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Perturbação de personalidade Estado-limite

O que é a Personalidade Borderline?

Encontra-se entre o tipo de personalidade mais amplamente estudado em psicologia, em virtude das suas características tão amplas, desafiadoras e peculiares.
Os traços borderline na personalidade denotam a presença de um padrão global de instabilidade na forma habitual de funcionar que afecta as relações com os outros, a imagem que tem de si e os afectos, bem como o comportamento, no qual existe um reduzido controlo de impulsos. Essa instabilidade está provavelmente a ter um impacto negativo no seu dia-a-dia numa variedade de contextos, nos domínios social, familiar e profissional. Como resultado dessas especificidades na sua maneira de pensar, sentir e agir, poderá sentir um grande desconforto ou sofrimento pelo rumo que a sua vida está a tomar. Parece que uma enorme desorganização e caos se instalaram, nada tem um objectivo ou sentido.

Está por isso convidado a continuar atento e a perceber por si mesmo se os exemplos partilhados se aproximam da experiência subjetiva vivenciada nos últimos tempos.

Se, por um lado, talvez se sinta frágil e vulnerável, por outro lado, talvez creia que o mundo parece ser um local mau, perigoso e as pessoas não são de confiança. Por vezes, chega mesmo a questionar a utilidade de confiar em si próprio(a), em atender ao que sente que precisa ou quer e em que é capaz de cuidar sozinho(a) de si.

As relações estabelecidas com os outros, apesar de muito intensas, poderão ser particularmente instáveis, marcadas por desapontamentos. Poderá criar, com as pessoas de quem se aproxima, laços de uma dependência muito forte, pois deseja ser cuidado(a), amado(a) e confiar nesses. A pessoa a quem se liga torna-se uma figura sem defeitos, que se reveste de uma grande importância, que se torna o seu apoio emocional. Esta relação de dependência dará origem a uma necessidade de atenção e cuidado permanente, a qual é particularmente intensa. Porém, receia paralelamente essa dependência, teme confiar nessa pessoa que tanto ama, pois sente um medo terrível de ser abandonado(a). Tudo isto porque é particularmente doloroso e difícil lidar com a perda ou abandono de pessoas significativas (por exemplo, término de relação amorosa, morte, ausência temporária de pessoa importante). Assim, quando sente que há um afastamento, por mais pequeno que seja, este amor transforma-se numa zanga profunda, em ressentimento.

Encontra-se bastante sensível a qualquer comportamento que possa ser percebido como rejeitante: um atraso a um encontro, um esquecimento de telefonar, uma desmarcação ou até uma ausência por doença ou férias de uma pessoa importante, mudando rapidamente de opinião acerca daqueles que ama. Como se em determinados momentos essas pessoas significativas pudessem ser vistas como sensíveis, cuidadores e protetoras, merecendo ser intensamente amadas, mas noutros momentos, o fizessem sentir negligenciado e traído, o que desperta em si um ódio ou zanga profunda. Isso é compreensível pois, provavelmente, antecipa que a tão indesejável e insuportável rejeição se venha a concretizar. Há por isso que evitá-la a todo o custo. Nesses momentos, podem surgir explosões de raiva e violência difíceis de controlar, com exigência de melhor cuidado e dedicação que o outro sente como exagerado e raramente compreende, ao mesmo tempo que expressa uma intensa frustração.

Manter um estado de humor estável é particularmente difícil. É frequente que, de forma repentina e sem explicação, dê por si a sentir-se angustiado(a), irritado(a) ou apático e noutros momentos cheio de energia e eufórico.

As relações com o sexo oposto podem ser provavelmente numerosas e breves. Deseja incessantemente relações românticas significativas e próximas. Quando deixado(a) sozinho(a), sente um vazio profundo e uma solidão intolerável. Provavelmente, será difícil para si encontrar estabilidade interior, pois parece sentir tédio sempre que a sua vida encontra maior serenidade ou tranquilidade. Numa procura incessante de emoções e agitação, talvez de uma forma impulsiva se envolva em consumos excessivos de substâncias, atividade sexual arriscada e com múltiplos parceiros, condução imprudente, ou até gastos financeiros excessivos.

Em certos momentos poderá sentir culpa, vivenciando episódios de e , o que talvez leve a que se envolva noutro tipo de comportamentos auto – destrutivos. Incapaz de lidar com a dor sentida na sequência de situações que percepciona como formas de abandono, rejeição ou de retirada de investimento emocional, debaixo de um profundo desespero, poderá apresentar gestos de violência direcionada contra si próprio(a). Esses comportamentos podem envolver a auto – mutilação do seu corpo, por corte ou queimadura, e, em casos limite, tentativas de suicídio.

A sua identidade, a imagem ou sentimento que possui de si próprio(a), parece ser marcada por uma instabilidade e indefinição persistente. Talvez por momentos não saiba quem é, deseje ser diferente de quem é, ou não queira estar como e onde está. Os seus objectivos de vida e valores são frequentemente variáveis, o que pode por exemplo conduzir a alterações repetidas nas preferências vocacionais ou até no emprego.

Durante períodos de stress, esta desagregação interna e externa sentida torna mais propícia uma alteração plena e realista da consciência no aqui e agora. Talvez tenha a sensação de que, por momentos, é um simplesmente um observador que assiste do exterior aos eventos e acontecimentos da sua própria vida.

Estima-se que a presença de traços borderline na personalidade encontra-se em cerca de 2 % da população em geral e em 30% a 60% da população com perturbações de personalidade. Ressalta-se que é mais frequente no sexo feminino e em familiares diretos com a perturbação. Há um aumento de risco familiar para perturbações relacionadas com substâncias, perturbação anti-social da personalidade e perturbações de humor.

Poderão estar todos ou apenas cinco dos sintomas mencionados:
(1)    esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginado;
(2)    um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização;
(3)    perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou do sentimento de self;
(4)    impulsividade em pelo menos duas das áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (por ex. sexo, gastos financeiros, abuso de substâncias, condução imprudente, comer compulsivamente);
(5)    recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento de automutilação;
(6)    instabilidade afectiva devido a acentuada reatividade do humor (por ex. episódios de intensa disforia, irritabilidade ou ansiedade, geralmente durando algumas horas e apenas raramente alguns dias);
(7)    sentimentos crónicos de vazio;
(8)   raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva (por ex. demonstrações frequentes de irritação, raiva constante, agressões corporais recorrentes);
(9)    ideação paranóide transitória e relacionada com stress ou sintomas dissociativos.

As origens destes traços de personalidade continuam a ser alvo de intenso estudo. Coloca-se a possibilidade de haver influência genética no seu desenvolvimento que, por sua vez, têm impacto na forma como o nosso cérebro se desenvolve, o que irá influenciar o nosso funcionamento psicológico.

O ambiente no qual a criança cresceu, a forma como se relacionou e foi cuidada pelas suas figuras significativas, vai em parte modelar a forma como o futuro adulto pensa acerca de si, do mundo e acerca dos outros, bem como as estratégias adoptadas para lidar com as adversidades e regular de uma forma satisfatória as suas necessidades psicológicas vitais. De certa forma, quando somos pequenos, aprendemos quem somos, quem são os outros e o que é o mundo, a partir daquilo que o mundo nos mostra e como somos cuidados.

Parece haver consenso de que histórias de vida marcadas por uma grande confusão e instabilidade, especialmente se houver presença de violência sexual por parte de membros da família. O ambiente familiar, provavelmente, terá sido  marcado pela alternância entre carinho e manifestações de afecto e  momentos de violência e abandono. Poderá ter sido negligente ou promotor de abusos emocionais e verbais. Esta instabilidade externa, esta confusão e ambivalência não permitem que a criança dê sentido ao mundo, o que leva a que possa ter mais dificuldade em criar um mundo interior estável.

Outra característica presente é a dificuldade em regular de uma forma funcional as suas emoções, que embora associada a predisposições biológicas, poderá também ser exacerbada por um ambiente familiar invalidante, em que a sua vivência emocional era ignorada, punida ou inaceitável. Isto é, talvez desde bem pequenino(a) tenha aprendido a desvalorizar, evitar ou inibir as suas emoções, interesses e necessidades, pois aprendeu que esses frequentemente não eram atendidos, cuidados e valorizados por parte daqueles de quem esperava cuidado, proteção e amor incondicional. Poderemos falar de famílias com ambiente caótico – em que existem problemas relacionados com o abuso de substâncias, problemas financeiros ou pais pouco presentes, em que pouco tempo e atenção é dada à criança. Também famílias perfeccionistas – em que os pais devido a inúmeros factores não conseguem tolerar a reação emocional negativa (por exemplo, tristeza, zanga) por parte dos seus filhos. Ou até em ambientes típicos das sociedades modernas – em que é dada uma ênfase exagerada e rígida no controlo de emoções, foco na realização e mestria como critério de sucesso. Por isso, agora enquanto adulto, é particularmente difícil reconhecer, expressar e regular as emoções sentidas, validar e “dar colo” às suas necessidades de uma forma satisfatória, tolerante e aceitante.

Face a este padrão de comportamentos, emoções e cognições, é provável que dê por si a reconhecer pelo menos alguns destes sinais em si próprio, ou até mesmo em alguém que lhe é muito querido. Se assim for, procure ajuda quanto antes. É possível, com ajuda especializada, cuidar da forma mais adequada destas fragilidades que tanto sofrimento lhe podem estar a causar ou ter vindo a causar ao longo da sua vida. A psicoterapia pode ser uma fonte de ajuda particularmente enriquecedora e útil.

 

Como intervir?

O acompanhamento individual é a melhor forma de criarmos um espaço em que se possa sentir seguro, compreendido e ajudado na procura de um maior alívio para as suas dificuldades. Tudo isto para que possa adquirir maiores graus de liberdade e bem-estar na sua vida ao mesmo tempo que aprende a gerir, reduzir ou estabilizar as suas vulnerabilidades e fragilidades. Nesse espaço, pretende-se:
•    Aumentar a consciência sobre padrões de pensamento, comportamento e emoção não adaptativos, construindo novas formas de pensar, agir e sentir mais satisfatórias;
•    Compreender a sintomatologia descrita à luz de acontecimentos da sua história de vida passada, presente e futura;
•    Diminuir o caos relacional, aumentando as competências de eficácia interpessoal em situações de conflito;
•    Diminuir a instabilidade emocional, promovendo competências de regulação das emoções, controlo da raiva e de mudanças repentinas de humor;
•    Desenvolver competências de controlo dos impulsos, de tolerância de mal-estar e de consciencialização;
•    Estimular a reconstrução de uma auto – imagem mais coesa, minorando a confusão sentida acerca de si próprio.

Este é um trabalho prático, que poderá nalguns momentos envolver familiares e amigos se isso for vantajoso. Os objectivos enunciados são apenas orientadores, dado que todo o processo de ajuda é centrado em si, nas suas características e na sua forma de ver o mundo e pretende-se que tenha impacto não só no seu presente, como também no seu futuro.

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