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O luto, a perda e a transformação

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Joana Fonseca

Joana Fonseca

O francês Antoine Lavoisier foi reconhecido por ter encontrado o princípio da conservação da matéria, a propósito do qual disse a famosa frase: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Embora para a química este princípio possa ser verdadeiro, será também para a psicologia? Será que aquilo que criamos nasce do nada? E será que o que perdemos também se torna nada? Será que falando do que se perde, do ponto de vista da psicologia, podemos falar em transformação? Será que o luto pode ser uma oportunidade de transformação?

O luto é a reacção a uma perda significativa. A perda associada ao luto pode ser de alguém ou de algo (real), ou pode ser de algo simbólico, como um ideal ou uma competência (Barbosa, 2006)[1]. O luto define-se como um processo e não um estado. Existem várias fases, distintas entre si, e diferentes também consoante as características pessoais.

São três as fases do luto (Barbosa, 2006). A primeira caracteriza-se pela sensação de choque e de negação – é a fase da descrença. É natural que a pessoa encontre incredulidade, podendo reagir com algum embotamento (torpor) afectivo. É uma fase onde ainda há a procura. A segunda fase do luto acontece quando a pessoa se desorganiza e experimenta o desespero. É onde se toma consciência da perda, reagindo com choro, tristeza, desgosto, depressão, entre outras reacções. Por fim, numa terceira fase já é possível uma reorganização e recuperação. Acontece o restabelecimento.

Para resolver um luto é necessário passar por ele (por todas as fases). É necessário permitir-se experimentar todas as emoções associadas à dor do luto, para que depois exista espaço para novas emoções como o amor, a saudade, a alegria, a tristeza, entre outras. Passa a ser possível recordar sem sofrimento intenso e constante.

O luto pode também trazer maturidade. Tanto a alegria das conquistas e criações como a dor do luto fazem parte da vida. Quando se perde alguém ou algo significativo, há também a sensação de perda do self. Este “espaço” interior perdido pode permanecer vazio, ou dar oportunidade a novos significados. É aqui que pode acontecer a transformação, adaptativa ou não. Talvez sempre que se passa por um luto algo se transforme, pois ninguém fica igual depois de uma perda. Há sempre diferença, e por isso há transformação.

Faz sentido que a mesma verdade para a química possa ser verdade para a psicologia. Isto porque o que se perde não desaparece, não vai para o nada. Não só quando perdemos algo ou alguém a memória permanece, como a mudança na dor traz sempre uma transformação. Se essa transformação é adaptativa ou não, depende de cada um e da sua resiliência. Assim, pode dizer-se que… nada se perde, tudo se transforma.

 


[1] Barbosa, A. (2006). Luto. In Barbosa A. & Neto I.G. (Eds.), “Manual de Cuidados Paliativos”. Lisboa: Núcleo de Cuidados Paliativos/Centro de Bioética/Faculdade de Medicina de Lisboa.

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