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Há música na Psicologia

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Psicólogos a falarem de música? Mas porquê?

Parece estranho, verdade? Mas a Psicologia é uma ciência que tem ramificações de estudo e aplicação em muito mais áreas do que parece – das artes à arquitectura, da medicina à economia, do marketing ao desporto, na colaboração com a física quântica em estudos sobre a consciência,… É difícil não encontrar uma área do conhecimento humano que, nalgum ponto, não tenha sobreposições de estudo.

 

Este ano, resolvemos incluir música na nossa participação no Greenfest, de 6 a 9 de Outubro, no Estoril, onde temos a honra de marcar sempre presença, com diversas actividades e workshops, para levar conceitos da psicologia ao grande público e sensibilizar graúdos e miúdos para os fundamentos de uma boa saúde mental.

 

Música no GreenFestNas tardes de Sábado e Domingo do Greenfest, teremos 3 momentos em que, juntos, nos poderemos divertir e aprender algo sobre o que a Psicologia tem a dizer sobre música. Por isso, redigimos um conjunto de artigos para que possa saber o que a música pode fazer pelo seu bem-estar emocional e pela sua saúde cerebral. Falaremos de escuta de música e de tocá-la. Falaremos de desenvolvimento intelectual, regulação de emoções e de alterações cerebrais. Falaremos do seu impacto na saúde física e na sua relação com as aptidões linguísticas. Falaremos de tudo o que nos parecer poder ser-lhe útil 🙂

 

A música que escolhemos ouvir condiciona o nosso estado emocional. Hummm… “Grande novidade!”, está provavelmente a pensar. Mas talvez exista uma maior profundidade nisto que lhe estou a dizer. Em primeiro lugar, porque não é tão directo assim… E, em segundo lugar, porque a música é feita de complexidade – o tom (que governa a harmonia e a melodia), o ritmo, a dinâmica e a textura, além de poder ser concretizada com diversos instrumentos, em diversos estilos e com forte influência cultural. E, por isso, dizer que a “música” condiciona as emoções é tão generalizador que se torna quase impossível de demonstrar. E, como veremos, o nosso estado emocional condiciona a música que escolhemos ouvir e, simultaneamente, a música que ouvimos altera o nosso estado emocional.

 

Deixo-lhe algumas conclusões sobre os seus estados emocionais e a música que escolhe ouvir e sobre o que o simples facto de escutar música lhe traz como benefícios.

 

A música tem emoção

Se escutar uma música desconhecida e mesmo de uma cultura muito diferente da sua, ainda assim será capaz de identificar o seu tom emocional: triste, alegre, contemplativa, etc, o que nos diz que a música tem intrinsecamente uma qualidade emocional.

E independentemente de ser apreciada como triste ou alegre, por exemplo, tem ainda o potencial de nos fazer sentir emoções que podem ser essas, que identificamos na música, ou não. Ora essa, porquê? Se a música é triste, eu não me deveria sentir triste? Pois, aí as coisas tornam-se mais complexas, porque a nossa experiência de vida, a nossa cultura de base e tudo aquilo que nos torna diferentes uns dos outros, e até, que nos torna diferentes de dia para dia, faz com que as nossas reacções emocionais às músicas que ouvimos sejam tão diversas quanto as reacções emocionais que temos face ao tudo o que compõe as nossas vidas.

 

Mas uma coisa parece certa: as emoções que nos dominam a cada momento influenciam as nossas escolhas musicais que, por sua vez, modulam e alteram os nossos estados emocionais. Escolha bem as músicas do seu dia-a-dia, porque elas vão condicionar a sua tonalidade emocional e mantenha-se atento ao dinamismo diário porque uma música que o inspira a sentir-se melancólico hoje, poderá ser uma boa música para o deixar alerta e focado na próxima semana. Bem, e pode não o “aquecer, nem arrefecer” no próximo mês, até porque à volta de 60% da sua escuta de música não vai criar qualquer reacção emocional. E quer mais uma curiosidade? É mais provável que a música elicite emoções em si à noite e aos fins-de-semana. E esta, hem?

 

Mas a música gera mesmo emoções específicas?

Isto das emoções é… complicado. E nada levaria a crer nessa complicação porque, vá, nós sabemos se estamos tristes ou contentes, certo? E sabemos se uma música nos deixa tensos ou relaxados. Ou não?

Bem, não é assim tão simples… Em primeiro lugar porque, como vimos, a música tem, ela própria, um sentimento dominante e que pode ser diferente da emoções que gera em cada um de nós e, por isso, torna-se fácil baralharmos o sentimento da música com a emoção que temos. Ora veja lá se não consegue lembrar-se de uma qualquer música triste, mas que o faz sentir-se relaxado, por exemplo? Ou uma música alegre e que reconhece como tal, mas que o deixa enervado?

 

E depois vem o tema do sentir. Não somos assim tão bons quanto julgamos a avaliar os nossos estados emocionais, não só porque diferimos muito em inteligência emocional, como, ainda por cima, porque as emoções têm muito de contextual. Por exemplo, eu posso assumir que estou triste apenas porque aconteceu algo que é suposto fazer-me sentir triste mas, na realidade, não ter a fisiologia correspondente à tristeza.

 

Como? Fisiologia? Ora aí está! As emoções têm uma assinatura fisiológica e, ainda que varie de pessoa para pessoa em muitos aspectos, a base é bastante universal. E o que é que sabemos ser o impacto da música nesta fisiologia? É capaz de mexer com temperatura e condutividade da pele, com batimento cardíaco, ritmo e tipo de respiração e secreção hormonal – tudo elementos que constituem parte das assinaturas fisiológicas de várias emoções. Por isso, podemos dizer que existe mesmo um impacto da música ao nível da forma como nos sentimos por a escutar. E se ainda existisse alguma dúvida em relação a isto, estudos recentes sobre activação cerebral resolveriam o tema, porque se tem descoberto que algumas zonas cerebrais se activam de forma diferencial perante construções musicais diferentes. Já pôs aí a tocar qualquer coisa? Sim? Então repare como o seu corpo reage e como se sente!

 

A música e o seu comportamento

E não é que a música também condiciona alguns comportamentos? Bem, instintivamente, sabemos que há peças que têm o condão de nos deixar irritáveis, o que faz com que tenhamos comportamentos de maior impaciência, senão mesmo de agressividade, em relação aos outros. Mas o poder da música a moldar subconscientemente os comportamentos humanos parece ser bem mais abrangente do que isto.

 

Por exemplo, hoje sabe-se que certas produções musicais nos deixam mais receptivos à ideia de ajudar activamente os outros, outras que nos condicionam a comprar certos produtos e outras que nos levam a agir, de uma forma geral, a mexermo-nos, a fazermos coisas ou, por outro lado, a silenciarmo-nos e focarmos a atenção na sua escuta, como, por exemplo, quando ouvimos uma orquestra sinfónica a executar uma peça clássica. Anda a procrastinar, em letargia e falta de apetite em fazer coisas? Experimente pôr música a tocar e vá variando os estilos, até encontrar algo que lhe dê um empurrão!

 

A música tem saúde

Os efeitos psiconeuroimunulógicos da música têm vindo a ser estudados. Palavra cara e comprida, esta, verdade? Na prática a pergunta que é feita pelos investigadores é: será que a música tem impacto na saúde e, se sim, de forma?

E a resposta parece ser sim, se bem que ainda se estejam a dar os primeiros passos neste caminho de descoberta científica: a música parece ter efeitos positivos sobre a reacção imunológica, além de um potencial significativo na redução de estados de stress e ansiedade, o que ajuda na prevenção e na recuperação de diversas situações médicas. Mas teremos de esperar mais umas décadas até ter resultados mais claros e abrangentes neste domínio. Até lá chegarmos, e sabendo-se que lá que tem um impacto positivo, tem, vá optando por se rodear de música para reduzir idas ao médico e ajudar o organismo a recuperar da doença.

 

A música ajuda no desenvolvimento e bem-estar no ser humano.

Como? De acordo com Seligman, existem 5 factores que sustentam este desenvolvimento: a emoção positiva, as relações interpessoais, as actividades que geram envolvimento, a sensação de que se está a atingir metas e o significado e propósito de vida. O autor Adam M. Croom fez uma análise exaustiva do impacto que a música pode ter nestes 5 aspectos que, em conjunto, podem criar bem-estar, e concluíu que a música contribui de forma muito positiva para uma vida bem-vivida e para o desenvolvimento do potencial humano. Nada mau, tendo em conta que, ainda por cima, é algo que dá prazer! Já ouviu música hoje?

 

Autora: Madalena Lobo

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