Nuvens que querem calor

Acordo há meses com nuvens na cabeça. Sim. Dentro da cabeça, espessas, carregadas, negras. Nuvens de tempestade, numa vida sem céu ou trópicos.

Dizem-me que tenho o ciclo da água avariado. Falta de calor no coração, insuficiência de irrigação no olhar e a água não sai do corpo.

  • E não tem arranjo? Sei lá, um canalizador das válvulas lacrimais…

O teu pai deixou-me um quarto vazio, no apartamento do céu

  • Quatro quartos vazios no coração, todos para alugar. E a parede do tórax com estalactites a crescer. Dá para acreditar?

Começam no teto da garganta. Como uma gruta fria que se estende ao esófago. Lágrimas que escorrem por dentro viradas para o chão. E congelam. As restantes acumulam-se na barriga até evaporarem.

Os adultos só podem chorar por dentro”.

  • Não quis ser fraca. Correu-me mal. Agora tenho lágrimas que são estalactites e vapor de água salgada retido na mioleira.

Sugeriram-me psicoterapia. Não percebo porquê, se o meu problema são nuvens na cabeça, como aquelas que toda a gente teme e corre para se abrigar. Espessas, carregadas, negras. Nuvens de tempestade tropical, para quem tem céu.

Diz-me o terapeuta que sofro de condensação da memória. E é isto.

Ciclo da água avariado. Acumulação excessiva de interrupção de tristeza na garganta.

Um engarrafamento geral de nuvens de tristeza que não se precipitam no caminho ocular.

  • Não percebo.

Algumas sessões, e um dia… As palavras dele embrulharam-me num calor tenso e o meu coração começou a acelerar. Quente, vivo, vermelho. E a água do tórax começou a escorrer mas, em vez de descer, subiu. E as gotas que treparam pela garganta, juntaram-se com as memórias do cheiro do borrego no forno, a tijoleira fria e a voz da minha mãe a criticar-me ao jantar.

Se não fosses tu, ele não me tinha deixado

Lágrimas penduradas em vertigem encostadas às pestanas. E, uma chuva de tristeza doída, esquecida, por viver. A cada lágrima encontro-me comigo. Fecho os olhos e deixo correr o rio de saudade do que não tive.

Abro os olhos e as nuvens da minha cabeça dissipam-se em rodopio no ar. E, dentro de mim, uma vergonha familiar. O riso da minha mãe quando eu começava a chorar.

Autoria

Nuno Mendes Duarte
Nuno Mendes DuarteDirector Clínico
Psicólogo Clínico e Psicoterapeuta
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2017-03-06T19:16:56+00:00 Dezembro 14th, 2016|Depressão, Nuno Mendes Duarte, Psicoterapia, Reflexões|
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