Os sentidos que nos mudam o sentir

Os sentidos que mudam o sentir

“Olha que a tua conversa sobre escolhas, já começou a funcionar :)”

“E funcionou bem, espero?”

“Ah sim! 🙂 Há anos que me irrito com o facto de a minha sogra insistir em regras de educação aos meus filhos com que eu não concordo. Pois esta semana, na primeira vez que isso aconteceu, parei um pouco para olhar para a questão de todos os ângulos que me lembrei. E, depois de reflectir, percebi que me irrito porque encaro estas discordâncias como uma espécie de braço de ferro, em que só uma das duas pode ganhar, e quem ganha é quem é a “melhor mãe”. No fundo, irrito-me porque me sinto insegura… E também percebi que ela insiste em continuar a lidar com os miúdos daquela maneira apenas porque isso também a faz sentir que a experiência que tem é valiosa e útil. Por isso, pela primeira vez, senti-me muito menos irritada!”

“E com as emoções mais tranquilas, conseguiste descobrir uma forma “ecológica” de levares a água ao teu moínho?”

“Ah, pois consegui 🙂 De facto, quando conseguimos acalmar o novelo emocional, conseguimos maior clareza de raciocínio. Consegui ter a calma suficiente para debater com ela as vantagens e desvantagens das nossas duas abordagens e chegarmos a um consenso que me parece, até, melhor do que as minhas soluções pessoais”

“Boa! Espero que com esse sucesso, te vás lembrando de fazer a mesma coisa em várias circunstâncias da tua vida que te estejam a incomodar”

“Vamos lá! Pelo menos, estou com uma expectativa positiva 🙂 E como hoje prometi aos miúdos que íamos dar um grande passeio, que tal dares-me uns exemplos rápidos sobre aquela questão dos sentidos e do impacto que têm em nós, por transportarem cá para dentro experiências do mundo?”

“Então, toca a recordar o que aprendemos na escola primária e vamos falar dos 5 sentidos – visão, audição, olfacto, paladar, tacto. Começamos pela visão e aquilo que pode fazer pelo nosso bem-estar mais imediato?”

“Comecemos!”

“Aquilo que vemos afecta profundamente a forma como nos sentimos e, muitas vezes, esquecemo-nos disso e tornamo-nos demasiado relaxados com a composição que nos rodeia. Coisas simples: sabias que a cor verde, por exemplo, nos ajuda na motivação e na criatividade? E que o azul reforça a nossa tranquilidade? E que o amarelo nos transmite alegria? É fácil fazer coisas tão simples como estarmos atentos à forma como reagirmos a diferentes cores e usá-las no nosso meio ambiente de acordo com o nosso bem-estar. Colocar uma pequena planta verde na nossa secretária, optar por um determinado esquema de cores nas nossas roupas de acordo com o estado de espírito ao levantar, ou escolher as cores com que decoramos a casa depois de ter observado como reagimos em diferentes ambientes – temas simples, que fazem uma diferença real.”

“Ah, sim, tens razão. As cores com que nos rodeamos é uma questão que vai muito mais além das nossas preferências estéticas; podem activar-nos o sistema nervoso, criar tensão ou energia, ou acalmar-nos e serem propícias ao relaxamento de espírito e corpo”

“E ainda no que diz respeito à visão, um ambiente sobrelotado, cheio de coisas e desorganizadas, sobrecarrega o sentido da visão e cria uma pequena sensação de cansaço e confusão internas, por isso é uma boa ideia tirar uns minutos diariamente para arrumações :)”

“Aí já me estás a dar trabalho! 🙂 E parece-me que li que o contacto com a natureza, se calhar por causa do verde (!), é muito relaxante. Perto de onde trabalho há um pequeno parque e comecei a ir lá dar uma volta, sempre que o tempo permite, depois do almoço e, realmente, recarrega baterias!”

“Tens toda a razão: natureza, verde, fazer uma pausa, mudar o cenário, fazer um pouco de movimento… Bastam 10 ou 15 minutos para baterias novas :)”

“Então a audição? Li num sítio qualquer que ouvir Mozart é que era!”

“Se te reconforta e gostas! 🙂 O problema é que há alguns estudos que se tornam virais mas, infelizmente, descontextualizados e apenas com conclusões simplistas, e induzem as pessoas em erro. O que se pode dizer, a propósito de música, é que a música mais harmónica, como muita da clássica, mas não só, é potencialmente mais indutora de serenidade e de algum “alinhamento cerebral”. E também que o tom emocional da música nos consegue colocar nesse tom geral: uma música triste, deixa-nos melancólicos e uma música bem-disposta deixa-nos naturalmente mais animados. Por isso, convém escolher a música mais de acordo com o estado emocional que queremos criar dentro de nós e menos com base em preferências intelectuais. Mas também os sons da natureza podem ser muito calmantes: temos é de focar a atenção neles – o som da brisa nas folhas, o som dos pássaros a voar ou a chilrear, o som dos nossos pés em contacto com o terreno que pisamos…”

“Então e os barulhos irritantes e poluidores? É que é disso que mais há na cidade…”

“E são, de facto, fortes poluidores do bem-estar. Sugestões? Colocar uma música de fundo que os compense, tentar manter algum isolamento acústico nos espaços que habitamos, ir fazendo pausas em locais sossegados, sempre que possível. E vê lá se te vais lembrando de mais alternativas – e depois, conta-me 🙂 Já em relação ao paladar é muito mais fácil controlarmos aquilo a que nos expomos. E, em relação a esse sentido, pouco mais te consigo dizer do que duas pequenas coisas: uma é que a chamada comida de conforto, conforta mesmo 🙂 Às vezes, e desde que não tenhamos um problema alimentar, é uma boa ideia recorrer a qualquer coisa que nos conforte as papilas gustativas: o chocolate quente num dia frio e húmido reconforta qualquer alma, por exemplo. Mas cuidado com os abusos, porque recorrer à alimentação para compensar desequilíbrios internos temporários pode dar mau resultado…  E, a outra coisa, é que o paladar pode ser uma porta de entrada, das várias disponíveis, para irmos mantendo a juventude de espírito.”

“Ora essa!”

“Verdade! À medida que vamos avançando em maturidade – que sempre é uma forma mais simpática do que dizer “envelhecendo” – vamos rigidificando gostos e preferências, a todos os níveis; um pouco como se se fossem fechando janelas de oportunidade para novas experiências. Uma das milhares de formas como podemos ir acrescentando regularmente flexibilidade interna é irmos experimentando novos paladares, novas gastronomias e novas combinações. Vês? Comer diferente ajuda a manter a juventude :)”

“Está bem, mas eu traço o meu limite nos gafanhotos fritos, sim? LOL”

“Todos temos os nossos limites 🙂 Mas, felizmente, vão mudando ao sabor da cultura. Aqui há uns anos atrás, qualquer ocidental ficaria muito nauseado com a ideia de comer peixe crú e agora há filas para sushi 🙂 E o tacto? Um grande acesso ao mundo, que a pele do nosso corpo tem cerca de 2m2. Como a conversa já vai longa, digamos que o toque é fundamental – aliás qualquer mãe, em qualquer parte do mundo, sabe disso; é instintivo, o toque a um bébé ou criança como forma de comunicação básica, primária. Depois, vamos ficando adultos e presos às convenções sociais que governam a nossa cultura e perdemos oportunidades de bem-estar, se bem que nós, latinos, nem nos podemos queixar muito quanto a isto. É só bom ter presente que tocar os outros faz bem a ambas as partes e reforça as relações interpessoais. E, se não te apetecer tocar ninguém, faz muitas festas ao teu bicharoco de estimação – também há estudos a demonstrarem que ajuda a baixar o stress.”

“O meu Tareco vai agradecer 🙂 E não fujas já, que ainda nos falta falar do olfacto”

“Ah! Pois, o olfacto. Um autêntico rei dos sentidos porque afecta zonas muito primitivas do cérebro, muito puramente emocionais. É um sentido fascinante a ainda há imenso para descobrir sobre a sua função nos seres humanos. Deixa-me ver uma coisa rápida, a propósito do olfacto e do bem-estar… OK: uma das formas mais poderosas de trazer uma emoção à tona é através de um cheiro que lhe ficou associado. O cheiro do bolo a sair do forno? O cheiro da relva acabada de cortar? Um determinado perfume que associamos a alguém importante? Formas rápidas de nos reconectarmos com emoções e as recriarmos no momento presente. E agora já me deixas ir acabar de ler o meu livro? E talvez refrescar-me com um bom mergulho? :)”

 

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde
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2017-03-05T17:50:52+00:00 Agosto 24th, 2014|Desenvolvimento Pessoal, Madalena Lobo|