudo muito vago e, no melhor cenário, acabamos com 30 minutos desperdiçados todos os dias. Para ti, o que te faria sentir bem e desenvolveres o teu potencial?

– Ui, tanta coisa. Se pensar bem, ainda tenho de fazer ao contrário: ficar com 23,5 horas por dia dedicadas ao tema e reservar meia horita para as minhas obrigações! Mas vamos ser realistas – 30 minutos já vai ser um desafio, por isso, vou ter de ser selectiva. Tempo para fazer ioga, ler e retomar contactos com amigos de quem me tenho vindo afastar por falta de tempo. Achas que consigo espremer isto tudo em 30 minutos por dia?

– Essa parte agora é contigo. Tenta ser prática e encaixar as coisas na tua rotina e estilo de vida – o problema com muitas das mudanças que as pessoas querem implementar na sua vida é que não têm forma de encaixar no seu dia-a-dia. Por exemplo, queres fazer ioga. Se vires que não tens oferta perto de ti, ou que não podes pagar, ou que não há um bom horário, ou que, entre as deslocações e as aulas investes mais tempo do que aquele que tens disponível, arranja um colchão de ioga lá para casa e segue uma das centenas de instruções disponíveis: livros, websites, vídeos… Hoje há de tudo disponível. E se queres retomar leitura, encontra também uma sequência nas tuas rotinas que faça sentido e te surja como natural: por exemplo, antes de dormir. E retomar vida social também convém que tenha um ritmo – por exemplo reservar o Sábado à noite para estar com os amigos ou os almoços de Quarta-feira, ou qualquer outra coisa que “encaixe” com o mínimo de esforço na tua vida.

– Resumindo: tenho de definir as coisas de uma forma muito concreta – o quê exactamente, onde, quando, etc, e tenho de ser muito realista a manter aquilo que podemos chamar a ecologia da minha vida, para criar o mínimo de fricção possível.

– Isso mesmo! E depois precisas de mais duas coisas: compromisso e determinação.

– Então o compromisso não é o momento em que eu decido que quero fazer?

– Não, amiga. Isso é boa vontade 🙂 É bonito, fica-te bem, mas não serve de nada se quiseres mesmo ter resultados reais.

– Está bem, pronto, mas só até alguém inventar um comprimido que nos faça acordar diferentes por passe de magia, sim?

– Se encontrares a fórmula desse comprimido mágico diz-me, porque ficamos logo as duas milionárias 🙂 ‘Compromisso’ exige que assumas o que vais fazer, perante ti própria e perante os outros. E que cries um sistema de consequências práticas: o que ganhas e o que perdes, caso o faças ou não.

– Certo! Mentalizo-me do que vou fazer. E, se calhar, visualizo-me também a fazê-lo, o que achas?

– 5 estrelas! O que o cérebro vê, o cérebro acredita!

– E anuncio. Por exemplo, digo ao meu marido “Olha, querido, vais ter de ser tu a ir buscar os miúdos às Terças e Quintas, porque eu preciso de relaxar um bocado e vou começar aulas de ioga”. E falo com os amigos e digo-lhes que gostava muito de retomar uma certa rotina de contacto e pergunto o que acham de nos comprometermos com uns almoços de X em X tempo. É isto?

– Isso mesmo. E defines como te vais recompensar à medida que vais cumprindo com o que te propuseste. Normalmente os objectivos de mudança estão orientados para “coisas boas que vão acontecer no futuro” o que é um bocadinho abstracto demais para os nossos cérebros, que gostam particularmente das gratificações de curto prazo. Assim que eu fizer X, permito-me Y. É básico, mas funciona.

– Já me estou a ver a deliciar-me com recompensas de chocolate ou a dar-me autorização para passar uns momentos a fazer algumas daquelas coisas que adoro fazer mas deixo sempre de parte porque acho que só servem para perder tempo…

– O que te der mais jeito e te sirva como recompensa exclusiva por teres feito o que te propuseste. Eu lembro-me de uma cadeira na Faculdade, que eu detestava, e que só consegui mobilizar-me para fazer, quando fiz um contrato comigo mesma: por cada hora a estudar para a malfadada cadeira, ganhava o prémio de poder estar meia hora a ler banda desenhada, coisa que eu adorava e nunca tinha tempo para fazer. Acho que se não fosse isso, teria ficado com o curso incompleto.

– Mas tiveste de ter determinação, certo? Aquela última condição para que a mudança aconteça.

– E sem ela, nada acontece, também. Se defines o que queres mudar, desenhas um plano concreto para o fazer, comprometes-te e garantes as condições de motivação e adesão aos teus objectivos, sobra a parte do “trabalho de sapa” – esta é a parte que gera suor e não precisa de inspiração. Acho que foi o Thomas Edison quem disse que o sucesso é feito de 10% de inspiração e 90% de suor. Por isso, se queres produzir mudanças na tua vida, não te safas destes 90% 🙂

– Percebido: equipo-me para a corrida, escolho uma boa pista de corridas, preparo-me adequadamente mas lá vem o momento em que dão o sinal de partida e eu tenho mesmo de por as perninhas a trabalhar senão não saio do mesmo sítio.

– Verdade! Mas dou-te uma boa notícia – como temos um organismo que se adapta a tudo, o esforço vai diminuindo à medida que insistimos, até que as coisas que nos propusémos alterar parecem absolutamente naturais e integradas na nossa vida. Tornaram-se os nossos novos hábitos!

– Anos de adaptação?

– Credo! Não. Umas semanas, todos os dias, implacavelmente… Quando deres por ela, já estás a pensar na próxima coisa a mudar 🙂

– Então vamos lá! Já levo muito em que pensar para este recomeço depois das férias. Acho que me vou re-inventar um bocadinho!

– Pensar e fazer, não? Senão só fantasias, não re-inventas nada 🙂

– Certo! Percebido! E posso-te levar no bolso, para me ires segredando umas dicas?

– Se o bolso for grande, forrado a penas fofinhas e me fores alimentando, salto já lá para dentro 🙂 Vá, agora à séria, sabes por onde eu ando caso precises de mim.

– Claro: Oficina de Psicologia

– Qualquer coisa que precises, diz! E, se quiseres prolongar um bocadinho as férias enquanto aprendes mais umas estratégias, vê lá o que preparámos: Uma Lisboa Tenebrosa e uma Sintra Mindful. Dois dias cheios de estratégias anti-stress e boa disposição.

E tem um bom regresso de férias!

 

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Comments

  1. maria luz marques  September 19, 2014

    Adorei estes textos de férias.
    Identifiquei-me imenso com a personagem(cliente), provavelmente muitos outros leitores também.
    É bom fazermos parte de um grupo.
    E as sugestões são ótimas!
    Bom trabalho

    reply
    • admin  September 19, 2014

      Muito obrigada pelo feedback! Nós adorámos escrevê-los, sempre imaginando que, de alguma forma, iríamos dar uma palavra de incentivo e boa-disposição a quem dela precisasse.
      Fique bem!
      Abraço

      reply

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