Qual daquelas estrelas é a avó? O luto infantil

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Maria de Fátima Ferro

Maria de Fátima Ferro

A morte pertence à condição humana não sendo só uma perda, mas também a aproximação de uma ameaça.

O seu significado é pessoal e internalizado, evocando as vulnerabilidades pessoais a ela associadas. Além do desajustamento social, os sentimentos que a acompanham são intensos e multifacetados, afetando emoções, comportamentos e vidas por um longo período de tempo.

Várias são as predições gerais sobre as reações das crianças no luto infantil. Tendo como base os padrões de desenvolvimento cognitivo e emocional apresentados nos diferentes estágios da infância, a aprendizagem relacionada com a perda e o desgosto pode ser uma experiência importante, e pode ser também uma oportunidade para toda a família compartilhar os sentimentos, crenças e as defesas necessárias para o enfrentar. Torres (1978) investigou a relação entre o desenvolvimento do conceito de morte e o nível cognitivo da criança, a partir de uma perspetiva desenvolvimentista de Piaget. A autora identificou três níveis de desenvolvimento deste conceito:

Nível 1 – (característico das crianças do período pré-operatório): não estabelecem claramente a oposição entre seres animados e inanimados, admitem que há vida na morte, não compreendendo este conceito como um processo definitivo e irreversível;

Nível 2 – (característico das crianças do período das operações concretas): progridem na sua capacidade de distinguir entre seres animados e inanimados, já estabelecem uma oposição entre a vida e a morte, não atribuindo vida e funcionamento biológico a este estado. Definem-na a partir de aspetos preceptivos, não sendo capazes de estabelecer generalizações ou dar explicações biologicamente essenciais. Já compreendem a morte como uma condição definitiva e permanente;

Nível 3 – (característico do período operatório formal do desenvolvimento): as crianças estabelecem claramente a distinção entre seres animados e seres inanimados, reconhecem a morte como extensiva a todos os seres vivos e dão explicações biologicamente essenciais.

Muitos adultos acreditam que a criança não entende nada sobre a morte e deve ser poupada de saber que alguém próximo dela morreu. Perguntam-se: “ Ele (a) não será demasiado pequeno(a) para compreender a morte?”, mas para a criança é melhor percebê-la através do próprio desgosto dos pais do que sentir o seu afastamento sem entenderem a razão. Para além disso, é muito provável que ela já tenha perdido algum bicho de estimação ou tenha assistido a alguma cena de morte nos desenhos animados ou noticiários ou se aperceba que algo não está bem através das reações das pessoas que estão à sua volta.

É importante que lhe seja explicado o que aconteceu, para que, também ela, tenha o seu processo de luto. Para uma criança, a noção de morte é diferente da de um adulto. Têm tendência para a equiparar com o ficar sozinha ou abandonada. Se os pais se alhearem sem compartilharem a experiência pelo qual estão a passar, confirmarão os seus piores receios.

Tentar protegê-la dos próprios sentimentos de perda ou da dos pais, pode ser desastroso. As tentativas para ocultar o acontecimento ou os sentimentos que ele provoca, aumentam a sua sensação de abandono.

Uma informação clara e uma comunicação aberta adaptada à sua idade, dada por alguém da sua confiança, sobre os fatos e circunstâncias da morte sem se recorrer a pormenores irrelevantes e respondendo apenas ao que ela quer saber, facilitam o reconhecimento da perda e a vivência do luto de uma forma ajustada.

Quando os pais conseguem transmitir o seu desgosto, as suas próprias interrogações acerca da mortalidade, as recordações e o significado do sofrimento, os filhos têm a oportunidade de sentir com segurança o tipo de problemas que nos atingem a todos. Podem compartilhar com os seus pais as intensas emoções do desgosto e da tristeza.

A comunicação intrafamiliar é vital uma vez que este processo é muito influenciado por aquilo que é conversado com ela, pela maneira como lidam com as suas expressões emocionais, e no caso da morte de uma das figuras parentais, pela forma como o outro progenitor reage e espera que a criança reaja.

Não devemos obrigá-la a ir ao enterro ou velório caso ela esteja assustada e não queira. Neste caso, poderá futuramente encontrar outras maneiras de se despedir e recordar através de fotos e lembranças.

Caso ela manifeste desejo de participar, informe-a sobre o que verá sem recorrer, mais uma vez, a grandes detalhes, explique a razão de estarem ali, deixando-a livre para perguntar e para ficar o tempo que desejar.

Devemos acolhê-la, permitindo o expressar das suas emoções, não a deixando sozinha para que ela perceba que alguém a acompanha nesse processo doloroso. Incentive-a a falar da sua tristeza e da raiva da sua perda, validando os seus sentimentos, conversando sobre o que é o significado da saudade e de como vão tentar atenuá-la.

É importante facilitar o apoio do seu grupo de pares, perguntando-lhe se quer falar com os seus amigos ou colegas da escola, sobre o que aconteceu. Sugira que os colegas chamem a criança para brincar, mas sem insistir.

Explique-lhes o que aconteceu, e que se a criança chorar, qual é o motivo. Oriente-os na forma de agirem.

Se a criança se demonstrar agressiva diga-lhe que todos a entendem e respeitam a sua dor, mas que isso não lhe dá o direito de responder com violência.

 

Morte de um animal de estimação

A morte de um animal de estimação também deve ser encarada seriamente. Não se deve mentir sobre ela à criança, pois corremos o risco de perder a sua confiança. Devemos dizer-lhe o que sabemos sobre a vida e a morte do animal em questão, encorajá-la a falar sobre a sua tristeza e sobre a sua revolta por ter perdido um amigo querido, e dar-lhe um período de interregno para acalmar a sua dor, antes de levarmos para casa um novo animal de estimação, pois também eles são insubstituíveis.

Quanto às reações que as crianças podem apresentar, as mais frequentes podem ser: incompreensão face ao que aconteceu, manifestações somáticas, reações hostis em relação à pessoa que faleceu (por se sentir abandonada por esta), reações hostis face aos outros, pânico decorrente do sentimento de perda ou desamparo, sentimentos de culpa, disforia, tristeza, perda de apetite, perda de interesse pelo que a rodeia, tendência para o isolamento ou problemas sociais, sentimentos de baixa autoestima, , e problemas escolares, o que ressalta a necessidade de os professores estarem informados sobre a situação de perda e poderem acolher melhor a criança.

Nestes casos, e uma vez mais, o papel da família e da escola é essencial para uma adaptação saudável à perda.

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