Fantasia ou realidade? (Re)Pensar a adoção

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Natália Antunes

Natália Antunes

As famílias adotivas são novas formas de família que se constituem quando recebem no seu seio, com responsabilidades parentais, um novo elemento sem laços de parentesco biológico. É consensual que a sua formação coincide com a chegada do adotado a casa.

Trata-se de um período constituído por duas fases distintas: a primeira, que se prolonga desde a descoberta da infertilidade do casal até à tomada de decisão da adoção – período de sofrimento físico e psicológico; a segunda, que decorre desde a decisão da adoção até à entrega da criança, e na qual as famílias de origem, os amigos e a comunidade surgem como novos atores, desempenhando importantes papéis na constituição da história familiar.

Neste tipo de famílias impõem-se duas exigências para que o bem-estar prevaleça: aceitação das diferenças por parte de todos os elementos e das particularidades do evoluir do seu ciclo de vida.

A adoção significa uma grande complexidade de emoções, necessidades e interações. É uma decisão que afeta todos os intervenientes e que, muitas vezes, deixa as famílias sob grande stress.

Torna-se fundamental que a criança seja integrada o mais cedo possível na família que a vai adotar para que se desenvolva, de forma positiva, o equilíbrio afetivo e a parentalidade. Deverá estabelecer-se rapidamente uma forte ligação aos novos pais, a fim de minimizar os sentimentos de insegurança desenvolvidos até ao momento da adoção e que assumirão uma importância vital no seu desenvolvimento.

Outro aspeto muito importante é a revelação à criança que é adotada. Não existe consenso relativamente à melhor idade, embora todos os autores concordem que deve ser feita o mais cedo possível e pelos pais adotivos. De um modo geral, os pais adotivos devem fazê-lo quando considerarem que a criança é suficientemente madura, sendo que esta deverá sentir-se sempre segura e apoiada emocionalmente.

Em crianças mais velhas (10 a 12 anos), todo este processo terá de ser alterado. As famílias têm de ajudar a criança adotada a desenvolver um sentimento de pertença e vínculos afetivos, contribuindo para que a família adquira um maior sentido de equilíbrio e estabilidade.

A adoção implica uma perda para todos os membros da família: os pais e a criança adotada experienciam sempre um conjunto de perdas que implicam um luto; ambos lidam com a questão da vinculação, da separação e da descontinuidade genealógica e todos se confrontam com um processo singular de formação da identidade individual e/ou familiar. A perda sentida pela criança adotada centra-se na sua identidade, na relação perdida com os pais biológicos e na ausência de um vínculo genético com a família adotiva. Muitas vezes, apenas com três ou quatro anos de idade, a criança percebe que a sua história familiar é diferente da história das outras crianças. É nesta altura que ela começa a interiorizar que o processo que envolveu a sua vinda para aquela família não foi “normal”, através do nascimento. Esta racionalização é feita várias vezes ao longo do seu crescimento, sempre que atinge um nível diferente do desenvolvimento cognitivo.

Tanto os pais adotivos como a criança adotada desenvolvem expectativas sobre as suas respetivas situações. No que diz respeito à criança, na maior parte das vezes, os pais biológicos ainda estão vivos, pelo que é frequente ela fantasiar sobre a possibilidade de eles voltarem, fazendo-os permanecer durante muito tempo na sua vida mental. Contudo, este regresso significaria a perda dos pais adotivos, os únicos que conhece e ama, colocando-a num grande dilema.

Desta forma, os dois tipos de famílias, natural e adotiva, e cada um dos seus protagonistas, continuam, apesar de tudo, a estar presentes na vida uns dos outros. Esta presença, como já vimos, envolve tanto a realidade como a fantasia. No plano da realidade, pais e crianças adotivas estão diariamente em contacto uns com os outros. Na fantasia, as crianças adotadas idealizam sobre quem são e como são os seus pais biológicos; os pais adotivos fantasiam sobre como seria o filho biológico que nunca tiveram.

Independentemente de todos os fatores referidos, nunca é tarde para se demonstrar a uma criança, adotada ou não, que é amada, e que os pais são as pessoas mais felizes por a terem!

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