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Nuvens que querem calor

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Nuvens que querem calor

Nuno Mendes Duarte

Acordo há meses com nuvens na cabeça. Sim. Dentro da cabeça, espessas, carregadas, negras. Nuvens de tempestade, numa vida sem céu ou trópicos.

Dizem-me que tenho o ciclo da água avariado. Falta de calor no coração, insuficiência de irrigação no olhar e a água não sai do corpo.

  • E não tem arranjo? Sei lá, um canalizador das válvulas lacrimais…

O teu pai deixou-me um quarto vazio, no apartamento do céu

  • Quatro quartos vazios no coração, todos para alugar. E a parede do tórax com estalactites a crescer. Dá para acreditar?

Começam no teto da garganta. Como uma gruta fria que se estende ao esófago. Lágrimas que escorrem por dentro viradas para o chão. E congelam. As restantes acumulam-se na barriga até evaporarem.

Os adultos só podem chorar por dentro”.

  • Não quis ser fraca. Correu-me mal. Agora tenho lágrimas que são estalactites e vapor de água salgada retido na mioleira.

Sugeriram-me psicoterapia. Não percebo porquê, se o meu problema são nuvens na cabeça, como aquelas que toda a gente teme e corre para se abrigar. Espessas, carregadas, negras. Nuvens de tempestade tropical, para quem tem céu.

Diz-me o terapeuta que sofro de condensação da memória. E é isto.

Ciclo da água avariado. Acumulação excessiva de interrupção de tristeza na garganta.

Um engarrafamento geral de nuvens de tristeza que não se precipitam no caminho ocular.

  • Não percebo.

Algumas sessões, e um dia… As palavras dele embrulharam-me num calor tenso e o meu coração começou a acelerar. Quente, vivo, vermelho. E a água do tórax começou a escorrer mas, em vez de descer, subiu. E as gotas que treparam pela garganta, juntaram-se com as memórias do cheiro do borrego no forno, a tijoleira fria e a voz da minha mãe a criticar-me ao jantar.

Se não fosses tu, ele não me tinha deixado

Lágrimas penduradas em vertigem encostadas às pestanas. E, uma chuva de tristeza doída, esquecida, por viver. A cada lágrima encontro-me comigo. Fecho os olhos e deixo correr o rio de saudade do que não tive.

Abro os olhos e as nuvens da minha cabeça dissipam-se em rodopio no ar. E, dentro de mim, uma vergonha familiar. O riso da minha mãe quando eu começava a chorar.

Se acha que o podemos ajudar ou tiver dúvidas, marque consulta com um dos nossos especialistas.

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