Eu nasci assim, eu cresci assim…

Eu cresci assim

“Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim…”

Pela voz de Gal Costa, assim abria a música de Gabriela, Cravo e Canela, a telenovela brasileira que fazia parar este Portugal meio pasmado de finais dos anos 70.

 

E estas palavras, tão simples, traduzem bem o que, lá no fundo, cada um de nós acha sobre quem é – sobre a sua personalidade e o seu carácter imutável. Depois, claro, a um nível consciente e racionalizador, batemo-nos pelo livre arbítrio, defendemos a capacidade de mudança do ser humano e o papel central da vontade em fazê-lo. Mas lá no fundo, continuamos a identificarmo-nos como seres imutáveis, e a pensar nos outros como igualmente imutáveis. “Eu sou”. “Ele é”. Quantas vezes disse ou pensou frases que começavam assim, ou de forma semelhante, só no dia de hoje?

 

E, por isso, quando falamos em personalidade, entramos em terreno escorregadio. Porque seria loucura não admitir que há um carácter impermanente qualquer que nos permite reconhecermo-nos a nós próprios como uma entidade única, ao longo do tempo e através das várias situações com que lidamos. “Eu”. “Eu sou”. E reconhecermos os outros, definindo as nossas preferências e rejeições por aquilo que são. “Ele é”.

 

Mas também porque, parando um pouco para reflectir sobre essa constância, somos obrigados a subtrair o verbo “ser” à maioria dos adjectivos que semeamos tão à-vontade. Pense sobre si. Se calhar é impaciente com umas coisas ou pessoas e paciente noutras; ou impulsivo nas relações pessoais e ponderado nas profissionais; ou simpático para um conjunto de pessoas e antipático para outro. Ou ainda, se já somar uns anos, consegue reconhecer em si aspectos que o definiam há uns anos e que agora foram substituídos por outros.

 

Onde fica, então, uma definição de personalidade? E a melhor resposta é: em terreno escorregadio. Por isso vamos por uns atalhos. Vamos saltar definições e uns quantos milhares de títulos e estudos publicados sobre o assunto, cada qual acrescentando, complicando ou contradizendo outros, e vamos pensar nalguns temas relativos à noção de personalidade e que têm uma aplicação prática à forma como gerimos a nossa vida.

 

Agarrei-me a quem sou

Escute atentamente as pessoas que o rodeiam Escute-se a si também.

Se reparar com atenção, vai aperceber-se que algumas pessoas se agarram mais do que outras a quem supostamente são. É claro no seu discurso que colocam à cabeça de tudo – decisões, justificações,, explicações sobre o que aconteceu – um elemento de auto-definição. “É que eu sou assim, por isso…”. Já outras pessoas raramente se auto-definem nas suas conversas, deixando a cargo dos outros a forma como querem interpretar o que ouvem à luz daquilo que poderão ser.

 

E porque é que isso é importante? Porque uma ideia muito repetida, rapidamente se torna verdade. E então? Se eu sou uma pessoa corajosa, por exemplo, porque não repeti-lo? “Já sabes: eu sou corajoso. Por isso, disse-lhe, que…”. Porque ao tanto afirmar, vai retirar graus de liberdade a si próprio.

Se se definir como corajoso, neste nosso exemplo, e o repetir incansavelmente, a regra de decisão deixa de ser baseada naquilo que cada situação requer de si e é estritamente orientada por um conjunto limitado de acções possíveis ao seu dispor e que o caracterizam como uma pessoa corajosa. E assim perde a liberdade para considerar cursos de acção que pudessem não ser considerados como corajosos mas que, talvez, pudessem ser os mais adequados aos objectivos pretendidos e até ao maior bem num dado contexto.

 

Por isso, escute o seu discurso habitual. Aquele a que a sua voz dá corpo, o que se passa no seu teatro privado interno. Se aquilo que escuta é uma defesa frequente de traços da sua personalidade, subordinando tudo a esses traços (“fiz isto porque sou assim”), talvez queira recordar a si próprio que ninguém é genuinamente tão estável e há muito lugar para as aparentes inconsistências a que a vida nos obriga.

 

E atenção porque a flexibilidade e capacidade de adaptação é, talvez, aquilo que melhor caracteriza a boa saúde psicológica e bem-estar humano.

 

Fluir como a água

O que nos leva à fluidez. O ser humano é tudo menos um bloco de cimento, monolítico e imperturbável ao longo do tempo e através das circunstâncias.

Comece por considerar 2 décadas diferentes da sua vida. Visite uma e visite outra, vendo-se no centro de ambas, a viver a vida de cada uma. Em que aspectos é que difere nesses dois pontos do tempo? E, se reparar com atenção, não chega até a sentir que que a pessoa que foi lá mais atrás no tempo é quase como que uma personagem diferente de si, a viver um capítulo de um livro que também já deixou para trás, com um certo desligamento?

 

A cada minuto que passa, há aprendizagens que fazemos, sendo que a maioria se processam a um nível automático, de tal forma que não nos damos conta da evolução gradual que vamos fazendo, de que vamos acrescentando à nossa bagagem interna, matizando as cores com que olhamos o mundo, ou acrescentando-lhe profundidade, perspectiva ou abrangência.

 

Cada célula do nosso corpo, das 50 a 75 triliões que o compõem, têm um ciclo de vida finito e vão sendo substituídas por novas, renovando-nos biologicamente, numa mudança progressiva e microscópica, de célula a célula a ser substituída por uma nova. De uma década para a outra, poder-se-ia dizer que somos quase um novo ser, biologicamente falando. E consideramo-nos inviolavelmente iguais? Entre a aprendizagem contínua que nos modifica irreversivelmente e a renovação biológica – software e hardware – a expectativa de continuarmos iguais é, no mínimo, irrealista.

 

E sabermos isso é útil porquê? Porque nos ajuda a defender a adaptação, a maleabilidade, a necessidade nos revigorarmos em novas formas de ser, por oposto a insistirmos que se “nascemos assim, crescemos assim”, e, portanto, iremos ser sempre assim.

 

Os hábitos que nos mantêm

Então seremos vítimas de uma ilusão colectiva ao assumirmos uma identidade estável? Andamos ao engano ao assumirmos uma personalidade, algo que nos define a cada um de nós de uma forma clara e constante?

Também isto seria um extremo, claro. Olhamo-nos ao espelho e reconhecemo-nos a cada manhã – estamos lá; somos nós, unidos ao dia de ontem por traços que nos mantêm reconhecíveis.

 

A investigação identifica algumas características de base como genericamente imutáveis – de traços de personalidade, como a extroversão ou introversão, a temas centrai,s não tanto de personalidade, mas que acabam por a definir, como valores pessoais. Tudo aquilo que nos permite dizer que “Já em pequenino, eu era assim”. E isso estabiliza quem somos ao longo do tempo. Mas os aspectos verdadeiramente estáveis que confluem para um sentido de personalidade não são assim tantos quanto isso, pelo menos, não tantos que permitam conter a enorme complexidade do ser humano.

 

Então como se explica esta noção global de “sei muito bem quem sou e quem tu és”?

 

Um dos aspectos fundamentais baseia-se no facto de sermos máquinas de eficiência. A natureza foi apurando, em milhares e milhares de anos, os processos mais eficientes de garantir sobrevivência, continuidade e estabilidade, numa equação que tem como variáveis o maior ganho ao menor custo energético. E, no que diz respeito à noção da identidade pessoal, essa eficiência foi assegurada pela rápida construção de hábitos. Nós, máquinas de eficiência, somo máquinas de hábitos.

 

E os hábitos mantêm a coesão, porque não se resumem aos hábitos de acordar-tomar-café-a-seguir-duche-a-seguir-arrumar-a-cozinha-a-seguir-levar-os-miúdos. Os hábitos também se estendem às nossas reacções mais complexas – à impaciência perante os atrasos, à resmunguice perante a adversidade, à passividade perante a agressão, à coragem perante o ataque, à ponderação perante a carga emocional,…

 

O que temos de manter bem presente é que, sendo os hábitos um tema de eficiência, não têm qualquer sentido moral, de certo ou errado, bom ou mau. Uma acção, pensamento, esquema emocional que se repete, rapidamente se torna um hábito. Passa do plano em que a pensamos, decidimos, agimos com consciência, e mergulha nas águas profundas do automatismo sub-consciente. Acontece A e reagimos com B, sem sequer nos apercebermos. E isto constrói padrões que se repetem ao longo do tempo. Consolam-nos pela constância, por nos reconhecermos iguais a ontem, mas, em muitos casos, metem-nos em trabalhos. Por dois motivos: porque estando ao nível do automatismo já se tornaram invisíveis para nós roubando-nos a decisão de os manter ou mudar. E, em segundo lugar, porque aquilo que poderia ter sido muito adequado num dado momento ou circunstâncias da nossa vida, pode ser contraproducente aqui e agora e estar a criar-nos dificuldades.

 

E podemos acrescentar mais uma camada de dificuldade: a adesão que temos aos hábitos. Uma forma de estar que assente e dependa dos hábitos – comportamentais, cognitivos, emocionais, relacionais – torna-se rigidificada. Como se a água insistisse em correr subindo uma montanha, em vez de fluir ao longo dos vales que lhe permitem continuar a correr. Muito esforço e poucos resultados. Ou água estagnada, que não é coisa que cheire bem 🙂

 

Quanto daquilo que é se refere a um conjunto de hábitos e não algo de fundamental que misteriosamente é mesmo a sua assinatura pessoal? E quantos desses hábitos não estarão já desactualizados e o estarão a prejudicar? É difícil saber as respostas a estas perguntas sozinho, porque o ponto de vista possível sobre nós próprios está mergulhado naquilo que somos e tolda-nos a visibilidade.

 

Deixo-lhe a sugestão: obtenha uma opinião externa sobre a sua personalidade – traços de assinatura pessoal imutáveis ou rigidificações de hábitos porque convém conhecer ambos para se ajustar e fluir sem esforço ou modificar o curso para percorrer a vida livremente.

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde
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2017-05-05T12:58:47+00:00 Abril 30th, 2017|Desenvolvimento Pessoal, Madalena Lobo, Personalidade|