Ideação suicida na adolescência

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Rita Castanheira Alves

Rita Castanheira Alves

Nos últimos anos, apesar do trabalho já desenvolvido na área do suicídio na adolescência, continuamos a assistir a situações de jovens que terminam com as suas vidas. A prevenção assume um papel essencial enquanto esforço e estratégia para lidar com o suicídio na adolescência, a qual passa não só pela detecção e minimização dos fatores de risco associados ao suicídio como pelo aumento da consciencialização e conhecimento relativamente ao tema e pela promoção do acesso a fatores de proteção como é o suporte emocional. É essencial ter presente que não existe apenas uma causa para o suicídio. É o resultado de uma combinação de diversos fatores, não existindo uma relação direta e exclusiva entre o suicídio na adolescência e um ambiente escolar negativo ou um ambiente familiar negativo.

E os pais de filhos adolescentes? Que papel poderão desempenhar enquanto agentes preventivos?
Não é fácil para os pais a descodificação dos sinais apresentados pelos seus filhos: pode ser muito difícil perceber se o jovem teve apenas um dia difícil ou se os sintomas de depressão, ansiedade e isolamento são provocados por outros fatores, onde se incluem os maus tratos pelos pares, os quais poderão estar a ter um impacto muito negativo na auto-imagem do jovem, no seu funcionamento diário e na sua auto-estima. Nesta sua tentativa de compreensão do seu filho, a comunicação e a conexão poderão ser estratégias de que se pode servir para o ajudar a partilhar os seus problemas e a sentir o apoio e atenção de que necessita.

É essencial adoptar uma atitude de escuta ativa, escutá-lo realmente sem o julgar, aceitando que o que o seu filho lhe transmite é a sua verdade. Quanto maior for a ligação e a aceitação do seu filho, maior será a partilha das emoções e experiências dolorosas, promovendo a confiança do seu filho em si e fazendo-o sentir que não será julgado. Esta dinâmica poderá ser criada através do hábito de o questionar acerca do seu dia, explorando e acedendo mesmo às emoções mais dolorosas, num espaço de partilha e de abertura para o diálogo sem juízos.

Não só é importante haver abertura na relação pais-filho para falar sobre emoções, como é depois fundamental identificar e responder aos problemas do seu filho. Esta responsabilidade pode ser partilhada com ele. Poderão juntos identificar os problemas e desenvolver estratégias para o ajudar a ultrapassar as dificuldades, o que contribuirá para o seu desenvolvimento, aumento do seu bem-estar psicológico e consequentemente prevenir pensamentos ligados ao suicídio. Sempre adoptando uma atitude sem julgar, se os problemas ocorrem na escola, questões como: “ Há quanto tempo acontece? Como te sentes quando isso acontece? Há professores ou outros adultos na escola que saibam que isto está a acontecer? Quem mais sabe?”, poderão ser úteis para compreender melhor o que está a acontecer e mais tarde ajudá-lo a desenvolver uma rede de apoio.

Depois de identificados os problemas, poderão juntos descobrir recursos para o ajudar, atribuindo-lhe um papel ativo nesta busca, colocando-lhe questões como: “O que pensas fazer e como poderá a situação alterar-se? O que poderá ser alterado para a situação na escola melhorar? Quem precisa de ser envolvido? Quanto tempo estás disposto a esperar para que a situação se modifique? Quando quererás começar a agir?”, nunca o abandonando nesta tarefa de resolução, fazendo-o sentir-se ativo mas sempre  expressando que o apoiará incondicionalmente na resolução das suas dificuldades. Poderá propor-lhe que pense em pessoas da rede escolar com quem poderá falar sobre o que se passa (um professor, um psicólogo), não só proporcionando a construção de vínculos para o seu dia-a-dia mas que em simultâneo o poderão igualmente ajudar a desenvolver estratégias.

Sempre que o seu filho expressar que se sente triste ou deprimido, não hesite em conversar sobre esses sentimentos com ele. Se ele falar em suicídio não evite o tema. Contrariamente ao que poderá pensar, ao não evitar o tema do suicídio não lhe está a pôr essa ideia na cabeça, mas sim a transmitir-lhe uma atitude aberta e disponível para o escutar relativamente aos seus pensamentos e assim ser mais capaz em apoiá-lo, conhecendo melhor as suas ideias relativamente ao suicídio e descobrir a ajuda mais adequada, especialmente se ele já tiver um plano. Questões como: “ Quando falas em querer morrer, estás a falar em matares-te? De que forma pensaste sobre isso? Que coisas estão a contribuir para que não queiras viver neste momento?” poderão ajudá-lo a si e ao seu filho a descobrir a ajuda mais adequada.

Se de facto conclui com o seu filho que é necessária uma ajuda mais especializada, não se deixe influenciar pelo estigma da sociedade acerca da saúde mental e contacte um profissional de saúde mental. Procure recursos como psicoterapia individual, grupos terapêuticos e reforce a rede social e familiar do seu filho.

Ao longo de todo o processo, lembre-se sempre de apoiar o seu filho, relembrando-o do valor que tem, como é amado e como é tão importante para si, para a sua família e amigos. O seu amor e suporte contribuem fortemente para que o seu filho adolescente ultrapasse o sofrimento e recupere a vontade de viver.

 

 

Adaptação do Artigo de Fishberger, J. (2011). James Rodemeyer Suicide: What Parents Should Tell a Suicidal Teen. http://www.huffingtonpost.com/jeffrey-fishberger-md/jamey-rodemeyer-suicide_b_974423.html?ref=mostpopular

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