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Invista na sua Rede Social! – 2ª Parte

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Rita Fonseca de Castro

Rita Fonseca de Castro

Está a passar por uma situação de desemprego, separação, reforma ou qualquer outra que o faz sentir-se mais sozinho que o habitual?

A importância da sua Rede Social e a forma como esta pode ser usada em terapia

Depois de, na primeira parte da abordagem deste tema, me ter focado na descrição do conceito de Rede Social, importa agora explorar como esta se pode constituir como um recurso terapêutico.

Cada vez mais surgem em consulta pessoas que, por terem investido no seu percurso profissional, no cuidado da família e filhos, foram perdendo as suas “redes de contacto” extra-familiares. Quando são confrontadas com uma situação de crise, como um desemprego súbito, e se vêem desocupadas, olham para os filhos, que entretanto cresceram e trilham os seus próprios caminhos, o marido/mulher ou companheiro ocupado com o seu próprio emprego e, muitas vezes, mais preocupado em mantê-lo pela perda de rendimento familiar que o desemprego do cônjuge acarretou, e são invadidos por sentimentos de solidão e isolamento.

A realidade é configurada, construída e mantida por uma multiplicidade de constelações de histórias e por um conjunto de práticas quotidianas. A prática clínica centra-se nas descrições e práticas derivadas de histórias, acerca de problemas, sintomas e conflitos, numa terapia que tem por base a conversa destinada a facilitar a transformação de descrições e histórias que contêm e mantêm os problemas ou conflitos em histórias alternativas que, de uma forma ou de outra, não estão colonizadas pelos problemas ou que contêm alternativas aos padrões disfuncionais que perpetuavam os problemas. Estas histórias existem no domínio interpessoal e não em indivíduos isolados, em todas as pessoas que partilham essa história, ou seja, que concordam em descrever a realidade de certa forma. Este conjunto de pessoas que partilha uma determinada história ou problemática não é exclusivamente a família. Podem estar envolvidos outros sistemas microssociais: o grupo de amigos, os colegas de trabalho e os chefes, etc., que contêm, sustêm e mantêm, ou mudam, as narrativas de conflito ou doença. Se a tarefa do terapeuta consiste em favorecer as mudanças qualitativas nas narrativas, a sua intervenção será tão mais eficaz, quanto mais sensibilizado estiver para as diferentes redes significativas possíveis das quais as pessoas realmente fazem parte e participam significativamente.

Para percebermos a “posição” de uma pessoa no (seu) mundo e aferirmos o “grau de isolamento” em que se encontra, podemos recorrer à esquematização da sua rede social, de forma colaborativa e envolvendo-a no processo de elaboração de uma espécie de mapa que inclui todas as pessoas com quem interage.

Os elementos que compõem a rede social organizam-se em quatro quadrantes (família, amigos, relações de trabalho ou escolares e relações comunitárias/de serviço), preenchidos de acordo com a distância a que se encontram do centro (da relação mais próxima para a mais distante) e atendendo ao tipo de relação que mantêm com cada uma das pessoas (familiar, amizade, profissional ou comunitária).

Para tal, desenham-se numa folha de papel três circunferências inscritas no interior umas das outras: 1) uma circunferência mais interna de relações íntimas, tais como familiares directos com contacto quotidiano e amigos próximos; 2) uma circunferência intermédia de relações pessoais, mas com menor grau de intimidade e um grau de compromisso inferior, como relações sociais ou profissionais com contacto social, mas sem intimidade e familiares intermédios; e, 3) uma circunferência externa, que inclui pessoas conhecidas e relações ocasionais, como colegas de trabalho ou escola, vizinhos ou familiares afastados.

Este mapa constitui um registo estático do momento que se releva ou de algum momento passado sobre o qual nos detemos. Este registo pode ser enriquecido – o que pode constituir uma intervenção terapêutica importante – através da questão: “em que direcção é que acha que está a ir a relação com essa pessoa, em direcção a um aumento de intimidade (para dentro), em direcção a uma diminuição da intimidade (para fora), ou sem alterações previsíveis?”. De seguida, pode-se acrescentar ao ponto que indica o indivíduo ou à linha que indica o vínculo entre esse indivíduo e o “paciente” uma seta que indica a “direcção” do movimento da relação.

A rede social do indivíduo mais não é do que as pessoas incluídas no seu mapa, cuja avaliação pode ser feita em termos das características estruturais: tamanho (número de pessoas incluídas na rede); densidade (relação entre os elementos da rede, independentemente da relação com o paciente); composição ou distribuição (proporção total de elementos da rede localizada em cada quadrante e cada círculo), dispersão (distância geográfica entre os membros da rede); homogeneidade ou heterogeneidade demográfica; tipo de funções sociais que cumprem os vínculos específicos e o conjunto dos vínculos (companhia social, apoio emocional, guia cognitivo e conselheiros, regulação social, ajuda material e serviços, aceso a novos contactos) e atributos do vínculo (funções prevalentes, multidimensionalidade ou versatilidade, reciprocidade, intensidade, frequência dos contactos e história da relação).

Se, no contexto terapêutico, nomeadamente na terapia familiar, expandirmos o nível de análise para além da família e, em cada situação de crise ou sintomática, explorarmos os atributos e perturbações da rede social, a quantidade e qualidade da rede e dos vínculos, e as suas mudanças, perdas ou permutações, poderemos encontrar novas hipóteses e estratégias terapêuticas que incluam ou recorram a membros da rede.

Segundo Carlos Sluski*, uma estratégia pode passar por reatar amizades antigas. Deste modo, reactiva-se um vínculo perdido desde um último encontro, permitindo que nos sintamos “alojados” numa amizade antiga, confortável, fiável e calorosa. Um amigo antigo pode ser um depositário da identidade, da nossa história (Lembras-te quando…?), constituir uma fonte preciosa de nutrimento emocional (Que prazer em ver-te! ou Que é feito de ti?), um gerador de valioso feedback social personalizado (Porque é que te comportaste de determinada forma com certa pessoa?) e, até, de cuidados de saúde (Estás com boa cara!). Esta relação é recíproca, na medida em que se representa também tudo o que foi enunciado para a outra pessoa. Por mais triviais que sejam, a verdade é que há uma série de recordações que só se partilham com determinada/s pessoa/s.

* Sluski, C. (2007). Famílias e Redes: Rede social e perspectiva familiar sistémica. In L. Fernandes e M. R. Santos (coords.), Terapia Familiar, Redes e Poética Social (pp. 97-125). Lisboa: Climepsi Editores.

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