O cérebro e a música

O cérebro e a musica

A área das neurociências tem vindo a ficar progressivamente entusiasmada com o que se começa a perceber em relação ao desenvolvimento cerebral dos mais pequenos quando aprendem um instrumento musical (e vamos manter presente que a voz é um instrumento musical também!).

Dou-lhe 10 razões que o devem convencer a levar os miúdos rapidamente para uma escola de música! E talvez a levar-se a si também 🙂

 

Melhora a memória verbal e a literacia infantil

Esperem… Estão a falar de música?? Mas o que é que a música tem a ver com a linguagem e as competências de leitura? Bem, a investigação científica tem vindo a demonstrar que a música e a leitura se encontram relacionadas, partilhando mecanismos neuronais e cognitivos. E, se os seus filhos andam com problemas na leitura e competências verbais, uma boa iniciativa de melhoria nesta área será ele começar a aprender um instrumento musical.

Damos-lhe um dado objectivo: o treino musical faz os miúdos 20% mais rápidos na identificação de sons linguísticos, que são a base das competências verbais e, o que é ainda mais interessante, esta melhoria mantém-se ao longo da vida.

 

Promove a neuroplasticidade ao longo de toda a vida

Ter aprendido a tocar um instrumento musical em criança vai afectar a sua saúde cerebral na idade adulta e na 3ª idade.

O treino musical produz alterações no cérebro, beneficiando e desenvolvendo algumas áreas que se mantêm ao longo da vida, mesmo que a música tenha sido abandonada entretanto. Mantém o cérebro com um funcionamento mais jovem durante mais tempo, sobretudo no que diz respeito à capacidade de processamento de sons, algo que vai declinando com a idade, e protegendo contra a degradação cognitiva inevitável com o somatório dos anos que passam.

 

Aumenta as competências de processamento multisensorial

O que significa que um músico tem uma maior capacidade para integrar a informação que lhe chega da audição, tacto e visão, o que é crítico para o desempenho da maioria das tarefas do dia-a-dia e ajuda na adaptação ao meio exterior.

 

Melhora a conexão da massa branca

O treino musical antes dos 7 anos de idade tem um impacto significativo no desenvolvimento do cérebro, e quanto mais cedo começar, maior a conexão. Sim, mas estou a falar em grego, verdade? Deixe-me explicar-lhe. O sistema nervoso central (cérebro e espinal medula) é composto por massa cinzenta e massa branca, cada qual com preponderância de determinadas partes dos neurónios, as células do sistema nervoso. Enquanto que a massa cinzenta serve para processar informação no cérebro, na massa branca encontram-se as grandes componentes condutoras dos neurónios, responsáveis por transmitirem os sinais à massa cinzenta.

Quem teve treino musical em criança mostra mais massa branca no corpo caloso, que é uma zona densa entre os dois hemisférios cerebrais e que permite a sua comunicação. E porque é que isso é importante? Para lhe poupar explicações técnicas sobre a especialização dos hemisférios cerebrais e, portanto a importância de uma óptima comunicação entre ambos, deixe-me apenas dizer-lhe que foi recentemente descoberto que o cérebro do Einstein se destacava precisamente nesta conexão de massa branca. E isto diz muita coisa, certo? 😉

 

E robustece a massa cinzenta

E quando a massa cinzenta é mais densa em determinadas áreas, como acontece quando se pratica um instrumento musical, o resultado é que os miúdos ficam com uma melhor capacidade de focar a atenção, de controlarem as suas emoções e a impulsividade, e diminuírem a ansiedade. Não é fantástico? Merece bem a paciência dos pais com aqueles sons desafinados lá em casa, enquanto eles vão dando os primeiros passos no instrumento musical da sua escolha ou em cantorias diversas 🙂

 

Aumenta a circulação sanguínea no cérebro

O treino musical, mesmo tão breve como 30 minutos a tocar, aumenta a circulação sanguínea no hemisfério esquerdo do cérebro, o que beneficia os processos cognitivos em que este hemisfério é perito. Por exemplo? O hemisfério esquerdo é a sede da linguagem, sabia? Além disso, gosta do que é positivo, é mais analítico, e é a zona cerebral que nos motiva a procurar a acção. Tendo isto em conta, não acha tão boa ideia tê-lo bem irrigado e, portanto, bem oxigenado e alimentado?

 

Melhora as funções executivas

As funções executivas referem-se aos processos cognitivos de nível superior, que nos permitem processar rapidamente e reter informação, regular os comportamentos (ou seja, limitando a impulsividade), que nos ajuda a tomar decisões e fazer boas escolhas, a resolver problemas, a planear e ajustarmo-nos às diferentes exigências mentais com que nos vamos defrontando.

Por tudo isto, não será surpresa sabermos que boas funções executivas são grandes preditoras do sucesso académico, mais do que o famoso quociente de inteligência. E o treino musical ajuda a desenvolver estas funções. Maus resultados escolares? Inclua a aprendizagem de um instrumento musical no currículo do seu filho!

 

Nivela origens socioeconómicas desfavorecidas

Sabe-se que miúdos de classes mais desfavorecidas têm maiores dificuldades académicas – há diferenças de desenvolvimento cerebral que fazem com que a sua capacidade de aprendizagem fique comprometida. Mas começam a surgir resultados que demonstram que o treino musical pode alterar o sistema nervoso de forma a criar melhores competências de aprendizagem, além de melhorar as competências de leitura e linguagem, nivelando este ponto de partida fundamental que irá determinar o restante percurso na vida. Dois anos de aprendizagem é quanto basta para lhes repor o seu potencial competitivo na escola

 

Um grande ponto a favor da guitarra, não lhe parece? Ou da flauta, do piano e mesmo da bateria 🙂

 

Melhorias que permanecem

Imagine que aos 14 anos se apaixonou por guitarra e passou os 10 anos seguintes a praticá-la. E os seus pais lá iam suspirando, pensando numa actividade de adolescente que lhe estava a retirar tempo para “as coisas importantes da vida”. Não poderiam estar mais errados! Porque o seu cérebro alterou-se – como vimos – e essas alterações mantiveram-se e vão estender-se até aos seus anos de prata e de ouro (estou a tentar não dizer: “até ser muito velhinho”!).

E isso vai ajudá-lo na capacidade de sociabilização. E a manutenção de uma boa actividade social na 3ª idade é, provavelmente, o maior factor protectivo contra a depressão que, nesta fase, anda de mãos dadas com o declínio cognitivo. UAU!

 

E, já agora, que aqui estamos a conversar, porquê?

Bem, a maioria das pessoas acha que a perda de audição é típica das pessoas mais velhas e a responsável por não ouvirem os outros. Certo? Errado! Sim, há perda de audição em muitos casos, mas a razão mais comum de dificuldades em “ouvir” o que se passa não se refere a temas de ouvido, mas sim a temas cerebrais. O cérebro vai criando ruído interno, à medida que maturamos (estou novamente a evitar dizer que envelhecemos…), tornando difícil distinguir as palavras e outros sons e sobretudo tornando difícil separá-los do ruído geral que se constitui num segundo plano. Vai ver que à medida que vai ficando menos jovem (estou mesmo a esforçar-me…) ouvir os amigos durante um jantar num restaurante cheio, por exemplo, começa a tornar-se progressivamente mais difícil; ou perceber o que lhe estão a dizer ao telemóvel. O responsável por isto é o acumular de décadas no cérebro (a ausência dos derivados de “envelhecer” está a correr-me bem, não está?). E o resultado mais provável é que começa a retrair-se e a conviver cada vez menos, que sempre vai evitando a frustração de não estar a perceber metade do que lhe estão a dizer. E com o isolamento vem a depressão. E com a depressão vem a retirada de actividades que o desafiam e, logo ao virar da esquina, a degradação cognitiva.

Tem filhos adolescentes que poluem o silêncio da casa com uma banda infernal? Deixe-os! Têm maior probabilidade de virem a ser velhinhos em melhor forma 🙂 (agora teve de ser, desculpe…)

 

E até os bebés…

Há uma janela de oportunidade importante entre os 6 e os 8 anos, para os miúdos aprenderem a tocar um instrumento musical, falando de um ponto de vista de desenvolvimento cerebral. Mas vimos que, quem comece na adolescência, também recolhe benefícios importantes. E agora tenho a dizer-lhe que até bebés beneficiam com lições de música! Mesmo antes de saberem falar ou andar, a participação em aulas interactivas de música melhora as competências de comunicação, como apontar para objectos e dizer adeus. E não só – os bebés que participaram nestas aulas tendiam a sorrir mais e a ser acalmados mais facilmente.

 

E chegamos àquela parte em que já estamos todos a pensar: então e eu? Eu, que sou um adulto e que nunca toquei nada, nem gaita de beiços… Também posso começar agora a tocar umas coisas e ficar com um cérebro de fórmula 1?

 

Sabe o que lhe digo? Gostava tanto de lhe saber responder a esta pergunta… Mas não consigo encontrar dados científicos que o permitam afirmar, pelo menos, por enquanto. Marcamos encontro para daqui a uns anos, pode ser? E entretanto, deixo-lhe esta ideia: em qualquer idade pode aprender uma competência nova e qualquer competência nova desenvolve o cérebro. Por isso vamos lá! Na ausência da ciência, fiquemo-nos com a fé… na lógica. Se gosta de música, vá aprender porque o mais provável é que, além do prazer que lhe vai dar, também contribua para a saúde e juventude do seu cérebro!

Autora: Madalena Lobo

 

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Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde
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2017-03-05T18:24:40+00:00 Julho 1st, 2016|Desenvolvimento Pessoal, Madalena Lobo, Reflexões|