Luísa, o mindfulness e a dor crónica

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Fabiana Andrade

Fabiana Andrade

Já partilhámos convosco algumas peças sobre mindfulness, explicando que é o nome que se dá à nossa capacidade de atenção plena, momento a momento. Também referimos os seus benefícios, como o aumento da capacidade de memória e de concentração, a melhoria da autoestima, da autoconfiança e da capacidade de decisão, entre outros. Mas, independentemente de partilharmos informação, nada como termos presentes casos de pessoas que iniciaram a sua prática e conseguiram mudar a sua vida em diversas dimensões. Inicio aqui uma série com algumas histórias que ilustram bem os benefícios da prática e que podem ser úteis para se identificar e entender melhor de que se trata.

Luísa

Com 42 anos, Luísa é enfermeira, casada com António e tem um filho de 12 anos.

Há cerca de oito anos, Luísa sofreu um acidente de carro que deixou sequelas físicas e emocionais. O acidente foi grave, no qual perdeu a mãe e ficou bastante ferida. Apesar de uma recuperação física positiva, Luísa permaneceu com dores recorrentes num dos joelhos e nas costas.

Após o acidente, Luísa começou a exibir alguns sintomas de e .

Apesar de não ter tido culpa – a responsabilidade foi do outro condutor, demonstrava pensamentos de culpa, por diversas vezes interrogava-se “e se eu não tivesse convidado a minha mãe?”. Também exibia falta de energia, tristeza, pensamentos autocríticos e pessimistas em relação ao futuro, como “não fui boa filha e por isso acho que nunca serei boa mãe”, “vou ficar incapacitada e o meu marido vai perder o interesse”, entre outros.

Quando a Luísa me procurou, já tinham passado quatro anos desde o acidente, e os sintomas descritos pioravam em vez de melhorarem, como seria de esperar no caso de uma depressão reativa e proporcional ao acontecimento em causa. Tudo isto tinha um impacto tremendo no seu casamento, na relação com o filho e mesmo no seu trabalho. Quando a recebi no consultório, questionei-a sobre a sua dor, e de facto havia fundamentos para que continuasse a sentir dor, visto ter tido muitos traumatismos ósseos e musculares. Os médicos diziam que provavelmente, em algum grau, ela experienciaria para sempre dor crónica, o que também influenciava o seu humor, disponibilidade e autoestima.

O trabalho desenvolvido com a Luísa foi complexo, envolveu algumas abordagens como o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing), visto tratar-se de um trauma bastante violento.

Ao longo do tempo ela foi apresentando melhorias, mas parecia haver ainda dificuldades em aperceber-se de como poderia fazer a gestão da dor, de como poderia controlar os seus pensamentos, observando quando surgiam pensamentos críticos e antecipatórios, e como poderia sentir-se de novo no controlo da sua vida.

Assim, iniciámos uma série de sessões de mindfulness, que duraram oito semanas, com trabalhos de casa. E este trabalho consistiu no seguinte:

Inicialmente a Luísa pôde perceber que ela e os seus pensamentos são coisas diferentes – eu não sou o que penso, posso observar o que penso. Além disso, poderia ser também uma observadora do que se passava nas suas emoções e no seu corpo, sem ter de reagir imediatamente aos pensamentos, emoções e sensações.

Por exemplo, poderia estar sentada, a observar a respiração e verificava uma ligeira dor na perna direita. Em vez de mudar imediatamente de posição, observava melhor a dor, a sua intensidade, se a dor mudava ou não de localização, se aumentava ou diminuía de intensidade, e depois, calmamente, podia decidir se queria ou não mudar de posição.

A prática do mindfulness faz com que sintamos maior espaço entre o que está a acontecer e como queremos reagir. Esse espaço faz com que quem pratica possa sentir-se com maior capacidade de decisão, maior liberdade, mais autoestima.

Assim, durante oito semanas, uma vez por semana, passámos a compreender e a exercitar mindfulness. Depois, em casa, Luísa passou a praticar todos os dias. De cada vez que tinha um pensamento crítico sobre si, notámos que este levava a que, de seguida, tivesse um pensamento antecipatório negativo.

Eis um exemplo de como este ciclo se processa para que possam também perceber se em algum momento tal acontece na vossa vida:

Gatilho: A Luísa sente uma dor nas costas

Pensamento: “Pareço uma velha”

Situação: Olha-se ao espelho e acha-se feia e velha

Antecipação: “O meu marido vai deixar de me desejar e de me amar”

Comportamento/consequência: Ciúmes, mau humor para com o marido, pouca disponibilidade para ele.

Já com a prática de mindfulness:

Gatilho: A Luísa sente dor

Mindfulness: Observa a dor, respira, alonga as costas, deita-se um pouco.
E a situação pode ficar contida aqui mesmo, mas vamos imaginar que surge o tal pensamento crítico:

Pensamento: “Pareço uma velha”

Mindfulness: “Estou a observar-me a ser crítica comigo mesma, interrompo o meu pensamento e volto a focar-me no aqui e agora”.

Com o mindfulness ganhamos maior controlo sobre os nossos processos, e conseguimos interromper aqueles que não nos fazem bem.

Com a prática semanal, Luísa relatou melhoras consideráveis no seu humor, na sua relação, na disponibilidade para o filho e para o trabalho. A dor também diminuiu consideravelmente, pois ela ganhou estratégias para a controlar, por vezes aumentando o seu foco e por outras conseguindo focar-se noutras coisas que surgiam além da dor. Luísa fez um trabalho fenomenal em direção à sua qualidade de vida, e a sua entrega foi fundamental para o sucesso atingido.

Este é um dos exemplos de como o mindfulness foi útil num caso de trauma e de dor crónica, permitindo à cliente clarificar o que se estava a passar, entender o seu papel na manutenção do ciclo negativo e conseguir por fim quebrá-lo.

Existem vários estudos que mostram evidências consideráveis sobre os efeitos do mindfulness na dor crónica, e este é apenas um exemplo dos diversos campos onde permite ótimos resultados.

Venha praticar connosco!

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