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Praia ao entardecer“Sabes, tenho andado mais atenta ao que o meu cérebro me vai oferecendo como conversa interior”

“Isso é óptimo! Termos consciência do que se vai passando dentro de nós é mesmo meio caminho andado para conseguirmos assumir o controlo sobre a nossa vida. Muitas das vezes, só não conseguimos alterar a nossa realidade porque não percebemos qual ela é”

“Sim, mas isso já é um grande salto que estás a dar, não? Falas-me de mudar a realidade… Ora, dentro de dias, volto à minha vida habitual, por mais uns 11 meses – o meu chefe vai continuar a estar lá, as birras dos miúdos também, as dificuldades de dinheiro e de carreira vão ser as mesmas e todos os meus problemas também não mudaram só porque eu estou mais consciente da forma como reajo internamente….”

“Pois acabaste de falar da grande ratoeira em que nos metemos voluntariamente e que nos prende num impasse complicado na vida! Corresponde a uma qualquer variação de “Se ao menos a minha vida fosse diferente, eu era feliz!”.”

“E tu chamas a isso uma ratoeira??? Eu chamo-lhe uma evidência!”

“Mas olha que é mais uma aparência do que uma evidência 🙂 Sabes que foram feitos estudos com as pessoas que ganham os euromilhões desta vida e que, cerca de 6 meses depois os níveis de bem-estar dessas pessoas voltaram todos aos níveis prévios? Quando não pioraram… Se mudar a vida fosse o garante de nos sentirmos bem, então seria de esperar o oposto. Isto basicamente indica-nos que ou mudamos a nossa forma de lidar com a nossa realidade, seja ela qual for, ou vamos continuar a sentir-nos da mesma forma. Por isso, em vez de ficarmos quietinhos à espera que mude a vontade dos astros, mais vale pensarmos no que podemos fazer connosco próprios”

“Hummmm… Parece-me daquelas coisas que são fáceis de ser ditas e difíceis de fazer…”

“Tenho de concordar em parte contigo. Mas apenas porque tendemos todos para a inércia: por exemplo, lá vamos lendo livros de auto-ajuda e sugestões várias sobre o que podemos fazer para mudar mas, depois, as boas intenções vão ficando na gaveta, porque é infinitamente mais fácil manter o conforto do que estamos habituados do que aventurarmo-nos em coisas que nos são novas. Bem, e porque mudar de hábitos exige um período de persistência e… vá… a persistência é chata!”

“Está bem, estou disposta a tentar alterar algumas coisas em mim, mas pequeninas, sim? Já tenho dose que me chegue de trabalho :)”

“Cá para mim, a escolha de mudar muito ou pouco é simples: depende do nível de mal-estar! Se estiveres muito insatisfeita, prepara-te para mudar muita coisa na forma como abordas a vida, te geres a ti própria e lidas com os outros. Se for só uma formiguinha de insatisfação, bastam umas pequenas alterações, enquanto te vais mantendo atenta ao que interfere com o teu bem-estar. Agora… há uma coisa que é certa – se investires a tua energia a querer que o mundo à volta mude, em vez de mudares tu a tua forma de te relacionar com ele, , prepara-te para uma boa dose de frustração”

“Pronto, pronto! Vamos lá! Esta semana estive atenta aos meus diálogos interiores e àquilo em que focava a atenção e, de cada vez que via que havia uma tendência negativista do meu cérebro, tentei compensar com perspectivas mais realistas e mais úteis. Vês? Boa aluna, não?”

“Óptimo! Então, já que estás a treinar a atenção a olhar para dentro, que tal começares a treinar a atenção àquilo que “pões aí dentro”?”

“Como assim? ”

“Bom senso: um alimento qualquer não te faz bem nem mal enquanto não o ingerires, certo? É o mesmo com o mundo que nos rodeia: a forma como nos afecta depende do que “ingerimos” dele. E isso é feito, por um lado, com escolhas conscientes em relação a expormo-nos às situações e, por outro, controlando a atenção que dedicamos aos estímulos”

“O tema das escolhas não é assim tão fácil! Não escolho a família, nem os vizinhos, nem o tempo que faz, nem os colegas de trabalho, nem…”

“E lá estás tu muito lançada a pensar em tudo o que não consegues 🙂 Reparaste? Nessas escolhas, temos um bocadinho mais de liberdade do que aquilo que julgamos – por exemplo, podemos limitar o tempo de cada interacção ao mínimo que nos é confortável – aquele teu colega que tu não suportas, por exemplo. Não tens de conversar com ele durante 15 minutos só porque ele se sentou à tua frente; podes, muito afirmativamente, dizer-lhe que tens coisas para fazer e limitar-te a uma ou duas frases bem-educadas. E podes fazer opções sistemáticas para te aproximares de pessoas que são construtivas e “boa onda” em vez de passares tanto tempo com gente tóxica, que está de mal com a vida e te deita abaixo. E podes optar por não jantar a ouvir o telejornal e apostares numa conversa tranquila em família, ou com uma boa música. E podes… Olha, tenta praticar frases começadas por “Eu posso escolher…”!”

“Ui! Pode ser perigoso… Há tanta coisa que eu escolhia diferente”

“Então começa devagarinho, com gentileza, mas com firmeza. E vai reparando nas conquistas, por pequenas que sejam, em vez de ficares a ruminar no que não conseguiste alterar”

“Então ajuda-me a praticar. Fazemos um jogo – eu digo-te o que me anda a incomodar e tu dizes-me que escolhas é que eu tenho, vale? E começamos assim: não posso mudar de emprego com a economia que temos”

“Podes escolher ir criando nem que sejam micro-condições no teu dia-a-dia, para que as tuas funções estejam mais adaptadas aos teus interesses e à tua personalidade. Podes escolher ser pro-activa e ires descobrindo novas coisas e novas formas de te sentires mais satisfeita no teu ambiente de trabalho. Podes ir educando – sim, nós educamos quem nos rodeia! – as pessoas com quem trabalhas para que progressivamente vão tendo interacções contigo que estejam mais de acordo com os teus níveis de conforto. Podes ir descobrindo formas mais eficientes de gerir o teu tempo, para que consigas sair mais cedo e investires energias em coisas que te compensem e satisfaçam. Podes não pousar as armas e ir à luta da procura de emprego, mesmo sabendo que pode ser difícil e levar tempo…. E podes não me dar corda, senão o sol põe-se e eu ainda estou aqui a falar-te de escolhas que tu controlas :)”

“Hum… Então que escolhas é que eu tenho com estas enxaquecas que me dão cabo da vida?”

“Podes ir procurando soluções que melhoram as crises e a sua frequência, investigando, falando com pessoas que passam ou passaram pelo mesmo, consultando especialistas. Podes ir fazendo alterações no teu estilo de vida e vendo aquilo que ajuda a melhorar – padrões de sono, de alimentação, emoções que fazem disparar uma crise, medicamentos que possam estar a contribuir para as piorar… Podes aceitar que fazem parte da tua vida e encontrares um lugar para elas, sabendo que, quando surgem, tens de te retirar e esperar que passem. Podes recusar-te a definires-te como “uma pessoa com um problema” e assumir que é algo que surge sem que queiras e com o qual te tens de habituar a lidar, com paciência e respeito pelas tuas limitações.”

“Se bem percebo, no fundo, estás a dizer que posso optar por desesperar, frustrar-me com o que não controlo, olhar só para a grande questão abstracta, ou respirar fundo, e encontrar as diversas partes concretas que compõem uma situação e começar metodicamente a modificar aquelas em que posso mexer”

“Isso. E com uma boa dose de paciência e sempre partindo do princípio que, em qualquer situação, há sempre qualquer bocadinho dela que conseguimos alterar a nosso favor. Pode não ser muito e não nos por a vida a fazer o pino, mas pode ser o suficiente para passarmos do menos ao mais :)”

“OK. Vou tomando atenção ao que me desagrada e interfere com o meu bem-estar e vou vendo o que poderia fazer de diferente para mudar a situação a que estou exposta. Mas tu falaste também em controlar a atenção aos estímulos e àquilo a que nos expomos; estavas a falar do quê?”

“Estou a falar dos 5 sentidos. O mundo só nos invade pelos 5 sentidos e se nós formos mexendo com eles, conseguimos afectar uma grande fatia daquilo que é o nosso conforto interno. Mas isso, se calhar, fica para uma próxima conversa, não?”

Escolhas

 

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Comments

  1. Catarina  August 19, 2014

    Fui paciente do prof Eduardo Sá e sou licenciada em Psicologia no ISPA embora não exerça há muitos anos. A vida deu voltas que me levaram para outros interesses e caminhos mas o bichinho da Psicologia nunca despareceu por completo.
    Tal como a todos nós, a vida presenteou-me com algumas surpresas e são as menos simpáticas que nos deixam em choque e nos obrigam a olhar para dentro para mudar a nossa forma de olhar para fora. Tive uma grande ajuda, mas esse é um trabalho que continuo a tentar fazer mantendo em mente muitas das conversas que tive com o prof Eduardo Sá.
    As vossas conversas na praia têm sido um interessante complemento e sempre muito pertinentes curiosamente.
    Obrigada e por favor continuem.

    reply
    • admin  August 19, 2014

      Obrigada nós, pelo incentivo e amabilidade!
      Abraço

      reply
  2. Ana Isabel Ferreira  August 19, 2014

    Quero agradecer-vos pelos textos “conversas na praia” pela forma com teem abordado os varios temas. Ao ler-vos tudo parece realmente mais facil.
    Obrigada!!!!

    reply
    • admin  August 19, 2014

      Ficamos tão, tão felizes!!!! Obrigada pelo incentivo!
      Abraço

      reply
  3. Pedro  August 19, 2014

    Muitos bons textos 🙂 Estou a gostar bastante. Continuem com o bom trabalho.

    reply
    • admin  August 19, 2014

      Muito obrigada! Vamos continuar com as conversas na praia até Setembro 🙂
      Abraço

      reply
  4. Sandra Martins  August 19, 2014

    Muito obrigada pelas vossas palavras.

    reply
  5. Fernanda Mesquita  August 20, 2014

    Obrigada, Adoro os vossos textos.

    reply
    • admin  August 20, 2014

      Muito obrigada! Nós adoramos que os adore 🙂
      Abraço

      reply
  6. Filipe franco  August 23, 2014

    Continuem a publicar estes textos, que de uma forma simples nos ajudam no dia-a-dia. Bem haja.

    reply
    • admin  August 23, 2014

      Obrigada! Estava agora mesmo a escrever o último da sequência de Verão, e já foi um bom incentivo para o continuar.
      Bem haja também!

      reply
  7. Ana Cristina  August 25, 2014

    Obrigada pelos excelentes textos e, principalmente, por divulgarem assim tão gratuitamente. Não desistam, pois, além de toda a vossa divulgação on line que, acreditem, já dá um grande alento a quem vos segue, a vossa oficina da psicologia tem excelentes profissionais. Ja tive a oportunidade de estar com um de vós e foi muito enriquecedor e muito positivo. Procuro “seguir-vos” on line e é muito gratificante sentir que são um grupo de profissionais que, acima de tudo, procura fazer chegar a quem mais deles precisa, instrumentos e ferramentas para se lidar com as contrariedades desta vida e assim alcançar algum equilíbrio e bem estar interior. Um bem aja!

    reply
    • admin  August 25, 2014

      Muito, muito obrigada! Continuamos a fazer tudo para continuar a apoiar quem precisa!
      Abraço

      reply

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