EMDR – Uma forma de cicatrizar a dor

Cláudia Sintra Vieira

Cláudia Sintra Vieira

36 Semanas …
36 Semanas era o tempo de gravidez que Joana tinha alcançado.
Estas foram as melhores semanas da sua vida, até as náuseas, a dor nos rins, as idas intermináveis à casa de banho tinham outro significado para si. Mesmo nestes momentos a felicidade instalava-se no seu rosto. Porquê?
“Era o nosso bebé. Era o realizar de um sonho” – Dizia ela.
O Nuno (o seu marido) estava tão radiante como Joana.
Todos os dias a barriga crescia! E crescia também a vontade de conhecer o seu bebé.
O seu mais que tudo!

Novembro de 2014 …
Joana vai a uma consulta à Maternidade. Era mais um dia em que Nuno e Joana se sentavam no corredor da Maternidade de mãos dadas com as pernas a tremer e o coração a bater como se tivessem terminado uma maratona. “Será que está tudo bem com o nosso filho?” “E se não estiver? O que fazemos Nuno?” – dizia Joana.

A médica chama-os e depois de todo o processo de preparação … Eis que o Francisco aparece!
Mas hoje aparece muito calmo. Quase que não se ouve o coração.
Na realidade não se ouvia o coração. Naquele Novembro de 2014 a Joana e o Nuno deixaram de ouvir o coraçãozinho do Francisco.

“O que fazemos Nuno?” – a pergunta voltou a surgir mas agora com uma emoção e intensidade emocional diferentes.

Depois disto, Joana não voltou a ser a mesma. Ela, que sempre fora uma ‘força da natureza’, começou a ter crises de ansiedade à mínima recordação do que se havia passado. Não conseguia entrar no quarto do Francisco, e sempre que passava por lá chorava e recordava-se daquele dia na Maternidade. O coração saltava sempre que não ouvia o Nuno a respirar durante a noite. Não conseguia passar pela Maternidade e todos os sons e cheiros associados lhe geravam náuseas, tremores, taquicardia e calafrios. De vez em quando, sem qualquer razão aparente, tinha flashes: via perante si o momento em que tudo o que sonhou se dissipou.
De noite sonhava muitas vezes com o Francisco e com a sua partida, acordando sobressaltada vezes sem conta.

Joana mudou … já não se vestia, andava e sorria da mesma maneira! E durante muito tempo foi incapaz de falar do que lhe tinha acontecido.

Como vemos pela história da Joana há acontecimentos muito dolorosos que, inevitavelmente, deixam uma marca profunda no nosso cérebro.
Na realidade a Joana, tal como outras pessoas, sabem que como a situação já passou não se deviam sentir tão mal, que são apenas recordações mesmo que horríveis. Sim… Sabem-no mas não o sentem.
As cicatrizes deixadas no cérebro pelas situações mais difíceis da vida não se apagam facilmente e os sintomas mantem-se, muitas vezes, passados anos sobre o trauma.
E é nesse momento que nos sentimos encurralados, quase como se andássemos a “reboque das nossas emoções”, como se continuássemos a viver o acontecimento passado no presente, mesmo depois da nossa visão racional da situação ter evoluído.
Como tudo acontece?
É como se as partes do cérebro racional que contêm todo o conhecimento apropriado não conseguissem entrar em contacto com as partes do cérebro emocional, as quais continuam a recordar e a trazer ao de cima emoções dolorosas.
E porque é que isto acontece?
Porque quando a informação é muito negativa o sistema não consegue processar, não havendo integração ou ligação a redes positivas. A memória fica então armazenada num espaço diferente, ligada a informação negativa e é continuamente reprocessada em qualquer momento presente.

E aqui surge o EMDR como uma abordagem terapêutica rápida e eficaz que desbloqueia o sistema nervoso de forma a permitir que o cérebro processe as experiências traumáticas e as armazene de um modo mais adaptativo e funcional.
O EMDR vai facilitar o processo associativo e permite que esta informação seja integrada, existindo alterações e novas resoluções. As memórias negativas são processadas e memórias positivas são integradas.
Este processo é feito através de uma estimulação bilateral do cérebro que promove a comunicação entre os dois hemisférios cerebrais, semelhante ao que acontece quando estamos a sonhar, facilitando deste modo o processamento do material inconsciente.

Mas afinal o EMDR tem algum poder na forma como vamos viver a nossa vida depois do trauma?
A força do EMDR advém do facto de evocar em primeiro lugar a recordação traumática com as diferentes componentes (visual, emocional, cognitiva e física), estimulando depois o «sistema adaptativo de tratamento de informação», que não conseguiu, até aí, digerir o material negativo. Os movimentos oculares comparáveis à fase do sono REM vão fornecer a assistência necessária ao sistema natural de cura do cérebro para que este termine o que não pôde fazer sem ajuda exterior.

Parece estranho?
Na realidade tudo se passa como se os movimentos oculares – tal como nos sonhos – facilitassem o acesso rápido a todos os canais e associação ligados à recordação traumática. À medida que estes canais vão sendo ativados, podem ir sendo ligados às redes cognitivas. É através desta conexão que a pessoa deixa de estar submetida aos perigos do passado, acabando por surgir um cérebro emocional mais adaptativo.
Substitui-se aí a marca neurológica do medo, desespero, tristeza profunda e quando é substituída deixamo-nos de sentir encurralados, surgindo assim a cicatrização da dor.

“We are the outcome of our memories” – É o nosso cérebro que irá tratar do processo de cura e somos nós que controlamos a situação.
A Joana cicatrizou-se. A Joana ajudou o seu cérebro a curar-se.
E você?

2016-04-01T12:31:57+00:00 Abril 1st, 2016|Cláudia Sintra Vieira, EMDR|