Quando a ansiedade e o medo se instalam

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Susana Matos Duarte

Susana Matos Duarte

A ansiedade tem sido descrita como um dos males do nosso tempo. Porém, a ansiedade é uma resposta adaptativa do nosso organismo, que tem aspectos positivos. Por exemplo, se tivermos uma apresentação oral num congresso, uma certa dose de ansiedade mobiliza-nos para a acção: se estivermos demasiado relaxados, não nos preparamos para a apresentação. O problema está quando a ansiedade é de tal ordem que nos prejudica no dia-a-dia.

A ansiedade pode ser definida como um estado de tensão emocional que se encontra associado a uma reacção de medo. São duas faces da mesma moeda: a ansiedade corresponde ao processo emocional e o medo ao processo cognitivo. Este medo pode ser objectivo (como ter medo de um animal, de alturas, de sítios fechados, etc.) ou mais subjectivo (medo de não ser aceite pelos outros, de não ser suficientemente bom, etc.), mas não deixa de ser medo.

Um dos paradoxos da ansiedade é o facto de o medo que temos de que uma situação incómoda/indesejável aconteça parecer aumentar a probabilidade de que essa situação realmente aconteça. No fundo, ficamos ansiosos para evitar a situação temida, mas ficamos de tal forma absorvidos por esse medo que podemos fazer mesmo com que aconteça. Por exemplo: um estudante que tem medo de falar em público e que vai ter um exame oral, muito antes do dia do exame já revela uma ansiedade antecipatória excessiva e incontrolável (“não vou conseguir”, “vou fazer figura de parvo”). Assim, no próprio dia, fica de tal forma ansioso que a sua mente fica efectivamente com uma “branca” e não consegue falar. Se analisarmos com mais rigor este e outros episódios de medo excessivo, notamos que a ansiedade afecta praticamente todos os sistemas do corpo: o fisiológico (suor, aumento do ritmo cardíaco, sensação de tonturas, etc.), o sistema cognitivo (antecipação ruminativa, como “vai correr tudo mal”), o sistema motivacional (evitar o mais possível as situações desagradáveis), o afectivo e emocional (sentimento subjectivo de medo, pânico ou terror) e o sistema comportamental (com agitação ou a inibição do pensamento ou da fala). Todo o nosso oganismo fica absorvido pela ansiedade e pelo medo.

Quando a ansiedade e o medo são intensos e prolongados no tempo podem desencadear verdadeiras perturbações, com implicações bastante profundas no funcionamento da pessoa: o seu organismo torna-se hipervigilante, isto é, foca-se, mesmo que de forma involuntária, no perigo ou na ameaça; simultaneamente, esta sensibilidade excessiva ao perigo aumenta os pensamentos automáticos intrusivos que activam a parte afectiva e emocional; como está muito atento aos aspectos menos positivos das situações, tende logo a pensar no pior cenário ou a imaginar catástrofes iminentes. Este funcionamento faz com que a pessoa diminua a sua capacidade de manter a atenção noutras tarefas do dia-a-dia, desgasta a sua energia vital, aumentando o risco de depressão, e perde imensas oportunidades pelo medo, vivendo numa permanente angústia por não conseguir controlar-se.

Nos casos em que a ansiedade se torna num inferno, é importante compreender que, na maioria das vezes, estes medos foram sendo desenvolvidos ao longo de anos, pela forma como foi lidando com o mundo, com os outros e consigo próprio. Porém, como o ser humano tem a maravilhosa capacidade de se construir e reconstruir, ser-se “muito ansioso” não tem de ser uma fatalidade. A psicoterapia é uma ajuda muito eficaz para lidar consigo mesmo de forma mais tranquila e segura. Não se deixe absorver pelo medo, procure ajuda.

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