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Migração e saúde mental

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“Uma longa viagem começa com um único passo”

(Lao Tse)

 

André Viegas

André Viegas

A complexidade dos processos migratórios contemporâneos exige uma abordagem global, equilibrada e atenta aos sinais de uma realidade em constante mutação.

A situação atual de crise generalizada tem colocado novos desafios à sociedade civil portuguesa, sendo o emigrar uma possibilidade cada vez mais encarada num cenário que se assume a cada dia mais globalizado.

De acordo com fontes oficiais, na última década emigraram cerca de 700 mil portugueses, uma média de 70 mil portugueses por ano, tendo existido uma aceleração gritante deste fenómeno nos últimos anos.

Apesar das mais variadíssimas razões inerentes a qualquer movimentação geográfica de cariz migratório, é importante sublinhar a relação existente entre migração e saúde mental.

Não negando os impactos positivos que esta decisão pode comportar, em termos psicológicos o “sair do nosso país”, segundo alguns autores, constitui em si um fator de risco, na medida em que reúne sete elementos de perda: da família e dos amigos, da língua, da cultura, da casa, da posição social, do contato com o grupo étnico e religioso. Esta série de perdas é vivenciada como um luto e sempre acompanhada por uma maior vulnerabilidade ao sofrimento psicológico (Desjarlais e col., 1995; Bibeau, 1997; Kirmaeyer & Minas, 2000; Persaud & Lusane, 2000; Murray & Lopez, 1996).

Neste processo de mudança, o individuo atravessa diferentes etapas e terá que desenvolver estratégias de adaptação que lhe permitam superar dificuldades relacionadas com a condição de imigrante (Ramos, 2008).

Esta adaptação múltipla assume-se sobretudo em termos de mudanças físicas (novo meio, nova habitação), mudanças biológicas (alimentação), mudanças sociais e familiares, mudanças culturais, políticas e psicológicas (identidade individual e cultural).

Toda a tipologia de mudança, seja ela positiva ou negativa, comporta stress e, em alguns processos migratórios, os níveis de stress podem ser tão intensos que bloqueiam a capacidade adaptativa. É quando tal acontece que é aumentada a possibilidade de ocorrência de perturbações emocionais.

Importa no entanto frisar que o processo migratório isoladamente não representa um fator de risco e que o sucesso deste percurso depende, como se tentou hoje aqui refletir, de múltiplas variáveis que não deverão ser desconsideradas.

 

É a vulnerabilidade ligada a todos estes fatores que por vezes motiva a elaboração de um pedido de ajuda e, de facto, pode ser num contexto de apoio psicológico que muitas vezes este sofrimento procura ser transmitido, em busca de respostas sensíveis e culturalmente competentes.

 

Entre emigrar e imigrar há um oceano de mar, de barreiras, de diferentes códigos, temperaturas, línguas, costumes, modos de ser. Enraizar-se novamente pode ou não ocorrer.

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