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Memórias – Guardá-las (Parte II)

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Joana Fonseca

Joana Fonseca

Perante as diversas doenças e problemas associados à perda de memória, têm sido realizados muitos estudos com o intuito de tentar perceber porque perdemos memórias, ou porque há memórias que não conseguimos esquecer.

O filme “Eternal Sunshine of the Spotless Mind” (“O Despertar da Mente”, de Michel Gondry, 2004) levanta algumas questões: será desejo de cada um que o processo de memória seja sempre um sucesso? Quando se fala de uma memória traumática, ou apenas triste, será que é adaptativo guardar essa memória? E se, como é representado no filme, existisse a hipótese de apagar algumas memórias? Por exemplo, apagar a recordação de um namoro que acabou mal, ou de alguém que morreu, ou até de uma situação muito difícil.

Existem memórias muito intensas, que têm uma enorme carga emocional associada, que foram criadas num contexto muito perturbador e por isso são relembradas com enorme frequência. Muitas vezes, quando o contexto presente é semelhante ao original (no qual a memória foi criada), ou quando algum elemento do contexto presente é associado a uma memória, a pessoa pode ter flashbacks ou voltar a experienciar as emoções que sentiu no contexto original com a mesma intensidade. São as denominadas memórias traumáticas, que ainda não foram processadas. Isto significa que a pessoa ainda não foi capaz de dar novos significados às memórias, ainda não encontrou um sentido para elas.

Talvez apagar memórias traumáticas, se fosse possível, fosse uma boa ideia, uma vez que o sofrimento associado a elas, e provocado por cada momento de recordação, seria eliminado.

A resposta às questões colocadas depende do conceito de sofrimento. Se este for visto como não adaptativo, então a melhor solução seria evitá-lo, e nesse caso apagar memórias traumáticas seria sem dúvida a melhor solução. Contudo, o sofrimento também pode ser entendido como adaptativo, pois em situações difíceis, de perda, de desilusão, entre outras, sentir tristeza, raiva, vergonha ou outras emoções é natural, faz parte de ser humano. Por mais desagradáveis que estas emoções possam ser, têm de existir, têm de ser expressas, exteriorizadas e, principalmente, têm de ser experimentadas para que seja possível processar o acontecimento; quando são vividas, “gastam-se” e deixam espaço para que novas emoções mais agradáveis possam surgir, tais como alegria, saudade, surpresa, entre outras. Quando o processamento acontece a memória deixa de ser traumática e passa a ter um sentido adaptativo. Assim, é possível recordar sem sentir só emoções desagradáveis, e acontece outro processo essencial ao ser humano: a aprendizagem.

Se uma memória traumática fosse apagada, perder-se-ia a hipótese de aprender com ela. E como seria uma pessoa que perdesse as suas aprendizagens mais importantes? Como se iria superar? Como iria pensar sobre a vida? Como poderia crescer?

Penso que as nossas memórias e aprendizagens são preciosas, pois são elas que nos constituem. Um ser humano sem memórias, para mim, seria como um ser humano sem alma.

No caso de estar constantemente “assombrado” por memórias traumáticas, fale com outra pessoa sobre elas, não tenha medo de experimentar todas as emoções associadas, use a sua criatividade para criar novos significados. E se não for capaz de o fazer sozinho, peça ajuda psicológica. Existem diversas formas de processar memórias em psicoterapia, sendo uma das mais eficazes o EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através do Movimento Ocular).

Sem revelar o maravilhoso final, no filme “Eternal Sunshine of the Spotless Mind” as personagens colocam todas as questões referidas neste texto, e percebem que, mesmo apagando memórias, o amor deixa marcas para sempre. Mas de que serviria o amor se não o pudéssemos recordar? Recordar o amor, as dificuldades, as vitórias, as perdas… com sentido faz sentido. Concluindo, mais vale aprender do que esquecer, e por isso é tão importante guardar memórias.

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