O gato e a zanga

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António Norton

António Norton

O que é que um gato tem a ver com a zanga?

Pensemos num gato.

Eu quando penso num gato penso sempre num animal fofo, terno, doce, que ronrona, que se delicia com as minhas festas e com as minhas caricias.

Imagino que também veja assim o gatinho. E quando os gatos gostam de festas são muito fieis na forma como demonstram esse mesmo apreço. Mas certamente já ousou fazer festas em zonas em que o gato subitamente revela o seu desconforto. Nesses momentos o que é que acontece? As suas unhas saltam para fora, e o gato executa um movimento rápido e preciso para afastar a mão indesejada daquela zona de desconforto. E levamos um valente arranhão!

 

Se continuarmos com “a brincadeira” é possível que o gato comece a emitir um estranho som que revela o seu desagrado e, da próxima vez, será ainda mais acutilante a sua defesa.

 

Ou seja, quando o gato sente que alguém está a ousar entrar na sua zona de desconforto zanga-se e defende-se. Usa a sua zanga e mobiliza recursos (saca das garras) para se defender.

Usa a zanga…

Isso faz dele mau? Não simplesmente faz dele um animal que se procura adaptar ao meio que o rodeia e proporcionar espaços de conforto a si mesmo.

Então a zanga é negativa? Não! É simplesmente adaptativa.

Zangar-se é importante. Justamente para se poder defender, tal como o gato o faz.

Se levar uma arranhadela é provável que não o continue a chatear.

Nós, quando somos crianças, usamos adaptativamente a nossa zanga para nos defendermos. Vimos munidos dessa emoção e fazemos simplesmente uso dela. E o que acontece?

O que acontece é que muitas vezes os nossos pais, ou outros agentes educativos ensinam-nos que a nossa zanga deve ser censurada, criticada, punida e repreendida e então escondemos este recurso emocional tão importante. Escondemos a nossa zanga e perdemos uma ferramenta fundamental para nos podermos confrontar eficazmente com pessoas que possam estar a abusar de nós, como por exemplo os nossos próprios pais.

Dá-se uma aprendizagem implícita ou explicita de que a zanga é errada, que não é correto nos zangarmos… que não se fala assim com os pais, os avós ou outras figuras de autoridade e lentamente vamos suprimindo a nossa zanga…

 

Quando penso em tudo isto recordo o que Jesus fez quando soube que havia mercadores na Igreja. Jesus veio trazer o amor e o perdão… Mas sabe o que ele fez? Acedeu à sua zanga e expulsou os vendedores da Igreja

Portanto, usar a zanga é importante e positivo, mas naturalmente deverá ser usada de uma forma eficaz e pontual.

Em relação ao uso da zanga existem duas situações em particular que merecem atenção clínica: Em ambas as situações nós, psicólogos, dizemos que ocorre uma desregulação emocional face à exteriorização da zanga.

Falemos então brevemente destas duas situações:

 

Zanga ausente ou praticamente ausente: Quando não consegue aceder e exteriorizar a sua zanga, quer verbalmente (através do uso das palavras, ou da ênfase com que as diz), quer através de comportamento não-verbal, com, por exemplo ausência de gestos vigorosos, que denunciam a tensão muscular resultante da sua zanga. Se não é capaz de aceder à sua zanga,  então, não se conseguirá confrontar com pessoas que, ao se aperceberem da sua incapacidade de expressar a sua zanga poderão abusar de si.

Zanga continuamente presente: Se está num estado de desregulação emocional em que se sente extremamente zangado e incapaz de regular, contextualizar e moderar o nível de intensidade da sua zanga então correrá o risco de criar contínuas relações pessoais de conflito, que poderão minar várias áreas da sua vida, como a familiar, amorosa ou profissional.

Em qualquer destas situações de desregulação emocional é aconselhável consultar um psicólogo clínico.

Lembre-se que a zanga é sua amiga, mas deverá usá-la de uma forma contextual e pontual, tal como o gato faz quando lhe informa que não gosta que lhe faça festas em alguns sítios do seu corpo. Se respeitar o gato ele guardará as suas unhas e voltará a ronronar placidamente.

Penso que vale a pena pensar nisto.

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