Quando Ser e Fazer o nosso melhor não é suficiente

Sónia Anjos

Sónia Anjos

Há alguns meses atrás uma criança, com a inocência, o pragmatismo e a sabedoria característicos das crianças, perguntou-me “ se não existe a perfeição porque existe essa palavra?”. Nunca tinha pensado nisso…pelo menos dessa forma. Afinal o que significa perfeição e ser perfeito? De acordo com o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa existem vários sinónimos, entre eles:

Perfeição s.f o mais alto nível numa escala de valores; excelência no mais alto grau; estado ou condição de quem está livre de pecados; atributos existentes em Deus, em grau infinito,…

Perfeito adj em que não há defeitos, que apresenta as melhores qualidades,…

Perfecionismo s.m. principio de sistema moral ou de doutrina religiosa que consiste basicamente em atingir a perfeição a partir de um modelo concebido previamente, o que ocorre com o cristianismo, o estoicismo.

Aqui está um bom ponto de partida para suportar a afirmação que a perfeição não existe. Pelo menos não existe na dimensão humana, mas talvez numa dimensão espiritual/religiosa. O seu uso pode ser contraproducente uma vez que somos humanos e por definição ser humano é ter “defeitos”, é ” não estamos livres de pecados”. Ao querer chamar a nós características de um Deus podemos estar a dificultar a nossa vida.

O João chegou à consulta de psicologia com sintomas de tristeza, ansiedade e tensão que estavam a perturbar o sono, o seu desempenho no trabalho e notava cada vez menos prazer em estar com os amigos. Nesse momento só pensava que teria de desistir ou deixar para trás alguns dos projetos pois não estava a conseguir atingir os seus objetivos. Felizmente o João percebeu que o problema não era o facto de ter vários projetos “em mão” mas sim as expectativas elevadas (e algumas irreais) que colocava em todas as áreas da sua vida, causavando-lhe tensão, cansaço, baixa de energia, ansiedade e frustração. O João era um perfecionista.

Ser perfecionista é uma característica de personalidade que consiste em estabelecer padrões elevados e agir de acordo eles. Na verdade isso não torna o perfecionismo uma característica indesejável ou pouco saudável.

O perfecionismo é adaptativo quando nos motiva para alcançar os nossos objetivos, sem nos julgarmos, sem ficarmos presos ao que “deveria ser” se o resultado não é o que estávamos à espera. Esta atitude perante nós, perante as relações e perante os acontecimentos está associada a um sentimento de bem-estar, aumenta a auto-estima e confiança nas relações que estabelecemos e gera motivação para nos focarmos no que podemos melhorar.

Então existe um perfecionismo que não é saudável? É o perfecionismo que nos deixa ficar presos a ruminações sobre o que “poderíamos” ou “deveríamos” ter alcançado. Fica-se preso à discrepância entre o ideal e o real levando à auto-crítica, ao evitamento de situações onde existe medo de falhar gerando insatisfação, falta de confiança e baixa-auto-estima.

[h2]Como lidar com a dimensão não adaptativa do perfecionismo:[/h2]
Como lidar com a dimensão não adaptativa do perfecionismo:

– Identificar as crenças irracionais e irrealistas e distorções cognitivas associadas a um acontecimento (“ tenho que ser perfeito em tudo ou não valho nada” “ os outros vão julgar o meu comportamento”, “ nunca vou conseguir alcançar com sucesso (100%) o que pretendo fazer”) e alterar por pensamentos moderados, realistas e produtivos

– Encontrar um equilíbrio entre o que é a realidade e as minhas expetativas, os padrões que estabeleci: questionar o que, na realidade, está sob meu controlo e que posso alterar, melhorar ou baixar expetativas por serem irrealistas

– Identificar e implantar estratégias, saudáveis, ativas e de aceitação, para lidar com a discrepância entre padrões estabelecidos e a sua realização (por exemplo focar na resolução de problemas, fazer uma re-avaliação positiva e construtiva, aumentar o auto-controlo, procurar apoio na rede de amigos)

 

Afinal:

É saudável estabelecer padrões elevados para as áreas da vida que valorizamos, esses padrões servem de “mola” para sermos melhores pessoas e alcançarmos os nossos objetivos. Isto é ser perfeito? Excelente? Suficientemente bom?

Ser … é aceitarmos as nossas qualidades e as nossas limitações e procurar um equilíbrio…Afinal somos humanos!

2015-11-21T14:38:47+00:00 Novembro 21st, 2015|Desenvolvimento Pessoal, Sónia Anjos|