Conflitos e o porquê de ser tão importante saber geri-los


De acordo com o dicionário on-line Infopedia, da Porto Editora, Conflito é: choque de elementos contrários; discórdia; antagonismo; oposição; luta entre dois poderes com interesses antagónicos; guerra; altercação; desordem; disputa; momento crítico; estado de hesitação entre tendências ou impulsos antagónicos; confronto de princípios ou leis que se contradizem mutuamente e impossibilitam a sua aplicação.

 

O conflito constitui, assim, um ingrediente normal de qualquer relação saudável, seja ela de cariz pessoal ou profissional. Afinal de contas, não é expectável nem saudável que duas pessoas estejam de acordo relativamente a todas as questões, nem durante todo o tempo. As pessoas são todas diferentes. Assim sendo, tal como na definição anteriormente apresentada, o conflito resulta de um confronto de valores, motivações, necessidades, opiniões ou ideias, diferentes ou antagónicos. Não obstante, o conflito representa mais do que apenas uma discordância. É uma situação em que uma ou ambas as partes se sentem ameaçadas, independentemente dessa ameaça ser real ou não. Por norma, tendemos a reagir ao conflito com base na nossa perceção acerca das situações, a qual é influenciada pelas experiências de vida, cultura, valores e crenças, e não necessariamente em resposta a factos objetivamente avaliados.

 

A forma como encaramos e gerimos o conflito determina o seu carácter mais ou menos positivo e adaptativo. Habitualmente, quando ignoramos um conflito que tem origem numa perceção de ameaça à nossa sobrevivência ou bem-estar, o mesmo tenderá a permanecer ativo e sem resolução, provocando tensão, desgaste e/ou sofrimento. Por outro lado, caso não nos sintamos confortáveis com as nossas emoções ou tenhamos dificuldade em geri-las, em situações de stress, poderá tornar-se difícil resolver um conflito com sucesso. Em todo o caso, importa manter presente que o conflito representa, muitas vezes, uma oportunidade única para que duas ou mais pessoas se conheçam melhor. Desse modo, a resolução de um conflito, se assente no reconhecimento da legitimidade dos argumentos apresentados, bem como, na vontade genuína de ambas as partes para chegarem a um entendimento favorável a todos os envolvidos, aumenta a confiança e a segurança de uma relação, tornando-a mais resiliente e mais resistente aos desafios e às discordâncias. De resto, não será por acaso que, quando escrita em chinês, a palavra crise se compõe de dois caracteres: um representa perigo, o outro oportunidade.

 

Sendo o conflito inevitável (pelo menos em alguns momentos da nossa vida), o presente e o futuro de uma relação, assim como, a felicidade e o bem-estar de uma ou mais pessoas dependem, em larga medida, da capacidade que as mesmas manifestam para lidar/gerir o conflito.

 

Um conflito pode despoletar emoções fortes e intensas, conduzindo a possíveis sentimentos de mágoa, desilusão e mal-estar. Se uma pessoa se encontra demasiado absorvida pelo conflito, sentindo-se descontroladamente stressada, e não possuindo a capacidade para ganhar consciência de todas as suas emoções, será difícil ter o discernimento necessário para manter presentes as suas reais necessidades e as necessidades do outro. Nesse contexto, se gerido de forma negativa ou destrutiva, o conflito pode conduzir a ruturas irreparáveis, a ressentimentos e à dissolução de relações. Quando, por outro lado, a sua gestão/ resolução se apresentam como saudáveis e construtivas, assentes em soluções de natureza win-win (ambas as partes obtêm ganhos decorrentes da resolução do processo de conflito), aumenta a compreensão e a empatia pelo outro, cimentando a confiança mútua e fortalecendo os laços relacionais.

 

Por norma, existem respostas que tendem a ser mais construtivas e saudáveis com vista à resolução favorável de um conflito: a capacidade para reconhecer e responder às questões que importam para o outro; reações calmas, não-defensivas e respeitadoras; disponibilidade para perdoar e esquecer, assim, como para ultrapassar o conflito sem guardar ressentimentos ou raiva; a capacidade para procurar compromissos partilhados e evitar a punição; a convicção de que encarar, enfrentar e resolver o conflito é a melhor solução para ambas as partes.

 

Em certas circunstâncias, dependendo do tipo de conflito e do perfil dos envolvidos, o humor pode representar um papel importante, possibilitando reduzir a tensão e a zanga, reenquadrar problemas e, até mesmo, contribuir para uma maior ligação e intimidade.

 

Por outro lado, existem respostas ao conflito tipicamente menos saudáveis e adaptativas. Por exemplo: a incapacidade para reconhecer e responder às questões que importam para o outro; reações explosivas, irritadas, dolorosas e ressentidas; a retirada do amor/carinho/consideração, resultando em sentimentos de rejeição, isolamento, vergonha e medo do abandono; a incapacidade para se colocar no papel do outro; o medo ou evitamento do conflito e a expectativa constante de consequências negativas.

 

O recurso a este tipo de respostas, perante o conflito, tende a extremar posições, conduzindo a reações defensivas e altamente emocionais, tendentes a promover uma redução do discernimento necessário para uma avaliação lógica e objetiva das situações e para a tomada de consciência das emoções, pensamentos, comportamentos e necessidades do próprio e dos outros. Quando tal acontece, é frequente assistir-se a uma divergência do foco no problema original para as disputas/ataques pessoais, os quais poderão contribuir para a cristalização do problema original, bem como, para o desenvolvimento de estados emocionais e sinais/sintomas negativos e pouco saudáveis, associados a níveis mais elevados de stress, doença e mal-estar, assim como, a níveis mais reduzidos de satisfação, bem-estar, qualidade de vida e realização, pessoal e profissional.

 

[h2]5 dicas para gerir conflitos, de forma eficaz:[/h2]

 

  1. gerir o stress de forma rápida e eficaz, permanecendo atento e calmo (permanecendo calmo, torna-se mais fácil desenvolver a atenção necessária para uma correta leitura da comunicação verbal e não verbal  do próprio e do outro e, dessa forma, se manter em controlo da situação; por norma, em estado de tensão/zanga, a linguagem não verbal diz muito mais sobre nós e sobre as nossas necessidades e intenções do que as nossas palavras);
  2. muitas vezes o recurso à reflexão sobre o problema, com outra pessoa da nossa confiança, pode servir para nos confrontarmos com o carácter mais ou menos racional e lógico do nosso pensamento e do nosso comportamento. Quando tal não é possível, o recurso a estratégias de relaxamento e de mindfulness (exercícios com raízes profundas na prática budista que promovem a atenção plena de uma pessoa a si própria e aos seus sentidos, aos outros e ao meio, possibilitando manter o discernimento quanto aos pensamento e emoções vivenciados, bem como, ao papel dos mesmos no sucesso ou insucesso face à resolução do conflito) pode constituir um importante aliado no processo de gestão do stress;
  3. controlar as emoções e o comportamento (quando em controlo das emoções torna-se mais fácil exprimir necessidades de forma assertiva, o que poderá conduzir a uma maior compreensão das posições e necessidade de ambas as partes; por oposição à ameaça, terror ou punição que caracterizam a agressividade e que, por norma, levam a um fechamento dos envolvidos sobre as suas próprias necessidades e motivos, dificultando o diálogo, a comunicação e a compreensão);
  4. tomar atenção aos sentimentos e emoções do próprio e do outro, bem como, ao reportório verbal e não verbal dos mesmos (assim, será mais fácil manter o discernimento e a consciência sobre as reais necessidade subjacentes às partes envolvidas no conflito, permitindo desenvolver atitudes estrategicamente dirigidas à resolução do conflito e não ao “ataque” à pessoa);
  5. estar consciente das diferenças entre os envolvidos no conflito e respeitá-las (evitando palavras e comportamentos desrespeitosos, aumentamos a probabilidade do outro nos ouvir e respeitar, e diminuímos a de se fechar e defender, contribuindo igualmente para a resolução de um conflito, de forma rápida e eficaz).

[h2]Sobreviver a conversas difíceis[/h2]

Para ver a nossa apresentação sobre alguns pontos fulcrais na abordagem a conversas difíceis, clique aqui .

Conversas difíceis

2017-03-10T15:44:57+00:00 Agosto 24th, 2015|Autor(a), Casais e Famílias, Pedro Barbosa da Rocha, Relações|