Há mais nas fobias do que o medo que lhes pertence

Ha mais nas fobias do que o medoIsto das fobias costuma ser muito apelativo junto do grande público. Porquê? Porque mais comum do que ter uma fobia é coisa que não existe, pelo menos, no domínio da Psicologia. Infelizmente, também são as situações para as quais as pessoas menos procuram uma solução… Vá-se lá saber porquê, porque também são as situações mais facilmente corrigidas em Psicologia Clínica e da Saúde.

É tudo extremo, quando se fala em fobias, portanto! É extremo o medo que se sente face ao objecto fóbico, é forte o evitamento que se faz desse objecto, é o mais comum, o que menos aparece em consultório, o mais fácil de ser tratado…

E, para um técnico de saúde mental, o menos interessante, precisamente porque a intervenção está tão bem estudada e é tão padronizada que deixa pouca margem para a reflexão individual e para o estímulo do desafio profissional.

Mas será que as fobias são assim tão desprovidas de contornos desafiantes, de um ponto de vista de intervenção?

 

É disso que eu gostaria de lhe falar hoje. Ou, de uma forma mais pessoal, na forma como penso nas várias fobias possíveis, que podem ter variantes infinitas – qualquer coisa à face da terra pode tornar-se um objecto fóbico para alguém – e nos desafios clínicos que tento solucionar.

 

Mas em primeiro lugar vou ter de lhe explicar o que uma fobia não é! E tenho de o fazer, porque os conceitos charmosos da Psicologia inevitavelmente passam para o grande público de uma forma errada, o que leva a interpretações erradas e procura de soluções que, naturalmente, também são erradas.

 

Há quem chame fobia àquilo que, de facto, é uma obsessão – “Ando com a fobia de ver a página dele do Facebook”. Ora isto são verdadeiros opostos! Numa fobia há um medo intenso que gera uma reacção de evitamento – pernas para que te quero! Numa obsessão há algo que nos impele, mesmo contra a voz da razão, a persistir numa acção ou curso de pensamento.

 

Há quem chame fobia a algo que o deixa desconfortável. Eu, por exemplo, poderia bem passar por ter uma fobia a elevadores, tão poucas são as vezes em que decido entrar num, em vez de usar as escadas. Mas basta falarem-me em 15º andar, que entro em qualquer elevador deste mundo J Desconsolada. Sem qualquer conforto pessoal, a detestar cada minuto e a refilar mentalmente com quem resolveu optar por um andar alto. Mas não há medo nem ansiedade. E, não havendo medo ou ansiedade, não há fobia.

 

Mas não basta a presença de medo ou ansiedade; também tem que ser desproporcionado em relação àquilo que o causa. Recordo-me de uma cliente, em plena crise económica, a dizer-me que tinha a fobia de perder o emprego. É, naturalmente, uma força de expressão, mas não é uma fobia, porque a ansiedade que ela sentia perante essa perspectiva não tinha nada de desproporcionada: a possibilidade de desemprego era bem real, no caso dela, e tendo em conta as qualificações académicas e profissionais, a possibilidade de arranjar um novo emprego facilmente não era brilhante, tal como não o era a perspectiva de sobrevivência com subsídio de desemprego.

 

E, para sermos rigorosos, também não é uma fobia (ou fobia específica, que é o nome técnico correcto) as situações de medo intenso e desproporcionado que ocorrem na agorafobia ou na ansiedade social, por exemplo. Nesses casos, são sintomas ou reacções que caracterizam e pertencem a uma outra perturbação ansiosa e a intervenção clínica não os isola da “perturbação-mãe” e fazê-las desaparecer requer um trabalho diferente e/ou mais abrangente.

 

Palavra de ordem: Evitar

Num diagnóstico de fobia específica, tem de estar presente ou o evitamento daquilo que gera o medo ou ansiedade ou suportar a situação com elevada perturbação.

Os animais em geral estão programados para tentarem estar o mais perto possível de fontes de prazer e evitarem as fontes de dor ou sofrimento. Isto é a base absoluta da motivação animal: fujo de onde dói, corro para onde me sabe bem. E, por isso, quando estamos perante a possibilidade de um encontro com algo que nos deixa aterrorizados, naturalmente que fazemos tudo o que está ao nosso alcance para nos pormos a milhas!

 

Mas um dos problemas de algumas fobias é a impossibilidade de fugirmos ao que nos cria o medo. Veja o caso de uma fobia razoavelmente comum: fobia a tempestades/trovoadas/faíscas (estima-se que mais do que 1 pessoa em cada 100 tenha esta fobia). Não há como evitar! Pode refugiar-se, como uma antiga cliente minha fazia, na cave lá de casa e, assim, conseguir reduzir a exposição visual e sonora. Mas a tempestade está lá e é difícil não a ouvir.

 

São estas fobias – aquelas em que nos é difícil evitar a fonte do medo, que mais frequentemente nos aparecem no consultório. Nas restantes fobias, mal ou bem, com maior ou menor custo da sua liberdade pessoal, as pessoas vão encontrando soluções que lhes permitem ir-se mantendo afastadas do que quer que seja que lhes provoca medo ou ansiedade.

 

O que se faz numa fobia comum?

Bem, naturalmente, fazem-se muitas coisas, porque existem diversas abordagens em Psicologia, cada qual com o seu conjunto de ferramentas de intervenção. Mas as directrizes internacionais, baseadas nos métodos que a ciência tem demonstrado serem mais eficazes, apontam sempre para a necessidade de exposição. O que é exposição? É um nome bonito para “não gosta, mas tem de ser”… Ninguém ultrapassa uma fobia se não for confrontado, mais tarde ou mais cedo, com aquilo que lhe provoca o medo ou ansiedade… Coisa mais antipática, verdade?

 

Agora já não tanto, porque felizmente a ciência foi evoluindo, mas, de facto, há umas poucas de décadas atrás havia uma defesa forte de um método de exposição chamado imersão – o equivalente a atirar para a água os miúdos receosos de lá porem o pezinho… Não é que não fosse eficaz; o problema é que só o era para a) quem ia na conversa (quem não abandonava de imediato a terapia), o que era uma percentagem muito baixa de pessoas e b) para quem não ficava pior (o que se chama de retraumatização), o que também era uma percentagem expressiva.

 

Andamos umas décadas para a frente, e hoje existem diversas variantes do que se chama exposição sistemática: um contacto progressivo, em grau de dificuldade individual, que permite manter o conforto de cada um e ir dominando o medo, etapa a etapa, sem que ninguém fique de cabelos em pé, em nenhum momento. E, sobretudo, porque se acrescentam etapas de visualização, antes de um confronto a cores e 3 dimensões. Há, até, várias soluções em realidade virtual e que são uma excelente ajuda nesta progressão de “menos medo para mais medo”.

 

O que a exposição sistemática tem de bom é que cria um efeito de habituação. Imagine que é fóbico a cobras, o que é muito comum. E, continuando mas sem que seja precisa grande imaginação, vamos assumir que o pior que consegue imaginar, em termos de medo, é ter um bichanito destes a fazer de cachecol no seu pescoço. A uma situação destas, sua frio, arregala os olhos, e pensa: mas isso é um 10, numa escala de zero a 10! O medo mais medo, que até tenho medo de imaginar!

 

A partir daqui, iremos construir o que seria uma progressão nesta escala de 0 a 10, mas começando no “1”, claro, porque o zero seria estarmos aqui os dois à conversa, sem nenhum vislumbre ou pensamento sobre bichos cujo nome comece com “c”. Então, chegamos à conclusão que, por exemplo, pensar numa cobra pequenina daquele acastanhado que parece que nem cor é, seria um “1” de medo, para si. E que ver uma fotografia meio desfocada de uma cobra ao longe seria um “2”. E que ver uma fotografia só do corpo de uma cobra, em primeiro plano, seria um “3”. E por aí fora, até ao “10” – aquele que só de imaginar quer já ir-se embora daqui!

 

Então, começávamos o processo de exposição sistemática, com o “1”: a pensar sobre uma cobra pequenina de cor castanha. Como é um processo de visualização e o nosso pensamento é livre como o vento, se fizer isto sozinho, após uns segundos, vai dar por si a devanear sobre tudo menos cobras, por isso, o processo é conduzido pelo psicólogo, que lhe vai dando instruções e perguntando sobre o que está a visualizar, para o manter focado. Quanto tempo? Depende, mas costuma ser rápido – a ansiedade ou medo sobe no início, fica parada ali no seu nível natural (o nosso “1”) e, depois, começa a descer. É a este fenómeno que se chama habituação ansiosa – o organismo junta 2 coisas: o confronto com algo que nos faz medo ou cria ansiedade + o facto de nada ter acontecido (não explodimos, não nos caíu o tecto em cima, não fomos comidos vivos, etc). E faz o quê? Aquilo que é um campeão a fazer: aprende! O medo e a ansiedade servem, genericamente falando, para nos manter protegidos, alertando-nos para um potencial perigo. Quando o nosso organismo verifica, após algumas repetições, que afinal não há perigo (e o corpo é como S. Tomé – ver para crer!) desliga o alarme e deixa-nos sossegados.

 

Depois das situações deste patamar de nível “1” já nos serem absolutamente tranquilas, vamos para as situações de nível 2, seguindo sempre o mesmo processo, e progredindo até ao nível “10”.

 

E este processo tem um bónus muito bom! Porque a aprendizagem assenta em processos de generalização (não teve de aprender que todas as cadeiras do mundo se chamavam cadeira, certo? Rapidamente abstraíu e generalizou que um sítio onde colocar o fim das costas e apoiar o resto delas, se chamava cadeira, por mais formas – até bizarras – que pudessem assumir). Por isso, vai generalizando o processo de habituação, o que quer dizer que quando chega, por exemplo, ao seu nível “6”, já o sente como um nível “2” ou “3”. E até mesmo o tão temido nível 10, quando lá chega, já pouca ansiedade lhe sobra.

 

Para uma fobia comum, o método mais seguro e mais habitual para a eliminar é mesmo este. Mas as fobias, de tão simples que parecem a um primeiro olhar, têm os seus desafios e complicações e nem todas se conformam a este método.

 

 

Desafios nas fobias

Fobias que não dão jeito

Por exemplo, uma fobia comum: a fobia de voo. Surge, muitas vezes, como parte de uma perturbação ansiosa mais complexa, chamada de agorafobia e que, por sua vez, o mais frequente é encontra-la quase como uma extensão natural da perturbação de pânico. Mas seja uma fobia específica ou parte de outra, o facto é que fragmenta-la em níveis, para uma abordagem progressiva não é possível. Imagine que primeiro se quer habituar a estar dentro de um avião e só levantar voo… Não pode, verdade? “Senhor comandante, desculpe lá, mas eu estou aqui a habituar-me só a isto, por isso, agora vai ter de aterrar e deixar-me sair e eu volto noutro dia para fazer mais um bocadinho da viagem. Desculpe lá o incómodo…”.

 

E cumprir várias viagens para se habituar até que a ansiedade desapareça também só é possível se for pessoa abastada. Por isso, muito particularmente na fobia de voo, tem de se recorrer à imaginação, criando visualizações, a métodos e hipnoterapia, com os quais se conseguem quebrar algumas resistências internas mais subconscientes e reprogramar o organismo para uma resposta  anti-ansiedade e, para quem pode, recorrer a programas de realidade virtual. Ou, então, a programas integralmente dedicados ao tratamento da fobia de voo – como o excelente Voar Sem Medo – e que contam com um elevado conjunto de meios e metodologias especialmente criados para o fazer levantar voo. Literalmente.

 

Vem do susto

A maioria das fobias foram-se instalando progressivamente de tal forma que nem é possível marcar o seu início; algumas mesmo dão-nos a sensação de sempre terem cá estado, desde tão pequeninos que a memória já apagou o “quando” e “onde”. Isto é, não só habitual, como irrelevante, porque não é preciso sabermos de onde vêm, para serem eficazmente tratadas.

Excepto…

Excepto quando têm um início muito claro (ou, às vezes, mais insidioso do que claro…) numa situação traumática. Um belo dia ficou 2 horas fechado num elevador pequeno e atabafado, sem rede de telemóvel e, sobretudo, sem saber quando é que conseguia sair dali. E, a partir desse dia, só mesmo se o agarrarem em peso e o meterem à força dentro de um elevador é que se deixa convencer que aquilo não é uma caixa obra do diabo em pessoa.

 

E, então, porque é que nestes casos, em que nós sabemos a história do princípio ao fim, e sabemos que começou com um susto, não seguimos o método da exposição progressiva? Porque é mais rápido e fácil usar uma abordagem que foi especialmente desenhada para tratar situações de trauma. Ah! Vá lá, mas ficar dentro de um elevador é um trauma? É sim; é chamado de um trauma com “t” pequeno, para diferenciar daquilo que são os grandes traumas – aqueles em que a sua vida ou integridade física são ameaçadas, como um acidente de viação, um terremoto, incêndio ou violação.

 

Mesmo com um “t” muito pequenino, o seu cérebro achou que era um pouco mais do que a conta, mais do que aquilo com que estava preparado para lidar naquele momento. E, portanto, de cada vez que vê um elevador, neste nosso exemplo, o seu cérebro envia mensagens, alto e bom som, para todo o corpo, alertando-o para o facto de poder haver perigo iminente.

 

Então, nestas situações fóbicas de início traumático, pessoalmente, opto sempre por trabalhar com EMDR, que tem uma vantagem adicional: as pessoas gostam deste trabalho! Eu sei que este não é um factor importante quando se escolhe um método de tratamento, mas é simpático poder optar entre duas intervenções, sabendo que uma delas é mais agradável e recolhe melhor aceitação.

 

No EMDR aplicado a uma fobia, o que se faz é escolher memórias, em primeiro lugar. Uma memória trazida para o aqui e agora é quase como uma viagem ao passado – de certa forma, voltamos a viver a situação como se tivéssemos dado um saltinho lá atrás e nos fôssemos visitar a esse momento.

Escolhemos a primeira memória relacionada com a reacção fóbica, e também escolhemos a memória do pior momento de que se recorda da sua história com elevadores (neste nosso exemplo), e alguma outra que possa ser especialmente relevante para si. E depois estimulamos o cérebro, através de movimentos bilaterais alternados, que funciona como uma instrução clara – na linguagem do cérebro – para ir actualizar essa memória, desencravá-la da mensagem de perigo em que ficou bloqueada. Depois disto, fazemos só mais umas actualizações, indo buscar situações actuais com elevadores e que ainda lhe geram receio e projectamos situações possíveis no futuro em que anda de elevador e tem o azar de ficar lá parado enquanto não chega a equipa de manutenção.

 

Não se sabe ainda exactamente como é que o EMDR consegue conduzir o cérebro tão bem para um estado de resolução de situações de bloqueio emocional, mas devo dizer-lhe que também nunca ninguém se recusou a ficar bom de um problema só porque não consegue explicar tim-tim por tim-tim os mecanismos exactos de funcionamento deste processo 🙂

 

E agora que já estava a pensar que esta origem de algumas fobia é fácil de ser detectada, deixe-me desenganá-lo. Nem sempre é claro que o mecanismo que está a operar na base é de origem traumática – às vezes, é precisa alguma experiência clínica acumulada para intuir de onde vem a fobia e, portanto, para escolher o melhor método para a tratar.

 

Quer um exemplo? Um senhor queixou-se de fortíssima ansiedade em andar de elevador e ao avaliarmos a situação em profundidade vimos que também lá estava uma ansiedade significativa em situações em que se sentisse tolhido na sua liberdade de movimentos. E como uma pessoa é sempre a sua história vivida, mesmo em situações muito específicas como as fobias, faz-se sempre um “passeio” ao seu passado e àquilo que foi acontecendo de relevante ao longo da vida. Entre as várias coisas que pertencem a um percurso de vida, estava um acidente de automóvel, logo no início da idade adulta e que felizmente não teve consequências médicas relevantes, mas que foi vivido com muita angústia, por variadíssimas razões, entre quais, o facto de ter ficado enclausurado durante umas horas e ter de ser desencarcerado pelos bombeiros.

 

E, antes que se ponha a pensar que é evidente, não, o senhor não ficou fóbico a elevadores a partir dessa data. E também não fazia qualquer ligação entre os dois temas. E também me dizia que o acidente automóvel tinha tido um papel emocional importante na vida dele, durante uns tempos curtos, mas que agora já era apenas um pedaço de informação objectivo e sem relevância, de algo que tinha ficado lá atrás. Está bem, mas como os americanos gostam de dizer “se anda como um pato e fala como um pato, é porque é um pato”. E o facto é que a nossa memória funciona por associações, com base em elementos das situações, e não tanto por associações que racionalmente nós entendamos como lógicas – há um cheiro a biscoito que leva a uma recordação da cozinha da avó, que leva a uma recordação de carinhos partilhados, que leva à tristeza dos mesmos carinhos perdidos, que leva à imagem daquela discussão com o marido, que leva…

 

Perante uma queixa de “sinto-me preso e a sufocar” dentro de um elevador a que se junta a história de uma situação traumática onde seguramente se sentiu preso e em aflição, manda o bom-senso clínico, que se assuma o acidente de viação como a origem desta reacção fóbica a elevadores. E antes que pergunte, sim! Tratou-se da memória do carro, passou-se para memórias de elevador, e ficámos despachados.

 

E quando é nojo?

Medo. Ansiedade. Lembra-se? Disse-lhe que são as duas emoções que têm de estar presentes para que se possa decretar uma fobia.

 

Mas há vozes na ciência que têm vindo a desafiar a leitura muito directa de algumas situações de fobias, pelo menos no seu sentido clássico. E isso por causa de uma das emoções mais primordiais nos animais em geral: o nojo. Antes de ser o medo a guardar a vinha, é o nojo quem o faz exemplarmente. O nojo, ou repulsa, é o que nos faz repudiar convictamente determinados alimentos, protegendo-nos da sua potencial toxicidade. Na sua base é uma reacção puramente fisiológica, que pode, no seu extremo de rejeição, levar-nos ao vómito, para nos obrigar a purgar-nos de algo que poderia, até, ser venenoso.

 

E quem trabalha habitualmente com fobias sabe que há algumas situações que o que está em causa não é medo, nem ansiedade, mas sim… nojo!

Considere o caso de uma das fobias mais frequentes: a aracnofobia. Sim, aranhas, aranhiços e aranhões. Entre 3 a 6 pessoas em cada 100 embirram com os bichos. E digo-lhe já que vou ter direito a pesadelos hoje à noite, porque pela definição clássica eu sou fóbica a estes bichos e estou para aqui a falar e pensar neles. Mas, se olharmos com atenção (para a reacção, não para as aranhas, muito obrigada, mas dispenso…) talvez o cenário seja um pouco menos evidente. Vamos lá ver se prestou atenção ao início. Tenho uma reacção desproporcional face ao perigo que colocam (pelo menos, tendo em conta que não vivo na Austrália, onde há variantes venenosas), reajo com elevado evitamento (tanto quanto é possível tendo casa no Alentejo), e cria-me alguns problemas ao normal funcionamento (já experimentou passar tempo no Alentejo e não poder ver aranhas à sua frente?). Então? O que é que está a faltar?

 

Isso mesmo! Esteve com atenção 🙂 Falta-me o medo ou ansiedade. Nenhuma das reacções características que assinalam qualquer uma destas reacções emocionais. Nem uma, para amostra… Mas nojo? Até o estômago se me contorce…

Então, será uma fobia clássica, que não é uma fobia clássica…

 

E saber isto serve-nos para quê? O processo de habituação de que lhe falei há pouco, e que se consegue com uma exposição progressiva, também funciona para o nojo. Assim como o cérebro aprendeu – ou já vinha programado para saber, tal como lhe falarei mais adiante – que há algo que deve ser evitado a todo o custo, pelo confronto sucessivo entre aquilo que nos diz para evitarmos, e o facto de nada de negativo acontecer, ele também aprende que não vale a pena continuar a obrigar-nos a ficar longe do que nos causa a reacção fóbica, e vai-nos deixando sossegados.

Mas há uma diferença.

Os processos de habituação são muito rápidos no caso da ansiedade e do medo, mas muito mais lentos e, às vezes, até um pouco tortuosos, no caso do nojo ou repulsa. Não que se saiba porquê, talvez por ser uma reação mais primária, baseada em processos de uma fisiologia mais automática, quem sabe? O facto é que quando a base de reacção é o nojo, fazer desaparecer uma fobia não é tão fácil e tem de se recorrer a uma ou outra técnica adicional e que “converse” melhor com processos mais abaixo do plano da consciência.

 

Desenvolvimento que encravou

Tenho vindo a semear aqui e ali a noção de que aprendemos a ter medo, verdade? E sim, somos grandes máquinas de aprendizagem, mesmo quando não damos conta disso. Aprendemos tudo, o bom e o mau e, muitas vezes, desaprender é que é o grande desafio, e as fobias não são excepção.

 

Mas também vimos pré-programados para várias coisas. Ninguém tem de aprender a respirar quando nasce, certo? Só um exemplo, entre milhares. Entre as muitas coisas que se encontram inscritas no nosso capital genético vêm alguns medos, que têm quase data certa para vir à tona e serem ensaiados. Qualquer pessoa que lide com crianças sabe disso – está na fase de ter medo do escuro, de ter medo de estranhos, de barulhos altos, de animais grandes, de monstros,… São fases e a maioria das crianças passa por elas, umas mais outras menos, e, passada a fase, passa o medo.

 

Ou não passa?

Por vezes, há algo que não corre bem e o transitório permanece por aí a complicar-nos a vida.

Por exemplo, o medo habitual associado à separação dos pais (aí entre o 1 e os 5/6 anos) que pode dar lugar a uma perturbação de ansiedade de separação, que tem mesmo de ser tratada e não é propriamente rara – em adultos, por exemplo, apesar de sub-diagnosticada, afecta entre 1 a 2 pessoas em cada 100.

Ou a retracção instintiva face a alturas, que nalgumas pessoas pode sedimentar como uma fobia a alturas (acrofobia).

 

E eu falo-lhe disto aqui porque as fobias que assentam directamente em medos pré-programados são um pouco mais lentas a ceder, e eu não quero que fique com a ideia de que tudo são rosas no trabalho com fobias, e que o medo vai desaparecer no espaço de um estalar de dedos. A rapidez depende de diversas variáveis e esta é uma delas.

 

Reacção vasovagal

E guardei para último um dos desafios que mais me complica a vida de “domadora de fobias” 🙂

 

Mas deixe-me, primeiro, dar o devido enquadramento. As fobias são praticamente infinitas nas suas variantes – é possível ganhar medo a qualquer coisa. Mesmo! E, como são tão variadas, há quem se divirta a dar nomes às fobias, consoante o objecto fóbico – é fácil e pode experimentar fazê-lo, mas só se souber grego J Basta juntar o nome em grego para o objecto fóbico e acrescentar-lhe o sufixo fobia.

Brincamos?

Há quem tenha anuptofobia (medo de ficar solteiro), catagelofobia (medo do ridículo), suspeito que muitos terão fronemofobia (medo de pensar), hexacosioihexecontahexafobia (medo do número 666), pelo que espero que não tenha hipopotomonstrosesquipedaliofobia (medo de palavras compridas), uma incomodativa narigofobia (isso mesmo: medo de narizes), a Cinderela de certeza que tinha uma novercafobia (medo da madrasta) e é muito comum todos nós termos assim um bocadinho de penterofobia (medo da sogra). Há até, supostamente, quem tenha fobofobia (medo de fobias).

 

Tudo pode ser um objecto fóbico. Mas há fobias habituais e tudo o resto é raro, quando não raríssimo, e só aparecem várias listas de dezenas e centenas delas porque há algo de divertido em dar nomes às coisas (e em poder dizer aos amigos que se tem um caso grave de estupofobia – medo de pessoas estúpidas).

De uma forma geral, as fobias frequentes enquadram-se em categorias:

  • Animais (aranhas, insectos, cães)
  • Meio ambiente (alturas, tempestades, águas)
  • Sangue-injecção-ferimento (agulhas, transfusões, análises ao sangue, procedimentos médicos invasivos)
  • Situacional (aviões, elevadores, espaços fechados)
  • E, claro, a famosa categoria “Outros”

 

Aquela que me deixa sempre em sentido é a de sangue-injecção-ferimento. E isto, por dois motivos

 

Um último critério de diagnóstico

Estivémos a ver o que tem de estar presente para se poder diagnosticar uma fobia. Mas não lhe falei de tudo – também é preciso que a reacção tenha uma duração mínima de 6 meses e originar a reacção fóbica de uma forma consistente (senão seria apenas um susto ou uma fase de “sustos”). E, muito importante, é preciso que exista perturbação: emocional ou do funcionamento normal. Imagine que é fóbico a cobras e vive numa cidade (e não gosta de ver o National Geographic…). Pode cumprir com todos os outros critérios, mas não tem medo porque não há qualquer hipótese de se cruzar com uma cobra e, por isso, anda muito sossegado e nunca se lembra do assunto. E também não tem qualquer limitação à sua vida porque, com excepção de uma área fechada do jardim zoológico, não há nada para evitar, nem nada que tenha de alterar à sua rotina ou áquilo que escolhe fazer… então, clinicamente falando, não tem uma fobia.

 

E o que é que isto tem a ver com esta categoria? É que os temas de saúde não se podem andar a evitar, e um problema fóbico pode fazer uma diferença vital! E, às vezes, nesta categoria, já não é o tema de conforto pessoal e bem-estar de que estamos a falar, mas sim de vida ou morte.

 

Lembro-me, há uns anos, de ter trabalhado com um cliente que tinha uma fobia nesta categoria – procedimentos médicos invasivos. Intensa de tal forma que o fazia bloquear e não fazer nenhum dos exames médicos de rotina e diagnóstico, o que, tendo já dobrado os 50 anos, lhe estava a criar um risco crescente. Fizémos o nosso trabalho, em conjunto, como deve sempre ser feito e a situação foi resolvida. Cerca de um ano mais tarde tive o grato prazer de ter um contacto dele para me agradecer – nos exames que fez detectou-se uma fase inicial de tumor na próstata que foi a tempo de ser tratado.

Vida. Morte. Às vezes, discute-se ao nível de algo tão simples como uma fobia específica.

 

Por isso, qualquer fobia nesta categoria tem toda a minha atenção, porque sei o que pode estar em jogo, e torna-se desafiante porque a hipótese de não ter sucesso é algo que não permito que me passe pela cabeça.

 

Fugiu-se-me!

E o segundo motivo é aquele que dá nome a estes parágrafos. Vamos lá a uma coisa básica: para que haja uma habituação à ansiedade e deixe de sentir medo, é preciso a sua presença: tem de estar lá, junto com aquilo que lhe faz medo, ao vivo ou de forma imaginada, numa aproximação progressiva ou nem por isso. Mas tem de estar lá. É, assim, um bocadinho evidente, não?

Então, e se me foge? Aparece a agulha e, puf! Eclipsou-se!

 

Pois, é que esta categoria tende a ter fobias que têm “jeito” para criar uma reação vasovagal, algo que faz com que mal se vê, por exemplo, a agulha, se desmaie. Conhecida como síncope ou síndrome vasovagal, é causada por uma diminuição temporária do fluxo de sangue no cérebro, devido a uma descida da pressão sanguínea, e um dos agentes responsáveis por ocorrer é precisamente uma emoção forte e súbita.

 

Quando isso acontece como reacção a ver-se sangue ou uma agulha, por causa de uma fobia severa, não há razões para alarme: durante uns segundos há uma perda de consciência e, pronto; fim da história. O problema, para efeitos de tratamento da fobia é que não se consegue fazer o processo de habituação porque… a pessoa não está lá.

 

Nestes casos, o trabalho tem de ser orientado de uma forma a que se vá progredindo sempre abaixo do limiar em que ocorre a reacção vasovagal, o que requer muita atenção por parte do psicólogo e… bem, alguns truques na manga de que não lhe vou falar porque também não posso andar a contar todos os meus segredos, não é? 🙂

 

Em jeito de resumo

Se tem uma fobia, tem sofrimento ou prejuízo da autonomia, ou ambos. Sem qualquer necessidade – foi isso que tentei dizer-lhe ao longo destas 5.000 palavras 🙂

Estão bem testadas as formas de intervir e resolver as fobias específicas, com excelentes níveis de eficácia e de uma forma surpreendentemente rápida.

 

Se tem alguma dúvida, a propósito de fobias ou, naturalmente, qualquer outro tema do âmbito da Psicologia Clínica, diga-me! Tenho por hábito responder a quem pergunta. E, ainda que a minha agenda ande sempre sobrelotada, de vez em quando, consigo comprometer-me a trabalhar com uma ou outra pessoa que me pede acompanhamento. E nem será preciso dizer que qualquer psicólogo da Oficina de Psicologia se encontra mais do que habilitado a trabalhar com qualquer situação fóbica. Desde que não tenha nenhuma fobia a psicólogos, claro! 🙂

 

Pretendo: (obrigatório)
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Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde
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2017-05-13T13:53:25+00:00 Maio 13th, 2017|Ansiedade, Madalena Lobo|

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