Mistérios doridos

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FibromialgiaEsta história conta-se rapidamente, mas é de mistério. Não, não é desses mistérios onde se passeiam mordomos assassinos… É um mistério clínico, porque não o sabemos explicar, como, aliás, tanta coisa que se passa no espaço de um consultório de Psicologia.

Portanto, lá terei de a começar como mandam as regras, certo? Então, lá vamos…

Era uma vez uma senhora, nas vésperas dos 40 (se bem que as senhoras não tenham idade, já sabemos), intelectualmente sofisticada e muito determinada. Como a maioria das senhoras modernas desta idade tinha um emprego stressante e exigente, uma família disfuncional (mas quem é que não tem, não é?), problemas com a filha adolescente (notou a redundância? Se é filha adolescente, por força teria de haver problemas…), uma separação fresquinha e uma união ainda mais fresquinha. E pronto: está contada a história da senhora! Como é que lhe vamos chamar? Disse Maria? Enfim, podia ter sido mais criativa, mas Maria está bem, era o nome de todas nós ainda há bem pouco tempo.

A Maria foi diagnosticada com fibromialgia. E não se pense que foi um desses diagnósticos apressados, meio envergonhados e cheios de culpa médica por não se encontrarem explicações mais sólidas. Não; era diagnóstico categórico, visto e revisto por médicos diferentes, todos eles com os óculos na ponta do nariz e cabelos grisalhos.

Toma isto, toma aquilo, toma lá um truque que parece que ajuda, e toma com um grupo de auto-ajuda… A história arrastava-se e as dores e restante sintomatologia mantinham-se teimosas. Entre muita informação digerida, a Maria pensou que, sendo uma teoria entre muitas outras, a de que talvez existam emoções mal resolvidas na base de dores mal explicadas, talvez fosse uma solução procurar ajuda psicoterapêutica – e assim me deu o prazer de a conhecer.

Demos umas voltas e reviravoltas, de vários enquadramentos teóricos, experimentámos abordagens e investigámos a fundo a sua história de vida, mas os sintomas fibromiálgicos não cediam nem um bocadinho. Aliás, estava claro desde o início que seria uma descoberta e experimentação conjunta na tentativa de encontrar o tal dia de sorte tão apregoado pelos cauteleiros, uma vez que não existem formas comprovadas de resolver a fibromialgia, que nos dêem garante de sucesso.

Fresquinha que eu vinha nessa altura de um curso de EMDR, mas não existindo forma enxuta de o aplicar assim como vem de série, lá conjurei criatividades escondidas e desenhei uma forma de seguir cada dor até acontecimentos passados, com base na memória das células da zona do corpo que albergavam a dor. Não me recordo exactamente quantos pontos de dor trabalhámos desta maneira, porque já passaram anos, mas sei que foram menos de metade.

Entretanto, a Maria desapareceu. Não, este não é o mistério – e, que eu saiba, o EMDR não faz desaparecer pessoas :=). Lembra-se da vida profissional agitada e de problemas com a filha? Pois, ambas as situações se agravaram grandemente nesta altura, por coincidência, e a Maria passou um período totalmente indisponível e, depois, bem, depois desapareceu mesmo. Por muito triste que fique com desistências de um processo terapêutico, o facto é que acontecem, pelos mais variados motivos. E a vida seguiu. Até que um dia…

Até que um dia, numa das raras ocasiões em que consigo dar uma fugida à rua para tratar de qualquer coisa, a encontro, mais de um ano volvido. Como está a filha? Como está a profissão? A vida tem-na tratado bem? E as respostas a encantarem-me, porque tinha tomado várias decisões que a beneficiavam, resolvido vários temas, e estava bem – “Sabe? “Estou mesmo bem”. E eu, aproveitando-me da conjugação favorável que os astros pareciam estar a ter, perguntei: “E a fibromialgia?”. “Fibromialgia???”, diz-me a Maria, aquele ar de espanto de quem procura na memória algo de inexistente. Estava uma sensação de pânico a crescer dentro de mim, pensando que me tinha enganado na pessoa, quando, de súbito, a resposta: “Ah! Isso! Nunca mais me lembrei do assunto! Pois, fizemos aquela coisa estranha, com estimulação bilateral e andámos a arrumar coisas do meu passado”.

Promessas de um dia irmos tomar chá, abraços e beijinhos, e voltei para o consultório, entre o intrigada e o divertida. Intrigada, por alguém se esquecer tão naturalmente de algo que foi central na sua vida durante uns anos; divertida por constatar uma vez mais o poder do EMDR tão natural, orgânico, respeitador da ecologia interna de cada um, que permite que uma situação como esta tenha sido ultrapassada ao ponto do esquecimento.

Então e o mistério? Ora, ora… Então não acha misterioso que uma simples terapia, ainda por cima usada pela metade, possa produzir efeito tão vasto, tão rapidamente e tão naturalmente?

Madalena Lobo

(Com os meus agradecimentos à Drª Teresa Chuva – teresamchuva@gmail.com; 916 933 029, de Viseu, psicóloga clínica também certificada em EMDR, e que fez com que eu me lembrasse desta história para lhe contar).

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