O luto do que não vivi

Luto do que não vivi

“Estou triste mas não tenho razões para estar! Por isso tento disfarçar. Não faz sentido estar triste se não perdi nada! Há coisas que gostava se ter e não tenho! Gostava de ser diferente e não sou! Mas ultimamente não morreu ninguém, nenhuma relação terminou, não tive nenhuma desilusão, não fiz nada de errado, … nada mudou! Então porque estou tão triste?”

Muitas vezes fala-se de luto, já todos os seres humanos perderam alguém, um sonho ou algo importante. Com certeza, já compreendeu o conceito de luto quando perdeu alguma coisa, ou no momento em que perdeu alguém, ou uma relação terminou, ou quando ouviu um não, ou quando mudou de cidade, entre muitas outras coisas concretas que se podem perder.

Mas, e o luto do que não se viveu? E quando o tempo passa e não conseguiu conquistar algo que queria muito? E quando de repente se aperceber de que não está a viver o que gostava, ou como gostava?

E quando se perde o que não se chegou a ter ou ser?

A confusão instala-se, muitas vezes, quando não se percebe a tristeza e o luto. As fases de um processo de luto são: Negação (1ªfase); Zanga (2ªfase); Tristeza (3ªfase); Aceitação (4ªfase). Todas as tarefas psicológicas destas quatro fases se aplicam também a um processo de luto por algo que não aconteceu. Exemplificando, alguém que por dificuldades económicas aceitou uma oferta de emprego que não o realiza, pode ser alguém que vive triste ou zangado por sentir que está a desperdiçar os seus talentos. Neste caso, não houve uma perda de emprego, e podem nem existir dificuldades económicas, mas a pessoa estar a viver o luto da profissão que o faria sentir-se realizado e feliz. Outro exemplo, quando alguém para e repara que se passaram três anos desde um namoro anterior, três anos onde não houve capacidade de aproximação, pode ser também um luto da perda de um tempo, de oportunidades ou de uma fase de vida. Por isso pode não estar a acontecer “nada de mal” e a pessoa sentir uma tristeza profunda ou solidão.

Um processo de luto interrompido ou incompleto é aquele que ficou estagnado numa das três primeiras fases do processo de luto e nunca chegou à fase da Aceitação (4ªfase). Para se fazer um processo de luto completo é necessário que a pessoa aceda, isto é, entre em contacto, e se permita sentir cada uma das emoções presentes em cada fase. Por exemplo, quando morre alguém a pessoa pode racionalmente saber que a pessoa morreu, mas emocionalmente não conseguir despedir-se, e por isso ficar estagnado na fase da Negação (1ªfase). No mesmo exemplo, se existir algum assunto inacabado (mal resolvido) com o ente querido que faleceu, e se a pessoa, por culpa ou remorsos, não for capaz de sentir zanga, isto é, de se proteger e expressar o que sente, pode ficar preso na fase da Zanga (2ªfase). O mesmo pode acontecer quando alguém diz, por exemplo, “não posso chorar nem estar triste porque tenho de tomar conta de muitas pessoas e porque tenho de seguir com a minha vida”. Não é obrigatório chorar, mas para se passar a fase da Tristeza (3ªfase) é necessário aceder à tristeza, pois esta é organizadora e libertadora.

Quando se perde o que não se viveu, também é necessário passar por estas quatro fases do processo de luto. Alguém que está em negação em relação ao facto de não estar a viver o que a faria mais feliz fica preso na primeira fase do processo de luto. Quando uma pessoa não se zanga com o que “não está a acontecer”, ou com o que “não aconteceu numa fase de vida”, fica sem capacidade de se mover para uma mudança ou para uma aceitação. Sentir tristeza é essencial para ser chegar à aceitação e, consequentemente, à capacidade de imaginar um futuro melhor e criar novos objetivos.

Assim, quando sentir tristeza pergunte a si próprio que necessidade está por trás dessa tristeza, permita-se sentir sem julgamento, e pergunte a si próprio se não estará a “viver o luto do que não vivi”.

Joana Canêlhas da Fonseca
Joana Canêlhas da FonsecaPsicóloga Clínica
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2017-04-12T14:25:48+00:00 Setembro 10th, 2016|Autor(a), Desenvolvimento Pessoal, Emoções, Joana Fonseca, Luto|