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E se o medo ajudar?

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Joana Fonseca

Joana Fonseca

De certeza que já sentiu medo. Quando se é pequenino têm-se medos pequenos que parecem gigantes, e quando se é crescido têm-se medos gigantes que parecem ainda mais gigantes. Existem alguns momentos de vida mais propícios ao aparecimento do medo, como as fases de grandes mudanças. É natural que existam mais medos em momentos como a entrada no infantário, a passagem da 4ªclasse para o 5ºano de escolaridade, a entrada na faculdade, o primeiro emprego, o nascimento do primeiro filho, entre outros.

O medo é uma resposta do corpo humano ao perigo, é assim a capacidade de estar alerta. As emoções servem para o corpo humano comunicar alguma alteração ou instabilidade. Quando se fala da resposta imediata do medo, nomeia-se de reação luta-fuga. Neste tipo de resposta o corpo está pronto para a ação.

A emoção medo tem características específicas. Quando se sente medo, aparecem as tonturas, sensação de formigueiro, boca seca, corpo a tremer, os músculos ficam rígidos, sensação de que se vai a paralisar, pode-se sentir um nó na garganta, ou falta de ar, ritmo cardíaco mais acelerado, sudação, e alterações gastrointestinais. Depois de sentir medo, é natural sentir um enorme cansaço, característico que quem esteve em esforço por alguns momentos. À medida que o medo aumenta, é natural que comecem a aparecer os pensamentos negativos. Como por exemplo: “Sou péssimo”; “Não consigo reagir”. Ao nível do comportamento, quando se sente medo a tendência é focar nos sintomas, e a “atenção” é a melhor amiga do medo, fazendo com que este aumente. Por exemplo, o ataque de pânico, muitas vezes, é provocado pelo pensamento: “vou ter um ataque de pânico”. Para algumas pessoas a resposta luta-fuga é ativada mais facilmente, e nos momentos em que não era desejável, provocando um bloqueio. O comportamento muda em função da ansiedade, pode ser um comportamento de fuga, ou de evitamento, ou até de agressividade.

Um medo pode surgir de duas formas, a primeira, muito de repente, perante uma situação traumática, como por exemplo, se passou por uma situação de despedimento, pode passar a ter medo de qualquer avaliação superior. Por outro lado, o medo pode ser instalado de forma lenta e progressiva, por exemplo, para alguém que tinha a mãe sempre a avisar do perigo de viajar de carro e sempre muito ansiosa quando conduzia, pode ir desenvolvendo o medo de conduzir.

Por vezes nem se compreende porque é que o medo surgiu. No cérebro a amígdala é responsável por guardar as memórias emocionais, isto é, reações corporais específicas ativadas perante um sinal de perigo. Já o córtex pré-frontal é responsável pela nossa memória conceptual, isto é, guarda as nossas memórias de forma organizada, lógica e racional. O problema é que a amígdala é mais rápida do que o córtex pré-frontal, por isso, muitas vezes ainda não se compreendeu porque se está com medo (córtex pré-frontal) e já o sentimos (amígdala). Outro problema é que a amígdala não distingue bem estímulos, assim, se por exemplo fui assaltada por um homem vestido de azul escuro, posso passar a ter medo de qualquer homem que esteja vestido de azul escuro, e posso nem perceber porquê (córtex pré-frontal).   O que acontece é uma generalização do medo, por exemplo, se uma pessoa gozou comigo, fico com a sensação de que todas as pessoas vão gozar.

A tendência para ter mais medos tem uma origem genética e biológica, isto é, quando temos uma característica genética é preciso que o ambiente proporcione condições para o medo se desenvolver. Por exemplo, se a mãe tem fobia de cobras, a característica genética pode ter passado para o filho, mas este só vai ter medo de cobras se no seu ambiente familiar e social este medo for aprendido. Já a forma como o corpo humano reage a emoções é biológica, isto é, é inata. Num estudo de Nummenmaa, Glerean, Hari e  Hietanen (2013) os autores estudaram as zonas do corpo que ficam mais ativas e menos ativas para cada emoções. O estudo foi feito com participantes de duas culturas diferentes, e apesar da diferença de cultura e até de língua, as zonas do corpo que ativam e desativam para cada emoção são idênticas, provando que a forma como o corpo humano reage às emoções tem uma raiz biológica e não aprendida.

As emoções, e também o medo, podem ser adaptativas ou não-adaptativas, e podem ser agradáveis ou desagradáveis. Por exemplo, o medo de representar num palco pode ser não-adaptativo, se bloquear, impedindo a pessoa de representar, ou pode ser adaptativo se ajudar a pessoa a preparar-se melhor para uma representação. O medo adaptativo é essencial à sobrevivência do ser humano. Se não existir, por exemplo, a pessoa atravessa a rua sem perceber se vem ou não algum carro e corre o perigo de ser atropelada. Neste sentido, o medo adaptativo é protetor e move a pessoa a fazer algo para aumentar ou proteger o seu bem-estar. Apesar de ser desagradável, o medo pode ajudar. Fazendo uma analogia, quando se fala de dor física, apesar de desagradável e por vezes muito condicionante, é fácil perceber o seu sentido adaptativo. Quando existe algum problema no corpo, ele sinaliza-o com dor, se não existisse dor era impossível saber se existe patologia física. O mesmo se passa com o medo adaptativo, serve para o corpo sinalizar algum perigo ou desconforto. Por exemplo nas relações de casal o medo pode ser o primeiro sinal de que a relação não está equilibrada. Se existir na relação algum tipo de abuso ou desequilíbrio é essencial que a pessoa esteja atenta aos seus sinais no corpo de medo, para se poder proteger.

Assim, é fundamental aprender a ouvir o corpo, pois ele, através das sensações corporais, vai comunicar, com medo adaptativo, a necessidade de se mover para se proteger. Ouvindo o corpo torna-se possível identificar os primeiros sinais de medo e regular a emoção antes que o medo se torne não-adaptativo e provoque um bloqueio, sendo que nesse momento é mais difícil a regulação emocional.

Para transformar um medo não-adaptativo num medo adaptativo existem duas ferramentas essenciais, a regulação emocional e a exposição. A regulação emocional é essencial para tolerar o desconforto provocado pelo medo e também para regular algum medo que seja excessivo em relação ao perigo real. Por outro lado, a exposição é a melhor forma de enfrentar um medo não-adaptativo. Quando se expõe a situações de que tem medo, começando com as mais simples, vai reduzindo a reação de medo e aprendendo que afinal a situação não representa tanto perigo como parecia ao início.

Concluindo, quando o medo ajuda a mover para a mudança é o momento certo para perguntar a si próprio: E se o medo ajudar?

 

Joana Canêlhas Fonseca

 

Nummenmaa, L., Glerean, E., Hari, R., &  Hietanen, J. (2013). Bodily maps of emotions. PNAS doi:10.

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