Teremos ficado fóbicos a emoções?

Prefere ouvir?

Ou prefere ler?

Teremos ficado fóbicos a emoções?De acordo com a OCDE, no final de 2015, Portugal era o 3º país do mundo que mais consumia antidepressivos. Ora, comecemos por não ser induzidos em erro pelo nome destes medicamentos aparentemente tão populares. Sim, são receitados em caso de depressão mas a maioria tem um efeito significativo ao nível ansioso, por isso são receitados também em quadros clínicos de ansiedade e stress. Em conjunto, isto significa que os antidepressivos são consumidos como resposta à larga maioria do mal-estar psicológico.

Bem, agora temos de somar a esta informação o facto de a  prevalência mundial das perturbações depressivas e ansiosas ser maioritariamente uniforme em geografias distintas. Claro que podemos sempre pensar que um determinado país tem condições socio-económicas de tal forma agravantes da saúde mental que propicia um desvio da média normal, o que será provavelmente verdade em situações extremas. Mas, com um bocadinho de bom senso, e despindo estas grandes camadas de auto-crítica lusitana, vá… Portugal vem atrás da Austrália e da Islândia. Nos 28 países analisados, em menores consumos estão países como a Grécia, a Eslovénia e a República Checa. Assim, à primeira vista, não parece que o consumo de antidepressivos esteja dependente de qualidade de vida de um país, pois não? Mesmo para si e para mim, que não somos economistas ou sociólogos…

Então, logo a seguir, a tentação poderá ser de culpar a rapidez excessiva da caneta prescritora – pensar que é a classe médica que diagnostica mal ou favorece a via farmacológica. Mas será? Porque não vemos grandes notícias sobre Portugal ser quem mais prescreve outras categorias de medicamentos. Hummmm…

Então, que tal usarmos os suspeitos do costume? A comunicação social, cheia de sua publicidade que nos mostra que o mundo é feliz e que qualquer desvio dessa felicidade é, no mínimo estranho; os gurus populares que anunciam caminhos fáceis para sorrisos permanentes; e até a cosmética que cada um faz à sua vida nas redes sociais e nos deixam a pensar que devemos ser os únicos a ter problemas. Mas isso não é igual em todo o mundo?  Porque será que os portugueses, em particular, são tão rápidos a engolir as pílulas da calma e suposta felicidade?

Acredito que os factores sejam vários e diversificados, criando um caminho complexo e talvez não muito fácil de ser alterado. Mas há um aspecto em que reparo, como psicóloga clínica e, naturalmente, como portuguesa que trabalha em Portugal: a generalidade das pessoas, ultimamente, reage com alguma desconfiança ao seu próprio universo emocional. Dizem-me que choraram na véspera, com um ar de preocupação de quem se acha afectado por alguma doença grave. Dizem-me que marcaram logo consulta depois de uma noite em que sentiram o coração a bater com força e tiveram dificuldade em adormecer. Dizem-me que passaram a semana nervosos e, ainda que o nervosismo esteja justificado, sentem-se em risco de saúde mental. Dizem-me que estão tristes após uma perda significativa e aparecem-me medicados como se de grande patologia se tratasse…

Imagino que digam as mesmas coisas aos médicos. E nenhum profissional de saúde gosta de ver os outros em sofrimento, por isso, cada qual entra logo com as ferramentas ao seu dispor: os médicos com medicação e os psicólogos com análise a causas possíveis e propostas interventivas para corrigir o “problema”. E isto, naturalmente, e apesar da boa intenção que lhe está subjacente, acaba por legitimar a ideia de que as emoções têm de ser corrigidas, analisadas, “tratadas”, eliminadas, reduzidas. Junta-se a isto a tendência do povo português em manter alguma submissão à “bata branca” – de uma forma geral somos todos muito pouco dados a discutir pareceres e indicações terapêuticas com médicos É mesmo coisa que nem passa pela cabeça da maioria: se o senhor doutor mandou, é assim, e está escrito na pedra.

E, claro que um profissional de saúde saberá o que está em causa, e a sua opinião e conhecimento merecem todo o respeito de uma consideração cuidada, mas isso não significa que cada um de nós não se responsabilize pela sua própria saúde, quer reflectindo previamente e informando-se, quer questionando sobre o o diagnóstico, a terapêutica e os factos científicos que se encontram por detrás de ambos.

Quando as emoções são sinal de dificuldade

E assim voltamos às emoções. Fazem parte do nosso equipamento de base, aquele com que vimos ao mundo e que partilhamos de uma forma universal. Umas são-nos agradáveis, como a alegria ou o amor; outras são-nos desagradáveis, como a tristeza ou a ansiedade. Mas todas são parte de um ciclo de saúde, permitem-nos reagir e alinhar adaptações às circunstâncias, e acabam por ser grandes semáforos nas estradas de vida que percorremos.

Não estou aqui a falar das vezes em que este sistema de sinalização se baralha.. Por vezes, as emoções são um indicador de algo que tem de ser visto com atenção. De uma forma geral, em que situações é que devem ser objecto de análise por parte de um profissional de saúde?

Quando são excessivas. Por exemplo, é uma reacção natural ficar impaciente e mesmo um pouco enervado numa fila grande e lenta num supermercado – já todos passámos por isso. Mas ter um ataque de pânico porque está numa fila pode fazer parte de um processo de agorafobia. Ficar irritado com o caos do trânsito de hora de ponta é uma reacção que não gera cuidados; mas se entrar em fúria, já requer alguma atenção.

Quando são ausentes ou muito diminuídas, em situações em que a sua presença com alguma amplitude seria de esperar. Imagine que foi despedido do seu emprego na semana passada – é de esperar alteração emocional: tristeza, angústia ou mesmo alguma ansiedade. A ausência emocional (a não ser que seja rico e tanto se lhe dê ter emprego como não) indicia que algo que deveria estar a trabalhar dentro de si para processar a situação de uma forma saudável, não está a acontecer, e pode vir a criar-lhe dificuldades posteriores.

Quando são deslocadas. A alegria como reacção a uma situação triste e de perda é claramente deslocada. Ou a ansiedade perante uma situação que não representa qualquer ameaça, como, por exemplo, ficar ansioso em situações sociais, também requer intervenção.

Quando são de duração excessiva. Um exemplo habitual é o do luto patológico ou traumático. Após uma perda de alguém importante no nosso espaço afectivo, há, habitualmente, um conjunto de emoções que, de alguma forma, nos equipam para ir reparando o vazio que ficou, e que podem ser muito variáveis em intensidade e mesmo duração no tempo. No entanto, há um limite natural, uma duração que assinala o fim desse processo interno de luto. Quando a reacção se mantém para lá desse limite e afecta o funcionamento e bem-estar, há que intervir.

Quando as emoções são sinal de vida

Por isso, as emoções que nos perpassam a cada momento dos nossos dias, devem ser entendidas no seu contexto – nos nossos padrões de reacção habituais, na cultura que nos rodeia, na biologia humana (e animal), nas situações que as enquadram e instigam. A excepção não é a disfuncionalidade, mas sim a saúde. E é aqui que chegamos ao tópico que me levou a escrever-lhe. Parece que, nos últimos anos, pelo menos em Portugal, ficámos todos um bocadinho fóbicos a emoções. Qualquer bocadinho de tristeza, de angústia, ansiedade, irritação ou stress e afligimo-nos, corremos em busca do seu silêncio, rápido, quase imediato, total. Queremos emudecer aquilo que em nós nos parece desagradável, preferindo não sentir.

E, sim, isso é problemático. É-o só por si, porque emudecer emoções é emudecer a própria vida, tirar-lhe o brilho e tirar-lhe uma componente fundamental de informação, aprendizagem e crescimento pessoal. E é problemático quando o fazemos pela via química, acrescentando poluição interna a um processo já de si pouco natural.

Todos os dias, vejo pessoas medicadas. Umas, justamente medicadas. Mas muitas sem grande justificação para estarem a pagar a factura dos efeitos secundários e da censura emocional a que voluntariamente se estão a expor.

É o seu corpo, a sua saúde, a sua vida. Informe-se e aconselhe-se sempre sobre tudo aquilo que o preocupar ou lhe suscitar dúvidas. E lembre-se que é o responsável último pelos seus actos e que a decisão sobre como quer lidar com a sua vida lhe cabe exclusivamente a si.

Fique bem! Mesmo quando está justificadamente triste ou agitado….

Ah! Claro – se tiver dúvidas, marque consulta com um dos nossos especialistas.

Autoria

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde
Mostrar mais Artigos
2017-04-01T06:53:01+00:00 Novembro 19th, 2016|Desenvolvimento Pessoal, Emoções, Madalena Lobo, Reflexões|