O meu filho tem tiques

Vera Lisa Barroso

Vera Lisa Barroso

Um tique pode ser qualquer movimento motor que ocorre de forma frequente, de forma súbita e rápida, mas pode também ser uma vocalização que surge sem controlo. Apesar destes movimentos serem mais comuns na face – piscar os olhos, franzir o nariz ou a testa, morder os lábios, fazer estalidos com a língua… eles podem ocorrer em qualquer parte do corpo – esticar o pescoço, elevar ombros, contrair a barriga ou fazer gestos involuntários com as mãos ou braços, entre outros.

Tal como os movimentos motores, os tiques vocais podem ir de simples sons sem significado (como um simples desobstrução da garganta), a sons parecidos com algo existente na natureza ou mesmo alterações no discurso e linguagem como o ênfase ou volume do discurso, repetição de sons ou palavras, inclusão de palavras ou frases (algumas poderão ser mesmo de carácter insultuoso).

Para além da divisão em tiques simples ou complexos de acordo com o número de músculos envolvidos, as perturbações de tiques podem ser divididas em 3 tipos:

  1. Perturbação Gilles de la Tourette – duração superior a 12 meses, coexistindo vários tiques motores e pelo menos um vocal;
  1. Tiques motores ou vocais crónicos – duração superior a 12 meses, por vezes associados a défice de atenção e hiperactividade, que são apenas motores ou vocais;
  1. Tiques transitórios – tiques motores e/ou vocais com duração de pelo menos 4 semanas mas não mais de 12 meses consecutivos;

Podem começar por volta dos 2 anos e prolongar-se por toda a infância até início da adolescência ou mesmo toda a vida, com fases de remissão (de semanas até anos). Por norma surgem sempre antes dos 18 anos.

Os tiques atingem especialmente os jovens – infância e adolescência – com uma taxa de incidência de cerca de 25%, sobretudo entre os 6 e os 10 anos. Geralmente desaparecem  antes da adolescência, mas podem voltar em momentos de maior ansiedade e stress.

Raramente aparecem antes dos 6 anos porque, até esta idade, as crianças têm grande liberdade de expressão, sendo-lhes impostas restrições motoras e vocais apenas quando entram para a escola, por volta desta idade.

Nas origens da perturbação temos aspectos emocionais e orgânicos, como uma predisposição genética (alteração na transmissão de serotonina – neurotransmissor responsável pelo controlo dos impulsos), abuso de substâncias ou doenças do foro neurológico (Doença de Huntington, encefalite pós-viral, etc.). Os tiques de origem emocional podem surgir associados a situações traumáticas, servindo como alívio.

Geralmente os tiques diminuem ou interrompem-se durante o sono, embora haja excepções, podendo algumas pessoas acordarem com um tique!

Os mais pequenos e às vezes até alguns adultos não estão conscientes dos seus próprios tiques, contudo com o seu desenvolvimento, muitas pessoas sentem um impulso ou sensação corporal que antecede o tique motor ou vocal e uma sensação de alívio ou de diminuição de tensão após a sua expressão. Algumas pessoas poderão até sentir a necessidade de repetir a realização de um tique complexo até sentirem que este foi realizado correctamente, conseguindo diminuir a tensão ou ansiedade.

 

 

O que fazer?

 

A gravidade de um tique relaciona-se com a forma como este condiciona a pessoa biológica, psicológica e socialmente.

Se uma criança começa a desenvolver tiques, os pais deverão conversar com ela, tranquiliza-la e dizer-lhe que provavelmente após alguns meses irão cessar. Deve ignorá-los, não recriminar, nem fazer nenhum tipo de observação sobre o tema.

No caso de tiques de longa duração é conveniente informar os sintomas aos professores, explicando que não se trata de nenhum tipo de provocação a ninguém. Quando são muito intensos que incomodam a criança ou comprometem os seus contactos sociais e desempenho escolar é fundamental procurar ajuda especializada. Quanto mais precoce for a intervenção, melhores serão as possibilidades de recuperação.

É muito importante não repreender, mostrar irritação, gozar ou comentar com outras pessoas, mesmo que o seu filho o enerve muito. Pelo contrário, deve promover a sua auto-estima!

2013-03-16T12:41:04+00:00 Março 16th, 2013|Crianças & Pais, Vera Lisa Barroso|